Da janela de casa, no bairro Tramandaí, em Laranjeiras, Eliverton Freire acompanha diariamente um pedaço da história ferroviária de Sergipe. A antiga estação de trem, hoje em ruínas, permanece como símbolo de uma época em que os trilhos faziam parte da rotina da população e também das memórias de famílias que viveram próximas à ferrovia.
Na infância, Elivélton costumava observar os trens ao lado de amigos e irmãos. Com o passar dos anos, porém, viu a estação ser abandonada. Segundo ele, o pai, Pedro Freire, passou a cuidar do espaço por conta própria e ajudou a evitar novas invasões no terreno.
“A gente, criança, com os amigos, irmãos também, corria todo mundo ali para o sítio para ficar observando o trem passar. Ficou aquela sensação de abandono. Meu pai começou, mesmo por conta própria, dando manutenção no terreno”, relembra.
Aos 97 anos, Pedro Freire ainda guarda objetos e lembranças do período em que trabalhou na ferrovia. Ele chegou a comprar uma casa próxima à estação para ficar perto do trabalho, mas a desativação das estações ferroviárias em Sergipe mudou os planos.
“Morava na cidade, depois comprei essa casa aqui para vir trabalhar perto do meu emprego, que era a estação. Mas quando eu comprei aqui, fecharam as estações aqui de Sergipe”, conta.
Entre os objetos preservados por Pedro está um equipamento utilizado para sinalizar a passagem dos trens. Ele explica que utilizava as cores para indicar se o trem deveria parar ou seguir diretamente para a estação.
Décadas depois, o desejo permanece: voltar a ver um trem passando pelos trilhos.
“Se eu ainda estiver vivo, ver trem passar aí”, afirma.
Um novo capítulo sobre os trilhos
O sonho de Pedro pode ganhar um novo significado. O governo federal anunciou um investimento de R$ 700 milhões para a implantação de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Sergipe. O projeto prevê conexões entre Laranjeiras e Aracaju, passando por Nossa Senhora do Socorro, além de um trecho entre Aracaju e São Cristóvão.
É justamente entre essas cidades, onde o passado ferroviário ainda está presente, que a expectativa de um novo capítulo começa a surgir.
Laranjeiras e São Cristóvão carregam séculos de história e também uma memória comum: a dos trens que transportavam passageiros, trabalhadores e histórias. Enquanto em Laranjeiras a antiga estação permanece em situação de abandono, em São Cristóvão o cenário começa a mudar.
Estação de São Cristóvão é restaurada
Na cidade histórica, a antiga estação ferroviária passa por obras de restauração e requalificação. O projeto é realizado pela Prefeitura de São Cristóvão com recursos do Novo PAC e contempla os prédios da antiga estação e outros espaços do entorno. O investimento supera R$ 5,2 milhões.
Para quem vive e trabalha próximo ao local, a transformação representa a possibilidade de recuperar não apenas um prédio, mas também parte da memória da cidade.
O comerciante Toni Freire cresceu na região e lembra do movimento provocado pela passagem dos trens.
“A gente cresceu aqui nessa região. Então, todos esperamos que ela volte a ser o que era antes. A buzina do trem, quando a gente escutava, ficava naquela expectativa: ‘o trem já está vindo’”, recorda.
A aposentada Joelina da Silva também guarda na memória os sons que anunciavam a chegada dos trens. Ela conta que, ao ouvir a buzina, costumava sair de casa para acompanhar a movimentação na estação.
“Às vezes eu saía da minha casa, escutava: ‘Eita, o trem já vem’. Aí saía correndo até a estação”, lembra.
Joelina também viajava de trem entre Rita Cacete, São Cristóvão e Aracaju. Segundo ela, as viagens faziam parte da rotina de muitas pessoas.
“Viajava muita gente, tinha lanche dentro do trem, a gente comprava. As cadeirinhas todas organizadinhas. E se voltar esse tempo, vai ser bom demais”, afirma.
Memória que pode voltar a ter movimento
A recuperação da estação de São Cristóvão também é vista como uma oportunidade de fortalecer o turismo e movimentar o comércio da região.
“Toda a redondeza, toda a região aqui vai se beneficiar bastante com turismo, com o desenvolvimento que vai vir junto”, avalia Toni.
Para Joelina, a restauração também representa a possibilidade de voltar a frequentar um lugar que marcou sua vida.
Ao ouvir sobre as obras, ela não esconde a alegria: “Eu fiquei muito contente, alegre, que eu vou dar um passeio”.
Entre estações abandonadas, prédios em restauração e lembranças preservadas por quem viveu a época dos trens, Laranjeiras e São Cristóvão guardam uma parte importante da história ferroviária de Sergipe.
Agora, com a perspectiva de novos investimentos no transporte sobre trilhos, o passado pode deixar de ser apenas memória. Para quem viu os trens partirem, o futuro pode significar a chance de ouvir novamente o som que marcou gerações.







