Primeiro, a curiosidade sucumbiu ao medo e, quando ouviu pela primeira vez a ideia de criar abelhas, Nailza Batista, de 57 anos, recusou sem pensar duas vezes. Acostumada à vida urbana, não se via lidando com enxames, muito menos construindo um empreendimento a partir deles.
Anos depois, entre caixas, potes de mel e prateleiras repletas de derivados da lida apícola, ela garante a própria fonte de renda ao lado do companheiro, José Luiz, de 54 anos, com quem descobriu uma nova forma de enxergar o campo.



A trajetória do casal reflete o avanço da chamada economia prateada no Brasil, conceito que mapeia atividades produtivas e de consumo impulsionadas por pessoas acima dos 50 ou 60 anos. Longe dos estereótipos de passividade comumente associados ao envelhecimento, os fios grisalhos hoje também sinalizam uma fase de grande vigor.
Na maturidade, o empreendedorismo surge tanto para responder a demandas financeiras imediatas quanto para coroar uma vida de conhecimentos acumulados ou dar início a uma nova fase de aprendizagem.
O fenômeno é respaldado por um estudo do Sebrae Nacional baseado na PNAD Contínua do IBGE: entre 2012 e 2024, o número de empreendedores com mais de 60 anos no Brasil saltou 53%, atingindo 4,3 milhões de pessoas. Sergipe acompanhou de perto esse vigor sênior, registrando um crescimento de 49% no mesmo período.
Ao final de 2024, o estado contabilizava 39.890 donos de negócios nessa faixa etária, o que representava 13,8% de todo o ecossistema empresarial sergipano.
“É um processo de aprendizado. A gente buscou uma área, ganhamos um enxame, e a partir daí a gente começou a estudar mais sobre as abelhas, sobre a vida, a forma, a movimentação, como manter e criar”, afirma Nailza.
Ela explica que o esposo aproveitou sua bagagem anterior para realizar capturas de enxames e aplicar conceitos de preservação. A partir dessas conversas e do entendimento mútuo sobre a necessidade de proteger os insetos, os primeiros passos no manejo foram dados. Bombeiro militar, José Luiz teve o primeiro contato com a atividade em 1999, quando, devido à profissão, participou de um curso sobre o tema e se encantou.
“A gente via a abelha como um problema, e com o curso e a busca do conhecimento, eu passei a ver que abelha, na verdade, não era o que se anunciava ser na sociedade. A gente costuma brincar com os apicultores dizendo que a abelha não faz mal, ela faz mel”, diz ele.
Essa jornada encontra eco em números registrados em Sergipe. De acordo com a Análise Conjuntural de 2025 da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), o estado registrou um crescimento de 214% na produção de mel entre 2019 e 2024, saltando de 61,3 para 192,5 toneladas.
O avanço foi significativamente superior à média do Brasil (46,1%) e do Nordeste (70,2%) no mesmo período, consolidando a atividade como uma das mais dinâmicas da agricultura familiar sergipana.

O crescimento cooperativo
Para que essa força produtiva prateada deixe de ser apenas uma estatística, o cooperativismo e o acesso ao crédito se tornaram pilares indispensáveis. Foi essa combinação que permitiu estruturar o Apiário Favo de Mel, projeto iniciado de forma tímida em 2018.
A virada comercial, segundo Nailza, ocorreu durante a pandemia de 2020. O casal aprofundou os estudos sobre as propriedades dos produtos, compreendendo a eficácia no fortalecimento da saúde, o que impulsionou os resultados.

“A gente começou a estudar os produtos e entender que os nossos produtos conseguiam trabalhar de forma muito boa na questão da imunidade, e então a gente foi trabalhando exatamente isso. Nosso empreendimento começou a crescer e a tomar forma de verdade exatamente a partir dali”, destaca a empreendedora.
A família buscou crédito para ampliar a estrutura e o desenvolvimento do apiário. Hoje, em um espaço localizado no município de São Cristóvão, manejam diversas colmeias com a Abelha Africanizada (Apis mellifera), principal espécie para produção comercial em larga escala.
A rotina produtiva foi adaptada à dinâmica do casal. Ao contrário de outras culturas, o manejo apícola permite flexibilidade ideal para quem empreende na maturidade. Nailza relata que as visitas às colmeias ocorrem periodicamente, variando de uma vez por semana a cada 15 dias, momentos dedicados à inspeção, higienização e organização.
“O apiário não é uma área onde você precisa estar todos os dias, o que nos dá muita autonomia”, pontua.
Enquanto ela cuida da gestão, o esposo é responsável pela parte operacional. Para transformar a matéria-prima em produtos competitivos, eles integram a Associação Sergipana de Apicultores, onde a produção é beneficiada via estrutura compartilhada. Segundo a produtora, essa união é indispensável para garantir que o alimento passe por um processo rigoroso de higienização, chegando com qualidade ao consumidor.
Após a etapa coletiva, o material retorna para a Favo de Mel. A empresa é especializada em comercializar tanto os itens das colmeias, como o mel, quanto subprodutos como sabonetes aromáticos, hidromel, velas e licores, oferecidos na loja física inaugurada no bairro Jardins, em Aracaju, e divulgados através de página no Instagram.


“Buscamos mostrar ao consumidor que as possibilidades de derivados são grandes e também promovem tratamentos”, explica Nailza.
Virada do crédito
A transição para um patamar comercial robusto exigiu fôlego financeiro. Após formalizarem o ponto físico em 2023, buscaram o Agroamigo, do Banco do Nordeste, para acessar uma linha de crédito.
“A intenção era aumentar o apiário, ter mais caixas, produzir mais e estruturar melhor o nosso trabalho”, explica Nailza.
O recurso permitiu o aumento das caixas e ampliou a produtividade de forma proporcional ao investimento. A segurança nas condições contratuais também foi um diferencial definitivo, oferecendo a tranquilidade necessária para gerir o endividamento saudável.
“Conseguimos pagar a primeira parcela com tranquilidade a partir da produção da safra”, atesta.
A experiência gerou frutos para além das suas próprias cercas. José Luiz relata ter compartilhado as informações sobre o financiamento com parceiros da associação, motivando outros membros a buscarem o mesmo recurso para alavancarem suas produções.
Para José Luiz, a colheita final desse esforço traz uma doçura à vida nesse estágio da vida, o que supera, inclusive, o retorno financeiro.
“É harmonia e tranquilidade. Essas duas palavras, harmonia e tranquilidade, porque eu tenho a apicultura como uma terapia. Todo pequeno empreendedor, todo pequeno negócio, tem interesse em crescer. O banco vem com uma proposta, e essa proposta é fundamental, porque a dificuldade do pequeno empreendedor é conseguir crédito”, conclui.
Essa engrenagem econômica e social na maturidade é destrinchada pelo professor Fábio Rodrigues de Moura, doutor em Economia pela Esalq USP e coordenador do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Ele aponta que como no caso de Nailza e José, a expansão digital abriu portas fundamentais para que a população 50+ iniciasse a carreira empreendedora de forma ativa no ecossistema de negócios do estado.

“Nós estamos observando mais oportunidades dessa parcela da população conseguir voltar ao mercado de trabalho. Antes, havia uma dificuldade muito grande no empreendedorismo dessa camada da população, mas hoje com a digitalização e os acessos a canais de empreendedorismo muito mais facilitados, isso com certeza ajudou para que esse pessoal pudesse vir e voltar a oferecer sua capacidade, oferecer seu conhecimento”, contextualiza.
Foto: Vitor Samuel

Fortalecimento que vem do quintal
Na zona rural de Itaporanga D’Ajuda, distante 34 km de Aracaju, a economia prateada ganha o tom da liderança comunitária. Aos 67 anos, Eronildes Torquato, agricultor e presidente de uma associação de produtores rurais que caminha para mais de 300 sócios, representa a síntese do vigor na melhor idade.
Como liderança, ele carrega a sensibilidade de quem conhece a dureza do passado na lavoura e a satisfação de ver a realidade mudar, destacando que o investimento na pequena propriedade é uma alternativa real de dignidade econômica.
“Eu me preocupo com a questão do agricultor, porque eu sei o que foi sofrer na roça. Através do nosso trabalho, das nossas produções, hoje a gente já tem uma vida melhor, que a gente conseguiu realmente na nossa agricultura. Eu vi que vale a pena a gente investir na agricultura familiar”, reflete.
Criado na roça desde a infância por uma família de agricultores, ele utiliza o aprendizado de uma vida inteira para trazer projetos sociais e alavancar o desenvolvimento local. Após acessar o crédito do Agroamigo, do Banco do Nordeste, conseguiu expandir seu aviário.


Os resultados financeiros mostram a viabilidade do negócio no quintal de casa: com faturamento constante através da comercialização semanal, a receita bruta chega a patamar em que, mesmo deduzidos os custos com insumos e manutenção do aviário, o lucro líquido gera satisfação. Por isso, ele garante a eficácia do suporte financeiro.
“Não há projeto melhor que esse para levantar a cabeça do pequeno agricultor”, afirma Eronildes.
O sucesso do avicultor ocorre em um setor de extrema relevância econômica para o estado. De acordo com os indicadores de monitoramento da avicultura da Emdagro, Sergipe mantém um efetivo total estimado em 7,36 milhões de cabeças de galináceos, ocupando a 21ª posição nacional. É uma cadeia produtiva que, no entanto, exige precisão e resiliência: os relatórios oficiais alertam que os pequenos produtores enfrentam constantes desafios de mercado, como a forte oscilação nos custos dos grãos para ração, especialmente o milho e a soja.
Para blindar o avicultor dessas instabilidades e garantir que o ganho real de capital chegue na maturidade, a Emdagro mudou sua postura de mercado, adotando o processo inverso: em vez de esperar a demanda chegar aos escritórios, os técnicos vão ativamente ao encontro dos produtores.
O diretor técnico de extensão rural e pesquisa da Emdagro, Jean Carlos, destaca que a equipe passou a visitar pessoalmente os agricultores para entender as metodologias de criação e avaliar a rentabilidade real dos sítios.
Ele ressalta que a presença das equipes nos assentamentos serve para aproximar o produtor das ferramentas de financiamento e desmistificar os canais formais de crédito.

“Técnico e veterinário vão nas comunidades ver como estão criando e como podem melhorar, e mostrar as linhas de crédito, mostrar que podem pegar um financiamento bancário“, afirma.
Foto: Emdagro
O foco vai além da sobrevivência ou da subsistência alimentícia. O diretor pontua que os técnicos ensinam os produtores a enxergar as aves como geradoras de renda, por meio de processos simples como limpeza e apresentação, o que eleva consideravelmente a lucratividade na ponta final da venda.
“O extensionista vai lá naquela pessoa que tá desacreditada, que acha que aquilo não dá certo, que já faz aquilo há 30, 40 anos, então ele tem aquela missão de chegar ali, interagir, de mostrar os caminhos, pegar os bons exemplos e mostrar que aquela relação com o banco é um pontapé inicial que ele vai estar tendo”, disse.
A grande novidade para o fortalecimento dessa cadeia estrutural será o lançamento de um polo de capacitação na região do Agreste. Jean Carlos anuncia que a Emdagro, em cooperação com a Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vai inaugurar um aviário escola no Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) de Itabaiana, cobrindo desde as etapas de incubação até o manejo de raças específicas e adaptadas, como a galinha canela preta.
O gestor detalha que a nova unidade pedagógica servirá de base técnica para impulsionar tanto a produção de carne quanto a comercialização interna de ovos em todo o território sergipano.
“Nós estaremos inaugurando nosso aviário escola para incluir pequenos avicultores de todo o estado de Sergipe e qualificar, tanto para a produção de corte como para a produção de ovos”, destaca.

O poder do coletivo
Mais do que o próprio sucesso, Eronildes se dedica a impulsionar os vizinhos. Ele atua diretamente na regularização documental da comunidade, lutando para que os produtores obtenham o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e o Cadastro Ambiental Rural (CAR).
“A gente começou a trabalhar e, graças a Deus, muitos produtores hoje estão produzindo abacaxi, laranja, macaxeira e suinocultura”, detalha.
A lida diária no sítio conta com o apoio direto da família. A esposa de Eronildes compartilha da mesma paixão pela terra e assume o manejo das aves ao lado do filho. O agricultor revela que o lucro de apenas uma cultura acessória supera de longe o valor do investimento inicial.
O escoamento das mercadorias também se provou um processo simples. Usando o ditado popular de que a propaganda é a alma do negócio, Eronildes passou a anunciar a produção no grupo de mensagens da associação. Hoje, os clientes buscam ovos e aves diretamente em sua propriedade.
A facilidade com que conduz o negócio serve de argumento para vencer a desconfiança dos companheiros de campo mais receosos. Para ele, o ceticismo de alguns trabalhadores rurais decorre unicamente do histórico de isolamento e da falta de assistência.
“O pessoal que às vezes fica menos desacreditado, é só falta de informação. O sofrimento é tão grande às vezes no campo, e a falta de crédito, a falta de informação, a falta de incentivo, [por isso] o pessoal muitas vezes fica desmotivado”, afirma.
Com palestras e reuniões focadas no associativismo, Eronildes tente motivar a fixação do homem e a mulher no campo, evitando o êxodo rural para subempregos nas cidades.
A visão de Eronildes agora mira horizontes comerciais maiores. Ele afirma que trabalha para obter o CAF Jurídico da associação, visando acessar mercados institucionais e garantir canais fixos de escoamento da produção, diminuindo a dependência de intermediários.
Essa estratégia de fortalecimento coletivo é endossada pela diretoria da Emdagro. Jean Carlos explica o cooperativismo por meio do ganho de escala: compras conjuntas reduzem o preço dos insumos e geram maior poder de barganha na venda final.
O diretor enfatiza que a união formalizada protege a margem de lucro do produtor e enfraquece a atuação predatória de intermediários comerciais na cadeia de venda.
“Então, o primeiro impacto que a gente tenta mostrar, a vantagem de trabalhar no cooperativismo é esse, que é a união. Você tira um pouco aquele atravessador que compra seu produto lá barato e vende lá em cima e você fica praticamente sem nada”, aponta.
Por trás das trajetórias de sucesso individual e coletivo que redesenham o interior sergipano, há um esforço institucional contínuo voltado para desatar nós burocráticos. O diretor técnico Jean Carlos aponta que o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) atua como o principal passaporte de cidadania e desenvolvimento econômico para o produtor.
A união entre a assistência da autarquia e as linhas do Pronaf e Agroamigo consolidou um ciclo de expansão: entre 2023 e 2026, Sergipe ultrapassou a marca histórica de R$ 1,04 bilhão em recursos liberados para a categoria, somando 81.943 operações de crédito viabilizadas por uma base de 63.770 CAFs emitidos.
O estado iniciou o período movimentando R$ 230,6 milhões em 2023, saltou para R$ 336,6 milhões em 2024 e atingiu o ápice em 2025, com R$ 364,8 milhões liberados. O ritmo segue aquecido em 2026, que já registra mais de R$ 116,4 milhões em contratos firmados até o momento.
Nesse cenário, o diretor ressalta o impacto socioeconômico do documento, pontuando seu valor para o volume bilionário de recursos movimentados no estado nos últimos anos.
“Essa carteirinha é a que habilita para o agricultor poder ir ao banco, pegar o seu empréstimo, pegar seu investimento, até para a aposentadoria serve. Nesses últimos quatro anos de governo, foram emitidos através da Emdagro mais de 63 mil CAFs. Isso representou mais de R$ 1 bilhão que chegou para o pequeno agricultor”, destaca.
Além do suporte cartorial e de documentação, o diretor destaca que a Emdagro foca no crédito orientado para garantir a saúde financeira do campo. Ele afirma que o acompanhamento técnico presencial impede o desvio de finalidade dos financiamentos.
“Se você pegar dinheiro para investir em suas aves, suas coisas, então a gente vai lá ensinar e vai acompanhar para você investir. Porque muitas vezes a pessoa quer pegar um recurso para uma determinada atividade, ou usa para outra atividade, que não tem nada a ver com seu negócio, por isso que nunca dá certo”, completa.

O gargalo informacional e a sucessão familiar
Para o professor Fábio Rodrigues de Moura, é preciso fazer o conhecimento técnico chegar à zona rural para que o produtor maduro compreenda os custos envolvidos no processo e, principalmente, as vantagens competitivas da formalidade.
Moura ressalta que o combate à desinformação é o passo primordial para consolidar o crescimento das cadeias produtivas, uma vez que a informalidade bloqueia o acesso a linhas de crédito, por exemplo.
“Agora é claro que nós podemos pensar em um fortalecimento dessas iniciativas, porque sem dúvida alguma a primeira barreira que tem que ser removida é a barreira informacional. Há linhas de crédito que você pode conseguir apenas sendo formalizado, que jamais você poderia conseguir na informalidade”, aponta.
Para mitigar esse isolamento e impulsionar a sustentabilidade produtiva no interior, o professor propõe cruzar o conhecimento técnico acumulado pelos idosos com a facilidade tecnológica das novas gerações dentro do próprio núcleo familiar. A estratégia visa integrar os jovens não apenas como herdeiros da terra, mas como parceiros de gestão.
“No campo, a gente sabe que muitos negócios e empreendimentos são mantidos pela população de idade mais elevada. Eu acredito, que também a gente deve focar nos jovens, apontando que, ao trabalhar em conjunto, só tem a ganhar, principalmente quando a gente pensa na renda familiar”, finaliza.







