Divina Pastora, Sergipe, Brasil – Uma arte secular que se reinventa na irreverência da criatividade e na força da memória coletiva. Com o vai e vem das mãos, um desenho, depois um traçado e o alinhamento de ideias, Alzira Alves demonstra um ofício e uma rede de aprendizado que atravessam gerações, sustentados pela oralidade, pelo convívio comunitário e pela transmissão afetiva do saber-fazer.
Aos 77 anos, é considerada mestra da renda irlandesa de Divina Pastora, reconhecida em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e incluída no Livro de Registro dos Saberes Nacional.
Entre lacês, alinhavos e pontos, Dona Alzira construiu uma trajetória de mais de 60 anos dedicada ao ofício no município localizado a 41 quilômetros de Aracaju, no Leste sergipano.

“Já fiz toalha de mesa, toalha de banquete, passadeira, vestido de noiva, vestido sem ser de noiva. E por aí fui levando, fui fazendo até a data de hoje”, afirma.
Foto: Vitor Samuel
O aprendizado aconteceu dentro de casa, observando o trabalho das mulheres da família enquanto elas costuravam o cotidiano junto aos pontos. A renda irlandesa se tornou, ao longo do tempo, fonte de sustento, autonomia financeira e pertencimento cultural para dezenas de mulheres da região e recebeu selo de Indicação de Procedência (IP) concedido pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) em 2012.
Na pequena cidade sergipana onde parece que tudo é feito de mãos – que criam, rezam e contam histórias sem precisar mostrar o rosto – mulheres idosas conduzem um ofício que integra o que é definido como economia prateada, que é o conjunto de atividades econômicas protagonizadas por pessoas 50+ ou 60+ que permanecem ativas, produtivas e socialmente inseridas.
Esse contingente está sendo mapeado por meio de agentes comunitários de saúde da Prefeitura Municipal de Divina Pastora. Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, as informações fornecidas pelas associações de rendeiras apontam que hoje o município possui algo em torno de 180 rendeiras em atividade. Apesar da participação de outras faixas etárias, em maioria há mulheres que encontram na maturidade a força motriz da produção.
O cenário corrobora mapeamento nacional trazido pelo “Estudo Econômico do Setor de Artesanato no Brasil”, publicado neste ano pelo Sebrae por meio do Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB). Segundo a pesquisa, o fazer artesanal no país é majoritariamente feminino (60,7% de mulheres) e consolidado na chamada economia prateada: metade dos artesãos brasileiros (50%) tem 50 anos ou mais.

A linha do tempo e o protagonismo econômico feminino
A permanência da técnica em Sergipe se sustenta, sobretudo, pela transmissão oral. Os registros históricos preservados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apontam que a renda irlandesa chegou inicialmente aos casarões da elite açucareira antes de ser apropriada e ressignificada pelas mulheres da comunidade local.
Entre as histórias contadas sobre a chegada da técnica ao município, Dona Alzira preserva a memória transmitida pelas mulheres mais velhas da família: missionárias irlandesas teriam desembarcado em Divina Pastora há mais de um século para ensinar catequese e, junto dela, apresentaram os primeiros pontos da renda às moradoras da cidade.
Segundo a artesã, as freiras ensinaram o ofício a Dona Julie, proprietária de um engenho da região. Dona Maroca, tia de Alzira, trabalhava na casa da senhora e aprendeu a técnica observando o fazer cotidiano. Depois, ensinou às irmãs, entre elas Dona Sinhá, que transmitiu os conhecimentos às meninas da família até que o saber chegasse a Alzira por intermédio da prima Lourdes.
“Foi passando de geração para geração. Minha tia Sinhá ensinou minhas primas e outras pessoas, a população daqui aprendeu tudo com ela, com minha tia”, lembra.

Nascida em Rosário do Catete e criada em Divina Pastora, Alzira teve os primeiros contatos com a renda ainda na infância, por volta dos 10 anos de idade. Mais tarde, já casada, dividia o tempo entre o trabalho na roça e os bordados feitos à mão. Em meio às dificuldades financeiras, a renda ajudou a sustentar a casa e criar os filhos, como um complemento essencial do orçamento familiar.
“Foi uma coisa um pouco difícil, mas deu para levar. Estou até aqui ainda. Eu trabalhava em roça e eu fazia renda, eu criei os seis filhos, tudo isso com a renda. Para ajudar o marido, porque ele não podia, [para] comprar um chinelo, uma roupa, tinha que ajudar”, relembra a rendeira, que hoje faz parte da Associação para o Desenvolvimento da Renda Irlandesa de Divina Pastora (ASDEREN).
O ofício ultrapassou os limites da casa e se transformou em missão compartilhada. Ao longo dos anos, Dona Alzira ministrou cursos, ensinou novas rendeiras e passou a defender a preservação da tradição minuciosa.
“Estamos lutando para preservar, para não acabar. Eu gosto de trabalhar, tanto que às vezes a gente queima até a panela, porque a gente tá entretida em terminar essa tarefa, aí a panela tá no fogo, e a gente se esquece da panela, mas é uma satisfação muito grande. Eu gosto de trabalhar com a renda. Já ensinei muito. Já dei muito curso aqui e acolá”, completa.




Essa dinâmica de transmissão de saberes e sustentabilidade econômica não é recente no estado. A antropóloga Christiane Falcão aponta que, historicamente, o artesanato sempre atuou como uma ponte entre gerações e uma ferramenta de sobrevivência essencial.

“Eu entendo que a gente tem hoje, principalmente em relação às mulheres com mais de 50 anos, guardiãs de um conhecimento tradicional histórico, e de um ponto de vista muito importante de salvaguarda da relação com os territórios tradicionais. Um outro aspecto interessante é ser essa ponte intergeracional do que são as cadeias produtivas de artesanato”, explica.
Foto: Arquivo Pessoal
Para a antropóloga, a construção histórica também fundamenta o artesanato como uma ferramenta de união e liderança das mulheres em suas comunidades.
“É compreender o processo histórico de integração dessas atividades como atividades que são de coesão social, e atividades de protagonismo feminino, de empoderamento econômico feminino também” , pontua Christiane.

Pedagogia da observação
Maria Amélia Barbosa, conhecida como Duzinha, também aprendeu ainda criança, observando as mulheres mais velhas reunidas nas portas das casas. Aos 67 anos, ela relembra que a curiosidade foi o primeiro fio que a aproximou da renda.
“Primeiro eu via aquela senhora Maroca, foi quem distribuiu esse saber pra gente. Eu via fazendo Sinhá, que faleceu, a Dona Alzira, esses mais velhos. […] Aí eu disse: ‘me arrume um lacê e faz uma florzinha para mim, para eu aprender’”, recorda.

Segundo Duzinha, o aprendizado aconteceu de forma natural, acompanhando o ritmo das mulheres da comunidade até começar a produzir as próprias peças em casa.
Foto: Vitor Samuel
Hoje, ela está aposentada, e após enfrentar um câncer, vê a renda como fundamental para complementar os gastos cotidianos, especialmente relacionados à saúde.
“O idoso gasta muito porque você sabe que é saúde. O salário mínimo hoje é uma ajuda, mas não é tudo não”, diz.
O fortalecimento e a organização dessas mulheres na cidade ganharam corpo por meio de arranjos coletivos tradicionais, como a ASDEREN e a Associação das Rendeiras Independentes de Divina Pastora (Asdrin), esta última onde Duzinha atua hoje de forma independente. As associações, além de um espaço compartilhado para rendar e estabelecer relações, ajudam a propulsionar o trabalho das artesãs e as vendas.
Ao analisar essa transmissão informal, Christiane Falcão afirma que o “saber-fazer” está profundamente ligado à rotina das comunidades, onde pessoas se apropriam do ofício por meio da “pedagogia da observação”.
Esse processo de experimentação, para a antropóloga, dá a consistência necessária para a autonomia econômica e a salvaguarda da herança sergipana.
“Tanto do ponto de vista de uma maior conscientização dos artesãos com relação ao processo de patrimonialização dos seus fazeres, como também dando relevância a esse aprendizado de observar”, completa.

O processo minucioso e o mercado
O processo de produção da renda irlandesa exige precisão e paciência. Sobre uma folha de papel manteiga, surgem inicialmente os desenhos sinuosos, geralmente flores, folhas e arabescos que servirão de guia para o trabalho. O risco é fixado sobre uma base mais resistente, normalmente papel madeira, e então recebe o alinhavo do lacê, cordão que contorna toda a composição e sustenta a estrutura da peça.
A partir desse contorno, os espaços vazios são preenchidos manualmente com agulha e linha, utilizando diferentes pontos que conferem relevo, textura e movimento à renda. Entre os mais tradicionais estão a redinha, considerada o ponto básico, os ilhoses, as aranhas, os barretes e os picôs. Ao longo dos anos, rendeiras também catalogaram pontos como abacaxi, boca de sapo, casinha de abelha, espinha de peixe, pé de galinha e tijolinho, entre dezenas de outros nomes que ajudam a preservar a identidade do ofício.




Fotos: Vitor Samuel
Assim, a tradição permanece em constante transformação. As próprias artesãs criam adaptações, incorporam referências de outras tipologias e desenvolvem novos desenhos e combinações de pontos, ampliando as possibilidades estéticas da técnica.
Maria Amélia explica que muitas dessas inovações surgem da observação de outros trabalhos manuais.
“Quando tem mais, é porque a gente inventa, através da outra renda, da Renascença, a gente acha bonito, aí coloca na renda irlandesa, que elas são parecidas”, conta.
Segundo ela, essa liberdade criativa ajudou a transformar também os produtos confeccionados. Se antes predominavam peças de cama, mesa e banho, hoje a renda ocupa espaço em roupas, acessórios e artigos contemporâneos.
“Porque antigamente a gente fazia era cama, mesa e banho. E de uns tempos, já tem muito tempo, que a gente começou a inventar o quê? Roupas. Começaram a pedir, aí a gente faz saia, faz blusa”, relata.
Cada etapa exige domínio técnico, e mais do que expressão artística, o ofício continua sendo fonte de renda extra e autonomia financeira, sobretudo, para mulheres que permanecem economicamente ativas através do artesanato e tentam fazer com que o mercado enxergue o valor agregado da peça.

É o caso de Maria Clara, de 62 anos, que aprendeu a rendar aos 11, acompanhando o trabalho das irmãs. Antes mesmo de ingressar no serviço público, já encontrava na renda uma forma de sustento complementar.
“A renda irlandesa significa para mim gerar renda, porque eu faço o meu trabalho e é uma renda extra. Para mim, a renda tem um valor muito grande, eu digo assim, o amor, que ela não perca a sua história”, afirma.
Contudo, para manter viva essa engrenagem, as artesãs precisaram se adaptar às novas exigências de um mercado cada vez mais digital. Na atual dinâmica de comercialização, o desafio ultrapassou o ato de produzir; passou a exigir também o esforço de promover. Essa necessidade de alcançar novos públicos levou algumas rendeiras a converterem as redes sociais em vitrines globais para a tradição.
A ASDEREN, por exemplo, mantém o site “Vitrine ASDEREN”, uma plataforma digital onde são expostos desde jogos americanos, adereços, bolsas e carteiras até sofisticados vestidos e toalhas diversas.
Esse movimento reforça como a confecção da renda irlandesa deixou de ser apenas uma atividade de subsistência doméstica para se consolidar, essencialmente, como uma expressão legítima da economia criativa.
No aspecto trabalhista, embora a categoria ainda lute pelo reconhecimento formal da profissão, essa força de trabalho autônoma engorda as estatísticas oficiais. De acordo com a PNAD Contínua do IBGE, Sergipe apresentou o melhor desempenho do Brasil na criação de postos de trabalho e ocupações no setor da economia criativa.
Impulsionado por arranjos produtivos e informais que unem o saber tradicional ao mercado, o estado registrou um crescimento de 39% na comparação entre o terceiro trimestre de 2022 e o de 2024, saltando de 36.601 pessoas para a marca de 50.858 trabalhadores ativos na área.
Maria Amélia, que mantém a produção independente, comercializa peças em feiras e eventos em Aracaju. Hoje, ela prefere produzir peças menores, como colares e panos de bandeja pela maior procura comercial.
“Olha, eu gosto de fazer pano de bandeja, barrinhas, colares, que os colares saem muito, as pessoas procuram muito. Agora assim, passadeira grande, colcha, era antigamente, que eu era mais jovem”, relata.
Enfrentando esse mesmo desafio, Maria Clara, ao lado das irmãs, mantém a página As Marias, onde equilibra o manuseio das agulhas com a gestão de conteúdo digital para atrair compradores de outras regiões.
“Eu tenho clientes antigos, e clientes que vêm trabalhar em Divina Pastora. […] Tem um público pela rede social, que hoje é muito importante a divulgação, e um vai passando para outro. Aquele que compra já posta. Aí as pessoas se interessam”, explica.
Mas com as limitações físicas trazidas pelo tempo, ela adaptou a rotina para continuar produzindo.
“Hoje eu me encontro com 62 e digo, não sei quando vou parar. Até fui para o médico de vista para mudar a lente do óculos, porque é uma história que me faz lembrar da minha mãe. Não tenho filha para dar continuidade, mas quando alguém nos procura para ensinar é gratificante, para que esse trabalho, eu digo assim, o amor pela renda irlandesa não morra”, diz.

Inclusão socioprodutiva e amparo legal
No aspecto trabalhista, embora ainda não sejam reconhecidas sob o regime formal, as rendeiras atuam ativamente como empreendedoras na vanguarda da economia criativa e cultural. Como resposta a essa realidade, a Prefeitura de Divina Pastora aponta que está desenvolvendo ações de inclusão socioprodutiva com o Plano de Desenvolvimento para a Renda Irlandesa e Rendeiras Pastorenses, instituindo cinco leis municipais voltadas a fortalecer a geração de renda e a proteção social da categoria.
Essa legislação visa viabilizar o programa “Renda no Mundo”, que custeia a participação em feiras nacionais e internacionais, ao mesmo tempo em que cria uma bolsa mensal para rendeiras em situação de vulnerabilidade social ou violência doméstica. O plano também destina um auxílio mensal para as associações produtoras; em contrapartida, as instituições assumem o compromisso de ensinar permanentemente o ofício na rede municipal de ensino para enfrentar o gargalo da sucessão geracional.
Além disso, o município planeja instituir programa com foco no cuidado integral da saúde da mulher com acesso a exames, consultas, tratamentos e doação de óculos e próteses. Para os próximos 12 meses, a estimativa do município é injetar uma ampliação de aproximadamente R$ 250 mil investidos diretamente nessas ações.
Se o “tempo não tem parada”, como no caso das rendeiras de Divina Pastora, muitos que protagonizam a economia prateada e criativa em Sergipe descobriram na arte uma forma de caminhar junto a ele. Senhor de rugas e marcas, o tempo deixa de ser o peso que assusta para se tornar o mestre que refina o fazer manual. A maturidade ativa transforma herança cultural em autonomia e, entre fios, barro ou memórias, os artesãos miram o amanhã sabendo que, se o tempo não para, o saber vai longe.









