Produzir alimentos em regiões marcadas por longos períodos de estiagem nunca foi uma tarefa simples. Nos últimos anos, porém, o avanço das mudanças climáticas tornou esse desafio ainda maior para milhares de agricultores familiares sergipanos. Com o aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a necessidade de produzir cada vez mais, investir em tecnologias sustentáveis deixou de ser uma escolha e passou a ser uma condição para quem deseja permanecer no campo.
Para pequenos produtores, no entanto, essa realidade costuma esbarrar em um obstáculo: a falta de recursos para investir. É nesse cenário que o microcrédito rural ganhou força. O crédito orientado passou a funcionar como uma ferramenta de adaptação climática, permitindo que famílias continuem produzindo, gerando renda e reduzindo os impactos ambientais de suas atividades.
Produtores, técnicos agrícolas, pesquisadores e gestores públicos ouvidos pela reportagem afirmam que, embora o acesso ao financiamento ainda represente um desafio para parte dos agricultores, ele tem impulsionado a produção agrícola dos produtores sergipanos, fortalecendo a permanência no campo e viabilizando as práticas sustentáveis.
A dimensão desse movimento é constatada desde a criação do Agroamigo, quando o Banco do Nordeste já aplicou mais de R$ 51 bilhões em microcrédito rural, consolidando o programa como um dos principais instrumentos de desenvolvimento sustentável para a agricultura familiar. O estudo foi realizado pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene).

O sonho que brotou da estufa
A trajetória de Elenilza Menezes, empreendedora de Itaporanga d’Ajuda, é um exemplo de como o acesso ao crédito pode transformar o desemprego em um negócio próspero e sustentável. Apaixonada por plantas desde a infância, ela viu sua vida mudar em 2017, quando começou a vender mudas de cactos em feiras livres. Contudo, o crescimento do negócio esbarrava na falta de estrutura para cultivar as plantas nos períodos de calor intenso do Nordeste. “Para cultivar, precisamos da estufa para ter o local adequado para o desenvolvimento. Sem o recurso, eu não conseguia avançar”, relembra.

A virada de chave aconteceu há cerca de um ano, por meio de um financiamento de R$ 15 mil junto ao Banco do Nordeste. Com o recurso, Elenilza construiu sua primeira estufa e abriu a loja física “Cactos na Janela”. O investimento não apenas protegeu a produção das variações climáticas, como também impulsionou o faturamento. “A estufa possibilita que, mesmo no verão, a gente faça as mudas. No Nordeste é muito quente e o sol dificultava o processo. Hoje eu produzo tudo sem problemas e isso aumentou minhas vendas”, explica a empreendedora, que também atua como artesã, pintando os próprios vasos de cerâmica.
A sustentabilidade no negócio de Elenilza aparece na prática do reaproveitamento. Em parceria com o esposo, ela utiliza o esterco de galinha misturado à casca de arroz carbonizada para criar um substrato orgânico que dispensa fertilizantes químicos. “É através da mistura desses elementos que minhas plantas ficam bonitas”, afirma. Além da loja, Elenilza integra a feira itinerante do Governo do Estado, embora ainda enfrenta gargalos logísticos, como a falta de transporte para eventos e a ausência de um veículo próprio para buscar insumos em outras cidades.



Mesmo com os desafios, ela deixa um recado para outras mulheres que desejam empreender no campo: “Sonhar é fácil, mas sem o dinheiro para concretizar, não é simples. Procurem bancos como o Banco do Nordeste para apoiar, porque não existe sonho impossível. Eu construí essa loja do zero”. Atualmente, a empreendedora finaliza a mudança de sua estufa para o povoado Nova Descoberta, onde planeja consolidar de vez o faturamento do negócio que nasceu de uma única caixinha de cactos.

Resiliência e persistência no leite orgânico do Sertão
A estufa construída por Elenilza protege pequenos cactos do excesso de sol. No Alto Sertão, centenas de quilômetros dali, outro produtor também descobriu que sobreviver às mudanças climáticas depende de investimento. Só que, no lugar das plantas ornamentais, o desafio está na produção de leite.
No povoado Craibeiro, em Porto da Folha, a atividade leiteira ganha contornos semelhantes de superação e sustentabilidade na história de Valtemberg Santos. Dedicado à produção de leite orgânico, ele fala que sua trajetória começou do absoluto zero, sustentada apenas pela determinação e por uma oportunidade familiar inicial.
“Quando eu comecei, eu não tinha nada, nada na vida. É só a coragem e a roupa do corpo. E uma chance também que minha mãe me deu um pedaço de terra para eu tomar conta, assim, passou aquela carta arrendamento, né? Aí foi onde eu consegui construir um pouquinho do que eu tenho hoje, que é através disso, do Banco do Nordeste”, relata Valtemberg, que hoje celebra as conquistas estruturais no campo: “Hoje eu tenho minha casa, tenho minha área de terra, tenho minhas vacas, tudo através do Banco do Nordeste”.


Para o produtor, o manejo do gado leiteiro exige dedicação ininterrupta, mas o retorno financeiro é o que mantém a estabilidade do sítio e viabiliza o pagamento dos investimentos. “Sempre quando eu tiro esses projetos, eu gosto de investir numa vaquinha parida, porque o gado dá muito retorno. É assim, ele é trabalhoso, não tem férias, não tem dia santo, todo dia você tem que estar com elas, cuidando delas. Mas de recompensa ela dá o dinheirinho para poder pagar as parcelinhas do banco. Não dá para tudo, tudo não, mas é uma grande força, é uma grande ajuda”, explica.
Apesar dos imprevistos severos na rotina rural, a parceria com o crédito orientado se manteve como ponto de apoio essencial. “Esse ano, no começo do ano, 13 de janeiro, eu me acidentei aqui fazendo uma ração para as vacas mesmo. Aí me acidentei, passei… tô ainda quase parado, mas tirando disso não tenho nada a reclamar, só tenho a agradecer a Deus e o pessoal que trabalha no Banco do Nordeste”, afirma o produtor, reforçando a importância do fomento para quem quer evoluir: “O banco dá uma força bastante. O pequeno, se ele tiver cabeça, se ele tiver opinião, ele só tem a crescer, só tem a subir na vida”.
Sol, água e agroecologia: O tripé do investimento sustentável no BNB
Em Sergipe, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) tem contribuído gradativamente, através da oferta de linhas de créditos, para a promoção do desenvolvimento sustentável no meio rural. O gerente do Agroamigo no estado, Luiz Morato, explica que o banco tem avançado gradativamente na oferta de crédito para produtores que adotam práticas de baixo impacto ambiental. Segundo ele, o foco atual está no tripé energia solar, armazenamento de água e agroecologia. “Nos últimos cinco anos, intensificamos o trabalho com linhas específicas como o Agroamigo Sol, Água e Agroecologia. O objetivo é conscientizar o agricultor de que ele pode economizar e ser produtivo sem agredir o meio ambiente de forma efetiva”, ressaltou.
A estratégia de atuação não se limita ao repasse financeiro, mas começa na base informativa. Morato destaca que o primeiro contato do agricultor com o programa ocorre por meio de palestras, onde temas como o uso racional da água e a redução do uso de agrotóxicos são centrais. “O agente de microcrédito é o profissional que está no campo, orientando sobre essas práticas sustentáveis desde o primeiro momento e ao longo de todo o atendimento”, afirmou o gerente, ressaltando que esse esforço de conscientização também conta com parcerias de órgãos como a Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e a Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri).
No estado, os resultados desse estímulo são mais visíveis nas regiões áridas. De acordo com o gerente, as linhas de crédito têm números expressivos especialmente no Semiárido e no Sertão, onde a necessidade de aproveitamento hídrico e o potencial para energia solar são maiores. “Lá o público tem a maior necessidade e também a maior possibilidade de uso contínuo desses recursos. Mas nosso objetivo é aumentar essa atuação em todo o estado, tornando o atendimento a práticas sustentáveis uma prioridade cultural e natural do banco”, explicou Morato.
Os dados de 2025 refletem essa prioridade no orçamento do microcrédito rural no estado. No ano passado, o Agroamigo movimentou mais de R$ 364,8 milhões em Sergipe, totalizando 26.201 operações de crédito. Dentro desse montante, o destaque foi para a Agroecologia, que somou R$ 46,7 milhões em investimentos. O programa Agroamigo Água registrou a maior capilaridade, com 9.271 operações (cerca de R$ 22,8 milhões), seguido pelo Agroamigo Sol, com 870 contratos (R$ 2,3 milhões), demonstrando a adesão crescente do produtor sergipano às novas tecnologias sustentáveis.
O apoio da Seagri para acelerar a transição agroecológica
O diretor de Assistência Técnica da Seagri, Jean Carlos, destaca que a “porta de entrada” para que o investimento chegue ao pequeno produtor é o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). Através de um termo de cooperação técnica entre o Governo do Estado e o Banco do Nordeste, a Emdagro atua na ponta, identificando o agricultor e elaborando os projetos necessários para o acesso às linhas do Pronaf. “Sem essa identificação, o produtor não acessaria o crédito. Em 2025, emitimos 17.500 CAFs que resultaram em mais de 26 mil operações bancárias. É um volume de R$ 364 milhões injetados diretamente na economia dos municípios sergipanos”, detalhou.
De acordo com o diretor, esse montante movimenta toda a cadeia econômica local, desde lojas de materiais de construção até insumos veterinários. No Alto Sertão Sergipano, em municípios como Porto da Folha, Nossa Senhora da Glória, Poço Redondo, Gararu e Carira, o impacto foi de R$ 60 milhões apenas em 2025. Jean Carlos ressalta que o trabalho do técnico vai além do papel. “O profissional visita a propriedade e orienta se o projeto deve ser para custeio, animais ou irrigação, garantindo que o recurso seja aplicado de forma correta na atividade rural”.

Foco na Transição Sustentável
No que diz respeito à sustentabilidade, o diretor revela que o estado criou uma coordenadoria específica dentro da Emdagro para atender quem deseja sair do modelo convencional para o agroecológico. “Temos hoje um corpo técnico voltado exclusivamente para orientar essa transição. O grande desafio é produzir sem agrotóxicos, por isso o Centro de Difusão de Tecnologia (CDT) em Itabaiana ensina práticas naturais, como a produção de biofertilizantes e o controle de pragas com fungos e bactérias”, explicou.
O estímulo à produção sustentável também passa pela garantia de venda. Jean Carlos cita a participação de Sergipe no programa de aquisição de alimentos saudáveis do Consórcio Nordeste, que facilita a comercialização com preços diferenciados. “Quem está na agroecologia consegue vender melhor. Já temos exemplos práticos, como a Casa do Mel em Campo do Brito, que trabalha com mel orgânico certificado. É um passo de cada vez para mostrar que é possível produzir interagindo perfeitamente com o meio ambiente, sem desmatar e recuperando áreas degradadas”, concluiu.
O desafio da mudança estrutural: crédito sozinho não basta
Para que o microcrédito rural ultrapasse a barreira da subsistência e promova uma transformação real no campo, a ciência aponta que o recurso financeiro deve caminhar de mãos dadas com a assistência técnica e o acesso ao mercado. Para a Drª. Ana Paula Villwock, docente do Departamento de Engenharia Agronômica da Universidade Federal de Sergipe (UFS), o impacto do Pronaf B em Sergipe é relevante para a manutenção produtiva e inclusão social de jovens e mulheres, mas ainda enfrenta limites estruturais. “O crédito é percebido pelo agricultor como uma condição de viabilidade. Ele permite que famílias continuem produzindo mesmo com baixa capitalização, mas nem sempre promove uma mudança de estrutura significativa ou acúmulo de riqueza”, analisa.

A especialista alerta para uma “assimetria” no acesso ao crédito em Sergipe, com uma concentração de recursos em determinadas atividades, como a pecuária, e em municípios específicos. Para ela, a baixa escolaridade e a burocracia, embora venham diminuindo, ainda são entraves que impedem que o programa alcance seu pleno potencial. “A sustentabilidade na agricultura não emerge do crédito isoladamente. Ele é uma engrenagem essencial, mas precisa estar articulado com políticas de comercialização, como o PAA e o PNAI, e um suporte técnico contínuo que oriente o produtor para além do modelo convencional”, pontua a professora.
Profª Drª Ana Paula Villwock, docente do Departamento de Engenharia Agronômica da Universidade Federal de Sergipe (UFS) (Foto: Arquivo Pessoal)
A integração como vacina contra o risco
Um dos pontos centrais defendidos pela pesquisadora é a mudança de paradigma necessária diante das variações climáticas que afetam o Semiárido sergipano. Para Ana Paula, a sustentabilidade exige redução da dependência de insumos externos e um foco maior na gestão de riscos climáticos, incluindo o seguro rural e tecnologias adaptadas à seca, como cisternas e irrigação eficiente. “Os agricultores organizados em cooperativas e associações têm maior capacidade de inovar e se adaptar. O fortalecimento dessas redes é o que garante que o conhecimento local seja valorizado e transformado em práticas agroecológicas”, explica.
Ao avaliar a parceria entre instituições financeiras e órgãos de assistência técnica, como a citada união entre BNB e Emdagro, a doutora é categórica: o sucesso depende da coordenação. “O crédito sem assistência técnica pode virar um financiamento de risco, pois o produtor pode aplicar o recurso de forma ineficiente. Já a assistência sem o crédito pode ser uma recomendação inviável, pois falta o capital para executá-la. Quando os dois atuam juntos, os resultados em renda e produtividade aumentam de forma consistente, despertando um desenvolvimento rural muito mais consolidado para Sergipe”, conclui.
Enquanto pesquisadores discutem os desafios da agricultura diante das mudanças climáticas, produtores como Elenilza e Valtemberg seguem transformando teoria em prática todos os dias. Em Sergipe, a sustentabilidade ganha forma no interior de uma estufa, na ordenha antes do amanhecer e na esperança de que investir hoje seja a melhor forma de garantir a colheita de amanhã.







