Do consumo ao esgotamento: o percurso invisível da água
Os rios que cortam diferentes municípios sergipanos guardam uma parte importante da vitalidade das cidades: os mananciais que abastecem quase todo estado. São fontes de água doce, superficiais ou subterrâneas, responsáveis por fornecer o recurso que, depois de captado e tratado, chega às torneiras e faz as cidades funcionarem.
Em Sergipe, o manancial do Rio São Francisco, localizado no município de Telha, a cerca de 90 quilômetros da capital, na região do Baixo São Francisco, é a principal fonte de água para o abastecimento de municípios da Região Metropolitana de Aracaju, como Barra dos Coqueiros, São Cristóvão, parte de Nossa Senhora do Socorro e a própria capital. Além da água bruta captada no Velho Chico, a captação realizada pela Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) também ocorre em outras fontes estratégicas como no Rio Pitanga, em São Cristóvão, e nos poços do Ibura, em Nossa Senhora do Socorro.
Depois desse processo inicial, fortemente ligado às condições naturais, a água passa por uma série de etapas até estar pronta para o consumo. Após ser captada, ela entra no sistema de adutoras, grandes tubos responsáveis por transportar o recurso até as estações de tratamento.
“Adutoras são canos enterrados que vêm transportando a água em vários diâmetros, geralmente em diâmetros que chegam até 1,20 m de altura. Então, essa água é captada no rio ou em poços, é transportada e chega na estação de tratamento”, explica o diretor de Produção e Qualidade da Deso, Gilvan dos Santos.

Diariamente, o fluxo de água é intenso e chega a cerca de 11 mil metros cúbicos por hora, o equivalente ao enchimento de 11 mil caixas d’água de mil litros em uma hora.
“Na sua casa, por exemplo, vamos supor que tenha uma caixa de mil litros, ela dá para abastecer três pessoas durante um dia. Então, o volume, para você ter uma ideia de como é grandioso a quantidade, 11 mil metros cúbicos de água, isso em uma hora”, exemplifica.
Apesar de parecer instantâneo, o caminho que a água percorre até as residências, estabelecimentos e empresas não acontece como mágica. Existe uma engenharia por trás de cada etapa, desde os estudos sobre a capacidade de um manancial até a definição da forma de captação, transporte e tratamento.
“Começa dos estudos preliminares do tipo da água, se a qualidade da água é aceitável para fazer a captação para consumo humano”.
A partir daí, a água pode ser captada em poços ou rios, de fontes subterrâneas ou superficiais, e transportada pelas adutoras. O deslocamento pode ocorrer por meio de bombeamento, com o uso de motores elétricos, por gravidade ou pela combinação dos dois sistemas.
“Desses canos, eles podem vir por recalque, que é bombeada através de motores elétricos, ou vir por gravidade, ou vir às duas situações, uma parte recalcada, motorizada, e outra parte por gravidade, até chegar na estação de tratamento”, explica.
É na estação que começa uma nova etapa da jornada. A água passa por processos como coagulação, decantação e filtração, que têm como objetivo torná-la própria para o consumo humano antes de seguir para a distribuição.
E, além das questões relacionadas à infraestrutura, outros fatores também interferem na disponibilidade da água. Entre eles, a qualidade do recurso, o monitoramento constante e as condições climáticas fazem parte dessa equação.
Segundo a Deso, a qualidade da água é monitorada diariamente a partir dos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Já em relação às condições climáticas, a companhia afirma que trabalha com planejamento de médio e longo prazo para lidar com possíveis variações na disponibilidade hídrica dos mananciais.
“Nós não temos problema com o Rio São Francisco. O que acontece é, em alguns locais, as barragens, por exemplo, a Poxim, que pode sofrer variação em virtude do El Niño no verão. Lagarto, nós temos alguns problemas também de baixa vazão. Mas, coisas assim de meses, não é o tempo todo. Alguns períodos do ano.”
De acordo com Gilvan, esse cenário também é considerado no planejamento da companhia, que busca ampliar a oferta de água e garantir segurança hídrica.
“A Deso, ela se preocupa muito com isso. Então, ela tem um planejamento sempre de dois, três anos. Cinco anos até, visando essas intempéries que possam acontecer. Então, ela sempre se planeja em aumentar a sua oferta hídrica, para nós termos segurança hídrica”, explica.
Mas mesmo tendo passado por processos complexos e diferentes, a água ainda não chegou à torneira. Depois de captada e tratada pela Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso), a água segue para a etapa de distribuição, que, desde 30 de abril de 2025, passou a ser responsabilidade da Iguá Saneamento nos mais de 70 municípios abrangidos pela concessão.
É nesse ponto que a jornada muda de mãos. A água que começou nos rios, nos mananciais precisa percorrer mais uma parte do caminho até chegar às casas, aos estabelecimentos e às empresas.
Quando chega, é utilizada para diversas finalidades: beber, cozinhar, lavar as mãos, tomar banho, limpar ambientes, lavar utensílios e trabalhar. Em cada uso, a água cumpre uma função diferente. Até que, depois de utilizada, ela segue por outro caminho. Pelo ralo ou pela descarga. Sem esse recurso hídrico, as cidades não funcionam com tanta harmonia.
O caminho da água, no entanto, não termina quando ela chega à torneira. Na verdade, é ali que outra jornada inicia.

Para onde vai a água depois do uso?
Na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Jabotiana, em Aracaju, aquilo que sai de uma casa como água utilizada chega como esgoto e passa por todo um processo para que adequadamente seja devolvido à natureza. Mas esse processo não é tão simples quanto parece.
Depois que se torna esgoto, a água segue por meio de tubulações até as Estações de Tratamento de Água (ETE’s). “A gente começa com o sistema preliminar. O sistema preliminar, ele retém sólidos grosseiros, que é retirar esses sólidos que chegam, nós temos um gradeamento, uma caixa de areia, que retém esses sólidos grosseiros que vêm no próprio esgoto, que são resíduos mesmo que vêm, e você encontra tudo que a gente consegue imaginar, garrafa, papel, plástico, vem de tudo”, explica o coordenador de tratamento da Iguá, Elton Santos.
Conheça o fluxograma da Estação de Tratamento:



Depois de tratada o esgoto na ETE Jabotina, o efluente é lançado no rio Poxim, prática levanta questionamentos sobre possíveis impactos ambientais.
“Na estação Jabotiana, o esgoto é lançado no rio Poxim. Então, ele é lançado de acordo com os padrões da legislação, que é a Conama 430. Todo mês a gente faz a verificação desse processo de tratamento […] para que ateste todo o tratamento, toda a eficiência do processo. Essa estação Jabotiana está em torno de 90% de eficiência de remoção de matéria orgânica”.
Além da questão ambiental, que envolve a responsabilidade de empresas, também existe a responsabilidade da população nos aspectos voltados à educação ambiental. O coordenador explicou que entre os resíduos mais comuns encontrados no processo de gradeamento, estão cabelo, óleo, dinheiro, papel, entre outros. “Não lançar lixo na rede de esgoto, não abrir tampas de PVs nas ruas para lançar lixo na rede de esgoto. O lixo no lugar do lixo. Nunca lançar [lixo] no vaso sanitário, para a gente poder ter um esgoto, só esgoto, não vir esse resíduo todo para a gente aqui”, explica.
Elton também aponta que Aracaju possui uma cobertura de esgotamento sanitário que ultrapassa os 74%, mas ainda existem áreas que não contam com o serviço. De acordo com o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, embasado na Lei Federal n° 14.026/2020, o prazo para a universalização dos serviços de água e esgoto é dezembro de 2033. Em Sergipe, o desafio para a universalização é o crescimento da rede acompanhado da melhoria da estrutura que já existe.
“A gente já tem uma rede implantada, mas que precisa de melhorias e ampliação para que consigamos chegar ao ponto ideal, que é a universalização. […] Acredito que está tudo muito novo. A concessão começou agora, mas tenho certeza de que vamos chegar ao ponto ideal. Hoje, a estação de tratamento de esgoto atende em torno de 32 mil pessoas aqui na ETE Jabotiana”, afirmou.
A estação foi projetada para receber uma vazão de 60 litros de esgoto por segundo, mas, atualmente recebe cerca de 35 litros por segundo. A diferença destaca a necessidade de ampliação. “A gente tem ainda muito a ganhar. Muito a ganhar que eu falo em implantar a rede, receber mais esgoto aqui para que a gente consiga adequar todo o sistema”, pontuou.


Risco hídrico: um perigo silencioso
Apesar dos avanços nos cuidados e tratamentos com a água, a poluição hídrica é uma preocupação constante, especialmente para aqueles que estudam e buscam a preservação da água no estado. Esgotos, ligações clandestinas e a necessidade de um plano para reger as normas diante do crescimento imobiliário são pontos de atenção.
O professor de Química ambiental, Carlos Alexandre Borges Garcia, da Universidade Federal de Sergipe ,ressalta que a poluição da água nem sempre é vista a olho nú, mesmo águas límpidas podem conter perigos, a verificação passa de segurança passa por um processo de verificação.
“A gente analisa a parte de, principalmente, os parâmetros básicos, que é a condutividade, a concentração das espécies nitrogenadas, DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) e a DQO (Demanda Química de Oxigênio), como também os parâmetros microbiológicos, que são os coliformes termotolerantes e totais, e algumas outras bactérias que podem conter na água. São esses os parâmetros principais em relação à saúde ambiental. Mas, em se tratando de qualidade de água para consumo, aí já são outros parâmetros que têm algo mais rígido na sua elaboração”, explicou o professor.
Em Aracaju, não é preciso ir longe para encontrar um “esgoto a céu aberto”, os conhecidos canais. Eles estão localizados em diferentes bairros, desde a Zona Sul até a Zona Norte. O professor explicou que os canais foram projetados para fazer parte da drenagem pluvial do município, mas devido a expansão imobiliária da cidade, canos das residências foram ligados a esses canais. “Os canais de Aracaju foram construídos inicialmente para serem canais de água pluvial. Não é canal de ligação de esgoto, o que acontece é que com a grande expansão imobiliária, alguns prédios e residências ligam a rede de esgoto nos canais. Isso é ilegal, então tem que se fazer um trabalho de consciencialização, retirada desses esgotos que vão para esses canais e tornar o canal mesmo para uso de água pluvial”.

O professor também explica que a carga de poluição dos rios Sergipe e do Sal é elevada em decorrência da contaminação por esgoto, especialmente pela presença de coliformes provenientes das residências. Ele também alerta para os efeitos do descarte contínuo de medicamentos no vaso sanitário. Essas substâncias chegam aos rios por meio do esgoto, mas as estações de tratamento não estão preparadas para degradá-las.
A consequência disso vai muito além do mau cheiro e do impacto na qualidade da água para a população. O mar também é afetado pela poluição. Apesar de possuir um grande nível de depuração e dispersão do esgoto, medidas preventivas e de urgência precisam ser tomadas em algumas ocasiões. “De vez em quando, a Adema, que é quem cuida da balneabilidade das praias, interdita uma ou outra região. Porque o aporte de esgoto está muito grande”.
Seguindo o contorno do ecossistema costeiro presente em Aracaju, o manguezal também sente o impacto. Apesar de funcionar como uma espécie de “filtro”, o mangue também absorve a poluição.

“Ele é um filtro? É, mas ele armazena esses poluentes. Se você tem contacto com o manguezal, você vai ter contacto com esse poluente, né? A mesma coisa que as ostras, por exemplo. A gente consome muita ostra, massunim, né? Essas espécies são filtradoras também, né? Então o que é que isso significa? Que ela absorve esses poluentes, né? Então, por exemplo, o que a gente chamava de metal pesado: o filtrador pode acumular aquilo ali, né? Então ele tirou do ambiente, limpou o ambiente, mas está a acumular aquele material. E se você consome um marisco que está com índice alto de algum contaminante, você se contamina também”, explicou o professor.

“A gente vai chegar ao caos”, é a previsão feita pelo especialista ao avaliar o crescimento das cidades sem um plano de proteção hídrica. Segundo ele, a água poluída precisa passar por processos de tratamento para voltar a ser própria para o consumo. Esse processo envolve custos elevados, o que pode dificultar o acesso de municípios que não dispõem de recursos suficientes para garantir o tratamento.
“O futuro é esse: se você não cuidar, se continuar contaminando, o tratamento dessa água vai ser muito caro, e nem todo o país, nem toda a cidade tem condições de investir muito no tratamento. O ideal é você preservar. […] é um ciclo vicioso: você preserva, ou você vai ter problemas extremamente graves no futuro”.
Apesar das incertezas, a natureza possui seus guardiões, quem resguarda a água também recebe dela o sustento. As comunidades tradicionais que se organizam ao redor da água, a exemplo dos pescadores Associaçao Mista Pescadores fazem do seu ofício a sobrevivência das suas casas e dos rios.

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