Do Horto ao manguezal: Aracaju passa a produzir as próprias mudas para recuperar o mangue sobre o qual a cidade cresceu
Desde 2025, a prefeitura cultiva mangue vermelho, branco e preto em viveiro e já fez os primeiros plantios. Pesquisadora da UFS lembra que plantar não basta para compensar o que se perde.
A poucos metros de casas e residenciais, por volta das 9h de 29 de julho, o som das botas no solo encharcado apontava para uma movimentação no substrato sobre o qual a capital sergipana se ergueu: o manguezal. A data marcou mais uma etapa de plantio de mudas no mangue do Lamarão, na Zona Norte da capital.
A equipe técnica retirava cada muda do tubete e levava o torrão inteiro direto para o berço, em um trabalho de manejo que, segundo os técnicos, faz diferença na sobrevivência. Naquela dia, foram plantadas 100 mudas de mangue-vermelho e de mangue-branco, duas das três espécies nativas da capital.
Fotos: Gabrielle Lima
Produzidas no Horto Municipal e aclimatadas dentro da própria cidade, as mudas representam um esforço para proteger os remanescentes verdes que resistem em meio ao avanço da malha urbana. Nascidos no encontro entre a água doce dos rios e a salgada do mar, os manguezais formam um ecossistema costeiro associado ao bioma Mata Atlântica que define a própria geografia da cidade.
“Aracaju foi planejada, desenvolvida e continua sendo desenvolvida em cima de regiões que antes eram manguezais”, destaca a professora do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Sindiany Caduda.
Na capital, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) calcula a existência de cerca de 2.000 hectares do ecossistema dentro do perímetro urbano. Os dados convergem com o monitoramento da plataforma MapBiomas, que aponta entre 1.800 e 2.100 hectares de mangue na capital, o equivalente a cerca de 10% a 12% de todo o território municipal, cuja extensão é de 182 km² (18.200 hectares).
Historicamente ameaçado pela expansão urbana, o ecossistema agora é alvo de uma virada técnica: a criação de uma cadeia própria de produção florestal pública para viabilizar o reflorestamento local com mudas nativas.
Aposta na autonomia
Durante anos, recuperar trechos degradados de manguezal em Aracaju esbarrou na falta de viveiros públicos preparados para produzir espécies estuarinas em grande escala.
Para cumprir exigências ambientais ou realizar ações de recuperação, o município dependia da compra de mudas de outros estados por meio de licitação.
Segundo a secretária do Meio Ambiente de Aracaju, Emília Golzio, esse caminho era demorado, caro e trazia plantas pouco adaptadas ao território sergipano.
“Quando a gente faz uma licitação de compra de muda, a gente paga um preço administrativo municipal muito mais alto que um cidadão comum comprando mudas. Além disso, a produção de mudas é feita em outro estado, com sementes de outro estado, com substratos de outro local, que muitas vezes não garantem a nossa taxa de sobrevivência aqui no nosso ambiente aracajuano”, explica.
Foto: Fernanda Rodrigues/PMA
O entrave travava diretamente o cumprimento de exigências legais, como os Planos de Recuperação de Áreas Degradadas (Prad).
De acordo com o coordenador do Horto Municipal de Aracaju, José Marques, sem fornecimento próprio, qualquer projeto de restauração corria o risco de parar no meio do caminho por falta de plantas no mercado.
“A partir do momento em que se tem recurso para a execução de um Prad, caso haja a necessidade das mudas, se não tivermos elas sendo produzidas em Aracaju, provavelmente esse Prad vai ser inviabilizado. Termos o Horto hoje produzindo mudas de mangue demonstra que estamos preparados”, pontua.
Foto: Fernanda Rodrigues/PMA
A virada de chave aconteceu com a reestruturação do viveiro público municipal. Para viabilizar o projeto e cortar custos, o composto que alimenta as raízes vem de restos orgânicos recolhidos nas feiras livres da cidade e transformados em adubo dentro do próprio Horto.
Com a adaptação de estufas e casas de vegetação, o espaço alcançou uma capacidade produtiva de até 15 mil mudas por ano, somando as espécies de mangue e as árvores voltadas à arborização das ruas.
“Com a estrutura que nós temos hoje aqui no Horto, considerando os outros trabalhos que nós fazemos com as árvores que a gente planta na cidade, a gente tem capacidade produtiva de 15 mil mudas por ano. Isso vai variar de acordo com a espécie e de acordo com a época do ano em que tem a disponibilidade de propágulos, mas a estrutura possibilita essa produção”, detalha Marques.
Para a secretária Emília Golzio, os ganhos dessa virada vão além dos números no orçamento.
“A gente ganha não gastando um dinheiro desnecessário comprando mudas de outro estado que podem não sobreviver. A gente tem uma redução de um gasto financeiro, uma taxa de efetividade da nossa produção muito maior e uma qualidade do nosso trabalho também, que é trabalhar com uma coisa que é aracajuana, própria da nossa identidade”, aponta.
Do propágulo à muda
O trabalho de plantio de mudas integra o projeto ‘Aju É Mangue’, e começou em 2025. Ele é desenvolvido de forma paralela a outras frentes de diagnóstico territorial, como a investigação sobre a identidade dos manguezais.
A iniciativa reflete uma diretriz que ganha força no cenário florestal brasileiro: segundo dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o setor de base florestal e conservação no país mantém quase 7 milhões de hectares de vegetação nativa preservados e recuperados, se apoiando em pesquisa silvicultural e viveiros técnicos para alavancar a descarbonização e a restauração de biomas.
Em Aracaju, esse mesmo rigor técnico foi levado ao manguezal. De acordo com a secretária municipal do Meio Ambiente, Emília Golzio, os esforços buscam mapear as condições das áreas de manguezal na cidade antes de qualquer intervenção.
“É a investigação e a identidade mesmo daqueles manguezais. O que é que está acontecendo? Qual o padrão de vegetação? Qual o tamanho daquela área? Quanto ela vai precisar para reflorestar?”, aponta.
A partir da leitura em campo, a primeira etapa consiste em selecionar as árvores-matrizes mais sadias e coletar os propágulos. Em seguida, começa o ciclo no Horto Municipal.
Foto: Larissa Moura
No viveiro, o material passa por triagem conduzida por analistas e técnicos ambientais, e é semeado em substrato enriquecido com composto orgânico produzido no próprio local.
Cada muda leva pouco mais de 90 dias para atingir o porte ideal de transplante, e cada espécie exige um manejo específico. O mangue-vermelho produz propágulos longos e pesados, o que permite, em certos casos, a semeadura direta no solo. Já o mangue-branco e o mangue-preto geram estruturas menores e mais leves, incapazes de se fixar sozinhas com a força da maré.
“Se você faz a semeadura direta, provavelmente a maré vai fazer o transporte dele para outra área. Então, essas duas espécies é mais importante produzir as mudas delas por conta desse motivo”, explica o coordenador do Horto, José Marques.
Fotos: Larissa Moura
Nas estufas, a equipe também investiga os limites fisiológicos das plantas. Como o viveiro opera com irrigação convencional, os técnicos avaliam se a mudança abrupta para a água salgada afeta a taxa de sobrevivência.
“Elas saem de um local com água doce e passam bruscamente para um local com água salgada. Nós estamos fazendo os testes para entender se isso permite a sobrevivência. E também estamos fazendo o teste das mesmas mudas sendo cultivadas com solução salina”, detalha Marques.
Fotos: Larissa Moura
Os primeiros resultados práticos confirmam o acerto do protocolo. No projeto-piloto do Lamarão, na Zona Norte da capital, 100 mudas experimentais foram levadas ao campo.
“Isso resultou numa taxa de sobrevivência de 98% na nossa avaliação de três meses após o plantio”, aponta a secretária Emília Golzio.
No bairro Coroa do Meio, na Zona Sul, a taxa atingiu 94% repetindo o mesmo método.
Apesar dos altos índices de sucesso, o trabalho não termina na fixação da muda. Segundo o coordenador do Horto Municipal, o monitoramento contínuo acompanha o crescimento das plantas e avalia eventuais perdas.
“Aquelas que eventualmente morreram, a gente tenta identificar quais foram os fatores: se foi um fator natural relacionado ao ambiente e à adaptação da muda ao novo ambiente, ou se pode ter sido também ação humana, porque essas áreas são de livre acesso. Nós observamos em alguns casos que também houve ação humana, mas de forma pontual”, pondera Marques.
Território de vida
Debaixo da lama escura dos manguezais funciona um dos escudos naturais mais fortes contra o aquecimento do planeta: o chamado carbono azul. De acordo com o Atlas dos Manguezais do Brasil (ICMBio/MMA), o solo encharcado e sem oxigênio guarda de três a cinco vezes mais carbono por hectare do que matas de terra firme. Folhas, raízes e galhos ficam enterrados no lodo por séculos sem apodrecer, o que impede que toneladas de gases que causam o efeito estufa subam para o ar.
“Existem várias pesquisas no mundo que falam sobre o carbono azul, que é justamente esse carbono que é estocado na vegetação. Se esses mangues são degradados, esse CO2 volta direto para a atmosfera”, alerta a professora do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Sindiany Caduda.
Foto: Schirlene Reis/UFS
Além de segurar o carbono no chão, o vai e vem das marés faz desse ambiente a base da vida aquática.
“Os manguezais são considerados berçário da biodiversidade aquática pelas suas potencialidades em abrigar diversas espécies de seres vivos que vivem no rio e no mar. Constituem abrigo, local para reprodução e local para alimentação. Diversas espécies dependem desse lugar para garantir a existência no mundo”, explica a professora.
É por reunir esse papel de berçário natural e guardião do clima que o plantio de mudas ganha ainda peso em Aracaju, mas ainda que o cultivo nas estufas e o índice de sobrevivência acima de 90% mostrem saídas práticas, especialistas lembram que plantar mudas não anula a necessidade de parar a destruição.
Protegidos como Áreas de Preservação Permanente (APP) pelo Código Florestal (Lei Federal nº 12.651/2012), os mangues da capital ainda sofrem com o avanço de construções, lixo jogado nas margens e esgoto sem tratamento.
“Quando desmatamos vários hectares de manguezal, quanto tempo vamos passar para recuperar aquela área? Na verdade, aquela área não vai ser mais recuperada integralmente. Não existe compensação ambiental simples de tirar de um lugar e colocar em outro”, completa a professora Sindiany Caduda.
A iniciativa em Aracaju mostra um caminho viável de cultivo de árvores voltado a cuidar do meio ambiente. No mesmo solo onde a cidade cresceu soterrando, cada muda que firma raiz lembra que um futuro mais sustentável na capital depende de deixar vivas a lama e as águas que um dia formaram o seu chão.