A água na manutenção da rotina: entre afazeres domésticos e atividades profissionais
A água não conhece fronteiras. A mesma que corre por rios, corta cidades e chega aos bairros, transforma, silenciosamente, a rotina de milhões de pessoas. Entre o atendimento de uma cliente e o tempo de pausa de um produto, a água que escorre pelos cabelos das clientes se torna protagonista do ordinário da empresária Priscila Escorcio. Ali, em um tradicional bairro da Zona Sul de Aracaju, a água não é apenas parte da rotina. É matéria-prima. Sem ela, o salão para.
O Angel Centro de Beleza, localizado no bairro Augusto Franco, é herança do saber deixado pela mãe, que conciliava a vida de funcionária pública e cabeleireira nas horas vagas. Aos poucos, Priscila internalizou os ensinamentos da mãe e começou a dar os seus próprios passos no ramo da beleza. “Minha mãe disse: ‘Minha filha, você pode trabalhar em casa, o salão é seu, atenda na sua casa’. E eu tomei a decisão, pedi as contas da empresa e vim assumir o salão”, relembra.



Atualmente, o estabelecimento oferta vários serviços, como manicure e pedicure, depilação e estética, mas é nos procedimentos capilares que o salão se destaca.
“A água aqui para o salão é indispensável, completamente. Do mínimo, que é beber, para o mais importante, para o serviço, que é lavar o cabelo. A gente faz procedimentos aqui químicos, como coloração, que a gente precisa lavar, tem tempo, tem prazo para lavar, e a água é indispensável, não tem como retirar a coloração sem água, sem como fazer um tratamento, uma hidratação, sem ter água para lavar o cabelo, aplicar o produto. Isso é o mais importante, mas também a higienização, o cuidado com a limpeza, do próprio estabelecimento, banheiros, então a água é fundamental, sem a água aqui o salão não existiria”, explica.
Apesar de ser um serviço essencial e consolidado na sociedade, o fornecimento e abastecimento de água nas cidades ainda possui lacunas que influenciam no cotidiano, principalmente de estabelecimentos onde o recurso é indispensável. Mesmo tendo cautela na utilização e mantendo um reservatório para períodos de necessidade, a falta de água para Priscila ainda é uma realidade que interfere diretamente na rotina do salão. Ela relembra de um episódio em que precisou suprir as necessidades do salão com alternativas emergenciais quando vivenciou a problemática.
“Foi bem complicado, a gente chega a precisar comprar água mineral para fazer atendimento, pedir água de vizinho para poder fazer o serviço. Isso é bem desafiador quando acontece a falta d’água”.
Os períodos de desabastecimento também pesam no bolso e alteram a rotina. “ A gente precisa limitar o atendimento e a despesa também fica maior, e fica um incômodo de a cliente estar percebendo que a gente está sem água, que tem que estar ali usando água no balde para estar fazendo o atendimento. Então, sim, acaba afetando o faturamento do salão”, pontua.

Se no salão, a falta d’água altera o trabalho. Dentro de casa, ela muda a rotina. Todas as manhãs, Wellington Silva e Costa repete um ritual antes de começar o dia. Entre os primeiros cuidados está o cachorro, companheiro que circula pelo quintal, tem casa própria e exige, como qualquer outro membro da rotina, água e limpeza.
“Eu tenho um cachorro, e tem que manter sempre limpo. Se você olhar aqui esse oitão aí, onde eu guardo o carro. Ele anda aí. Tem a casa dele, mas ele anda aí. E tem a casa dele, mas ele anda aí. E tem que manter isso aí sempre limpo”, conta.


O dia a dia de Wellington, aposentado e morador do bairro Soledade, na Zona Norte de Aracaju, também é dividido com a esposa e uma das filhas. Para manter a casa funcionando, porém, ele não espera a água faltar para agir. Ao longo dos anos, ele aprendeu a lidar com o imprevisto, adotando reservatórios que funcionam como uma garantia para o abastecimento.
“Eu mesmo não tenho problema, porque eu sou prevenido. A água aqui, ela deu uma melhorada agora com a Iguá. A Deso, para mim, era pior. Porque a Iguá, a gente já sabe que a água falta e só volta no outro dia, logo cedo ou já à noite. E a gente tem que se prevenir com isso aí. Quem não se prevenir, sofre. Todos os dias, de domingo a domingo. A Deso era pior. A Deso não tinha hora para voltar. E já houve casos de passar até três dias sem chegar água por aqui”

E a prevenção não fica restrita à casa da Soledade. Wellington divide os dias entre a capital e o interior, onde também possui uma residência em Itabaiana, município que fica a cerca de 57 quilômetros de Aracaju. Em cada lugar, ele encontrou uma maneira de se preparar para quando a água não vier.
“Mesmo que venha a faltar água, dois, três dias, a gente não vai sentir tanto assim, não. Tem reservatório. Eu tenho mil litros em cima da laje da casa. Tenho dois mil litros embaixo da reserva. […] Eu tenho uma casa lá em Itabaiana, eu tenho uma caixa de cinco mil litros guardada. Porque eu já sei como é que é. Essa água, ela está bem, mas ela pode faltar a qualquer momento”, afirma.
Seu Wellington reconhece que esse perfil zeloso e atento às mudanças faz parte da sua personalidade, o que te distância de possíveis problemas. Porém, também reconhece que a falta de água na região é uma problemática para pessoas que estão ao seu redor.
“ A gente tem que viver de acordo com aquilo que ele é proposto. Mas eu vejo a carência de pessoas por aqui, quando acontece isso. Alguns não têm. E quando não têm, sofrem. Porque faltar um dia, tudo bem. Mas falta três, aí não dá. Se faltar água, falta tudo. Água e energia. A energia é muito importante. Mas a água eu ainda acho mais do que a energia. A energia você pode criar um paliativo, criar um substituto imediato, uma coisa. A água não.”
Quando questionado sobre o que faria se, um dia, abrisse a torneira e a água simplesmente não viesse, Wellington não hesita:
“Primeira coisa que eu faria, vamos embora, botar tudo no carro e ir para Itabaiana. Eu faria isso. Porque é impossível você viver num lugar sem água. É impossível. Fica de mãos atadas. Quer dizer, eu tenho essas condições. E quem não tem?”
A pergunta de Wellington também atravessa a cidade. Da Zona Sul, onde Priscila depende da água para manter o salão funcionando, à Zona Norte, onde Wellington aprendeu a se prevenir contra os períodos de desabastecimento, a água assume diferentes papéis. No Centro de Aracaju, ela deixa de ser apenas uma necessidade doméstica e passa a sustentar uma atividade econômica. Em um restaurante tradicional da região, está presente em praticamente todas as etapas do dia.
Desde as primeiras horas da manhã o calor já toma conta do Mercado Antônio Franco, região central de Aracaju, quando os primeiros movimentos de funcionários e clientes começam a se espalhar. No Restaurante da Valéria, a rotina também começa cedo. Antes do primeiro prato chegar à mesa, a água já passou pelas mãos dos funcionários, pela cozinha e pelos utensílios e materiais que são preparados para que o serviço começe.


“Eu abro às 7 horas da manhã, vou pra outro mercado, faço as compras, volto aí pela manhã para fazer o preparo da refeição, e a partir das 11 horas começa o movimento”.
No espaço, onde o movimento de clientes se mistura ao barulho das panelas e ao calor da churrasqueira, a água aparece de diferentes formas. Está na água usada para lavar as mãos, os pratos e os alimentos; na limpeza do estabelecimento; e na hidratação de quem passa horas trabalhando sob temperaturas elevadas.

Em determinado momento, um motoboy chega carregando galões de água mineral. A cena, aparentemente comum, ajuda a dimensionar a importância da matéria prima para manutenção do serviço.

Na cozinha, os funcionários dependem dela durante todo o expediente. Na churrasqueira, até uma pequena garrafa ganha função específica: quando a chama aumenta e ameaça queimar a carne, o churrasqueiro recorre à água para controlar o fogo e continuar o preparo.

Foto: Raphaella TelesA todo momento a água está presente, mesmo que de forma silenciosa. Ela não aparece no prato servido ao cliente, mas está em quase tudo o que acontece antes que ele chegue à mesa.
“Se ficasse mais de um dia sem água aqui, seria difícil, não tinha como não. Já passamos um dia todo. Aí foi pegando água noutro mercado e comprando água, pra trabalhar, pra não fechar”.
Na casa, no salão ou no restaurante, a água muda de função, mas não de importância.
Mas, antes de chegar às torneiras, chuveiros e movimentar as cidades, ela percorre um longo caminho invisível.


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