“O rio está morto”, impactos ambientais no Rio Poxim ameaçam comunidade pesqueira

Vigilantes ao avanço das ameaças ambientais, as comunidades tradicionais estão na salvaguarda da natureza. Se na estação de tratamento a qualidade da água é avaliada pelos processos químicos e físicos, na outra ponta, o saber ancestral avalia pelo cotidiano, com os pés fincados na lama, braçadas na água e o prato servido na mesa. O aparente sossego da água faz contraste com as preocupações que atingem aquela comunidade. Para quem levanta cedo e conhece essa rotina desde que nasceu, as mudanças são claras.

O presidente da Associação Mista dos Pescadores da Coroa do Meio, José Edival, conhecido como Irmão Reis, herdou da família o ofício da pesca. Há cerca de 5 décadas acompanha a realidade da lida de quem sobrevive do que a água oferece. Ao observar a situação atual do rio, ele lamenta: “O rio, nós podemos dizer que está morto”.

Sua biografia está entrelaçada com a daquele lugar. Natural de São Cristóvão, Irmão Reis chegou àquela região em 1984, onde amadureceu e construiu sua família. Hoje, reconhece que aquele local já não é o mesmo, apontando o aterramento como uma das principais causas de prejudicar a atividade pesqueira.

“Criei meus filhos daqui, da pesca, daqui de dentro dessa perna de rio, que se chama o rio Poxim. E hoje o rio está todo aterrado, de fora a fora. Não temos mais onde o peixe ficar. Com a maré seca, nós não temos um metro de água, não tem um palmo de água”

O descarte irregular de lixo e o esgoto sem tratamento lançados no rio também estão entre as preocupações de Irmão Reis. A falta de conscientização intensifica o problema e os sinais sentidos pela população. “O lixo tem que saber botar onde é para botar, no lugar do lixo. Mas o morador pega o lixo e joga dentro do mangue. E, se você reclamar: ‘Não faça isso’, ele pergunta logo: ‘Aqui é seu?’. Você não pode reclamar. Tem que estar vendo o malfeito e não pode falar nada”, afirma.

Segundo ele, a renda familiar é diretamente atingida pelas questões ambientais. Irmão Reis aponta para seu barco atracado às margens do rio. O instrumento de trabalho está ali, mas já não garante o sustento como antes.

“Eu nunca trabalhei de carteira assinada, vivi sempre da pesca. Me aposentei pela pesca. Minha esposa se aposentou pela pesca, porque era minha companheira de pesca, junto com meus filhos. Hoje não temos mais onde pescar. Eu tenho rede, tenho barco, está ali meu motor, mas aqui dentro do rio Poxim acabou a pescaria”.

Irmão Reis conta que a alternativa para garantir renda à população já não vem daquela água que contorna a comunidade. O fato é confirmado por outro pescador que, de dentro do rio, conta que agora precisa passar dois ou três dias desbravando o mar em busca de peixes, o que exige maior esforço físico e mais tempo.


Apesar do esforço parecer pequeno diante da dimensão dos problemas, o pescador afirma que continua fazendo a sua parte para preservar a natureza. Mas ressalta os limites da atuação da comunidade: “Nós, pescadores, nós, marisqueiras, nós cuidamos do rio. Mas nós não podemos fazer nada sobre isso”.


O fato é que a água que percorre os caminhos de uma cidade não termina quando chega à torneira, muito menos perde sua importância depois de utilizada. Ao longo dessa jornada, ela também carrega as marcas da forma como é consumida e descartada.

A água continua seguindo seu caminho, moldando cidades e vidas. Está no trabalho de quem transforma, produz e empreende, na rotina das famílias e no sustento de quem encontra nos rios sua fonte de alimento e renda. Preservar os mananciais, garantir o tratamento adequado e impedir que a poluição avance são medidas que dizem respeito não apenas ao futuro da natureza, mas também à possibilidade de que essas atividades continuem existindo.

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