Neste ano, o Brasil recebe a Conferência das Nações Unidas sobre mudanças do clima (COP30), para firmar e acelerar compromissos pertinentes à atual conjuntura climática de forma conjunta. Os debates sobre estratégias para o controle ao aquecimento global, preservação ambiental e conservação de espécies da fauna e flora se aquecem à medida em que são ainda mais urgentes.
Dentro deste conjunto de preocupações e pontos de atenção, está a preservação de biomas e coberturas florestais para a regulação climática, o que inclui a manutenção de unidades de conservação e o reflorestamento de áreas degradadas.
A Mata Atlântica, considerada o bioma com a maior diversidade de espécies do mundo, é também uma das regiões mais ameaçadas. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, ela ocupa apenas 15% do território nacional, concentrando-se em 17 dos 26 estados brasileiros. Dados do Instituto Brasileiro de Florestas mostram que sua extensão atual é de 1.110.182 km², reflexo de décadas de degradação ambiental.
Em Sergipe, esse bioma ocupa uma faixa territorial de 1.868,70 km², o que representa 51,30% da vegetação do estado, conforme dados de 2024 da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas (Semac). Toda essa área remanescente está localizada dentro de Unidades de Conservação (UCs), que somam 96.316,68 hectares. Entre as principais UCs sob gestão da Semac, destacam-se a Área de Proteção Ambiental (APA) Litoral Sul, o Parque Estadual Marituba, a Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Mata do Cipó, o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco, além da APA Morro do Urubu, em Aracaju.
Segundo a Semac, o monitoramento dessas áreas é realizado por meio de visitas técnicas in loco, tecnologias de geoprocessamento e critérios definidos por instruções normativas federais. Essas ações também incluem o acompanhamento de projetos de reposição florestal, como os que vêm sendo desenvolvidos com apoio da pesquisa científica e da inovação tecnológica em solo sergipano.
Parte das APA’s sob monitoramento constante recebe periodicamente mudas oriundas do projeto Biofábrica de Mudas, do Parque Tecnológico de Sergipe (Sergipetec).

Tecnologia a serviço do meio ambiente
Há duas décadas, pesquisadores atuam com foco na preservação, recuperação e recomposição de biomas. A iniciativa une ciência, tecnologia e compromisso ambiental para produzir mudas nativas destinadas à arborização urbana, recuperação de nascentes e reflorestamento de áreas degradadas.
“Essas mudas são nativas e mudas comerciais, trabalhamos com os dois segmentos. Mudas nativas com função de recomposição, efeito climático, e estamos na luta por arborização urbana, que chega a reduzir o clima da cidade em 12 graus. Então, hoje o Sergipetec tem essa preocupação, e são mudas específicas”, descreve o engenheiro florestal e coordenador do projeto, o professor Ronaldo Fernandes Pereira.



Durante vinte anos, mais de 500 mil mudas foram doadas para todo o estado. Atualmente, a biofábrica, com uma infraestrutura de 10 mil m², tem a capacidade de produzir cerca de um milhão de mudas por ano. Semanalmente, de 300 a 400 novas plantas saem dos viveiros para renovar áreas devastadas, ampliar espaços preservados e trazer esperança ambiental.
A biofábrica produz mudas nativas dos biomas Mata Atlântica e Caatinga, predominantes no estado. Por mês, são 10 a 15 mil sementes plantadas, que encontrarão no espaço condições favoráveis para brotarem e se tornarem plantas que exercerão um papel fundamental nos ecossistemas. As mudas originam-se de sementes coletadas pelo território sergipano, especialmente nas áreas dos biomas característicos dele.
“A gente tá aí com três projetos em andamento, dois financiados pelo Finep e um em parceria com a Semac, que é na Caatinga, na Unidade de Conservação. Lá nós estamos coletando sementes de Caatinga, e essas sementes vêm para o Sergipetec, e aqui a gente produz ela de duas formas: a forma convencional, que é a semente, que você coloca a semente no tubete, e ela se desenvolve. E tem a forma in vitro, aquela que você leva para o laboratório e faz a propagação em vitro”, destaca o professor.



No Complexo Biofábrica do Sergipetec, o plantio ‘in vitro’ é feito no Laboratório de Controle de Qualidade, onde a sequência da reprodução dispensa o uso de semente e garante novas mudas durante todo o ano, em tempo reduzido, como descreve Rosilene Bonifácio, técnica do Laboratório.
No modelo convencional, o caminho da vida começa no espaço chamado estufa, onde acontecem as etapas iniciais da germinação. Algumas semanas depois, já mais resistentes, são transferidas para ‘telado’, um espaço onde acontece o segundo estágio de desenvolvimento das mudas antes de serem doadas, explica o auxiliar de laboratório Hebert Domingos.
Para que a meta anual seja atingida, é preciso um trabalho diário e cuidadoso. São mais de 40 espécies diferentes cultivadas na biofábrica, cuidadas e preparadas para serem semanalmente colhidas com destino a áreas de preservação e doações para os convênios firmados.
“Toda semana tá saindo muda. A gente tem que estar sempre semeando para poder estar repondo. Não para, é o ano todo esse processo. Se não, não bate a meta. Um milhão de muda por ano é muito”, destaca.

Parcerias sustentáveis
Em parceria de cooperação técnica com o Parque Tecnológico de Sergipe, a Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso) criou há seis anos o programa Deso + Verde, uma iniciativa que distribui mudas nativas e frutíferas para preservação ambiental da Mata Atlântica e Caatinga, além de reflorestamento urbano e preservação de nascentes.
“A Companhia de Saneamento de Sergipe dá os insumos ao SergipeTec por meio de convênio e também mão de obra através de funcionários que são cedidos. Funcionários terceirizados que são cedidos ao SergipeTec para a produção das mudas, bem como auxiliar, uma comparação técnica e científica, visto que o Sergipetec também faz pesquisas e projetos, né? Para ampliar a assertividade do plantio e potencializar os resultados ambientais do programa”, explica o coordenador do programa Deso + Verde, Danilo Oliveira.



Fotos: Deso
O projeto surgiu com base na Lei 6.938 de 1981, que institui a Política Nacional de Meio Ambiente, e também pela Lei Federal 9.433/97, que define a Política Nacional de Recursos Hídricos. O convênio prevê a produção de 40 mil mudas por ano, sendo 10 mil da utilização da própria Biofábrica do Sergipetec e 30 mil que ficam à disposição da Companhia de Saneamento de Sergipe.
Em seis anos de projeto, 142,683 mil mudas foram doadas em seis anos de parceria. Com a iniciativa, a Deso, por meio de eventos promovidos pelo poder público e ONG’S, já distribuiu mudas nativas e frutíferas em 70 dos 75 municípios.
“São mais de 90% dos municípios sergipanos, e você tem um total de quase 150 mil mudas distribuídas, é um grande marco. Sendo que esses números, eles são tanto para o poder público, como prefeituras, Ministério Público já pegou, casas legislativas, eventos que são promovidos, tanto quanto para ONGs também, instituições voltadas para o meio ambiente. Então, é uma assertividade desse projeto que ele prevê não só apenas as partes nascentes de rios, mananciais, como também geralmente mais as partes de Áreas de Preservação Ambiental, mesmo, junto com os municípios, as áreas de preservação permanente e também mudas que são doadas para a gente podem ser utilizadas em praças, em escolas, pessoas físicas”, pontua o coordenador.
A expectativa é ampliar as medidas e levar o projeto a todo o estado.

“A gente quer mesmo com o objetivo da companhia, né? Tem sido muito esse foco ambiental, tem sido bastante resiliente nessa questão ambiental. E a ideia do projeto é ampliar para 100% do estado sergipano, para que todos os municípios sejam atendidos de alguma forma pelo programa”, projetou Danilo.
Foto: Deso

Reflorestamento e recuperação de ecossistemas
Um exemplo concreto do papel estratégico do reflorestamento na manutenção da vida silvestre e na proteção dos recursos naturais está no Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco, localizado no município de Capela.
Ele abriga o segundo maior fragmento de Mata Atlântica em Sergipe e é um dos últimos redutos do macaco-guigó (Callicebus coimbrai), espécie rara e ameaçada de extinção. Com 894,76 hectares, a unidade também protege importantes mananciais e assegura a continuidade dos serviços ecossistêmicos essenciais à região.
Para fortalecer ações de recuperação ambiental em áreas como essa, a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas (Semac) firmou, neste ano, o Acordo de Cooperação Técnica nº 01 com a Biofábrica do Sergipetec. A parceria tem como foco a ampliação da rede de coletores de sementes e o apoio a projetos de restauração da vegetação nativa, inicialmente voltados à Caatinga, com possibilidade de expansão para zonas de Mata Atlântica, como a própria Mata do Junco.
De acordo com a Semac, já foram realizados cerca de 25,81 hectares de plantios compensatórios nas unidades de conservação Mata do Junco e Mata do Cipó, com previsão de reflorestamento em outros 53,5 hectares.
“Entre os resultados, destacam-se o aumento da biodiversidade, a recuperação de áreas degradadas e a proteção de nascentes que abastecem municípios como Capela, Siriri e Nossa Senhora das Dores”, ressalta a secretaria.
Essas ações muitas vezes ocorrem como medidas de compensação ambiental, a exemplo do projeto desenvolvido pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). Entre 2016 e 2021, a empresa plantou 20 mil mudas em 10 hectares, como compensação pela supressão de vegetação durante a instalação de uma linha de transmissão de energia.


Fotos: Semac
Esse tipo de iniciativa também se reflete em escala nacional. Segundo dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), em 2023 as empresas do setor possuíam mais de 72 mil hectares em recuperação ambiental, distribuídos principalmente no bioma Mata Atlântica, como o Refúgio Mata do Junco, e, em seguida, no Cerrado.
O esforço é parte de um compromisso mais amplo com a conservação. Ainda de acordo com a Ibá, a área total protegida pela cadeia de árvores cultivadas no Brasil chegou a 6,91 milhões de hectares, sendo 4,88 milhões referentes a áreas de Reserva Legal (RL), 1,94 milhão de Áreas de Preservação Permanente (APP) e 100 mil hectares de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN).
Essas áreas restauradas e conservadas integram um conjunto de ações que, além de recuperar ecossistemas degradados, contribuem diretamente para a ampliação dos impactos positivos do reflorestamento em todo o país.
Complementando essas ações no âmbito local, a Semac também investe em educação ambiental como um dos pilares da preservação. Iniciativas como trilhas interpretativas, projetos de pesquisa com instituições de ensino e a participação de moradores nos Conselhos Consultivos das Unidades de Conservação buscam aproximar as comunidades locais da gestão ambiental.
Um dos destaques é a Trilha Interpretativa “Trilha do Pau-Brasil”, instalada no Refúgio Mata do Junco em parceria com o Instituto Federal de Sergipe (IFS), com base em normas da ABNT e diretrizes do ICMBio.
“Essa iniciativa, aliada a programas de educação ambiental, oficinas e visitas escolares, contribui para o fortalecimento do ecoturismo local e a integração das comunidades vizinhas às ações de preservação”, aponta a secretaria.








