Enquanto ajusta o tecido na máquina de costura, Francielle Santos interrompe o trabalho para responder às duas filhas. O ateliê onde trabalha nasceu junto com a maternidade e, dez anos depois, ainda divide espaço com ela. Para Fran, apelido carinhoso pelo qual é conhecida, a chegada das filhas foi mais do que uma mudança de rotina: tornou-se o ponto de partida para a criação do Ateliê Peti Louise, negócio inspirado nas filhas Maitê Louise e Isabela Louise.
A máquina de costura divide espaço com a rotina de mãe e empreendedora. (Foto: Raphaella Teles)Foto: Raphaella Teles
A primeira experiência com o empreendedorismo surgiu ainda durante a gravidez da filha mais velha, quando começou a produzir lembranças e itens personalizados de maneira artesanal, sem imaginar que, anos depois, aquilo se transformaria na principal fonte de renda da família. Foi apenas durante a segunda gestação, cerca de um ano e meio depois, que o trabalho deixou de ser improvisado e ganhou estrutura profissional. A máquina de costura passou a ocupar espaço fixo dentro de casa, assim como a necessidade de equilibrar prazos, pedidos e a criação de duas crianças pequenas.
Mas a trajetória de Fran não foi construída apenas pela vontade de empreender. O ateliê nasceu também da necessidade de garantir sustento, permanecer próxima das filhas e encontrar uma alternativa profissional compatível com a maternidade. Formada em Zootecnia, ela percebeu cedo que o mercado tradicional dificilmente se encaixaria na nova realidade que vivia.
“Foi uma necessidade, porque assim, eu tinha acabado de sair da faculdade. Como eu tinha engravidado, eu não ia ter condição nenhuma de trabalhar na minha área. E aí uma das formas que eu vi que daria para trabalhar seria trabalhando em casa junto com elas”, afirma.
Foto: Raphaella Teles
Ela relembra os primeiros anos do ateliê com um sorriso leve, entre a nostalgia e o alívio de quem atravessou dias difíceis. Conciliar a rotina do trabalho com as demandas constantes da maternidade nunca foi simples. A sensação de estar sempre dividida entre os pedidos e os cuidados com as filhas trouxe frustração, cansaço e a impressão permanente de interrupção.
As mãos que produzem cada peça também carregam a história da maternidade. (Foto: Raphaella Teles)As mãos que produzem cada peça também carregam a história da maternidade. (Foto: Raphaella Teles)
“Sempre foi uma loucura. Agora está melhorando porque elas já têm consciência de que aqui é um trabalho. Ainda assim elas às vezes invadem aqui e eu fico: “Olha, aqui não é lugar para vocês, aqui é lugar de trabalho, tem máquina, tem agulha”, mas elas sempre estão muito próximas e sempre foi assim. No início era frustrante porque eu não conseguia começar e terminar um trabalho de forma plena. Tipo, fazer, começar aqui e terminar aqui. E isso sempre me incomodou, a loucura de sempre ter que estar dando assistência. Como elas mamaram até três anos cada uma, eu amamentei por cinco anos seguidos, então tinha horas que eu tinha que parar e cuidar delas. Então assim, uma das coisas que sempre me marcava era às vezes a menorzinha chegava e dizia: “Mamãe, quero peitinho”, aí eu tinha que parar, amamentar”, relembra.
Ao longo de uma década, o ateliê cresceu junto com as filhas. O que começou de forma improvisada dentro de casa se transformou em um negócio consolidado, ampliado pelas redes sociais e pela fidelização de clientes. Mas, para Fran, a maior construção desse percurso não está apenas no crescimento profissional. Está na possibilidade de acompanhar de perto a infância das filhas enquanto reinventava a própria trajetória.
“O que eu sou hoje é além do que eu desejei. Evoluí bastante. A evolução realmente foi junto com o crescimento delas”, afirma.
Quando empreender também é acolher
Dizem que coração de mãe é grande, e sempre cabe mais um. Talvez seja essa a lógica que move a rotina da professora e empreendedora Deise Dórea, de 46 anos, natural de Pirambu, no litoral norte sergipano. Mãe de duas filhas, ela divide os dias entre a sala de aula, a administração do próprio negócio e a missão de transformar o artesanato produzido por mulheres sergipanas em fonte de renda, autonomia e permanência.
Foto: Raphaella Teles
Com conduta calma e olhar atento aos detalhes, Deise começou a empreender há cerca de cinco anos, inicialmente pelas redes sociais e sem imaginar a dimensão que o negócio alcançaria. A ideia surgiu de forma despretensiosa e afetiva: arrecadar recursos para manter um projeto solidário de Natal realizado ao lado do marido. Todos os anos, o casal reunia doações e presenteava famílias em situação de vulnerabilidade.
Mas a chegada da pandemia tornou o projeto cada vez mais difícil de sustentar. Foi da tentativa de não deixar aquela iniciativa morrer que nasceu a ‘Palha Decor’, loja especializada em peças artesanais produzidas por mulheres de diferentes regiões de Sergipe. A primeira ideia foi simples: transformar sousplats feitos por uma comunidade quilombola em guirlandas natalinas. Ela divulgou os produtos na internet e utilizou o dinheiro arrecadado para continuar a ação solidária. O que começou como uma alternativa pontual rapidamente se transformou em negócio.
“Passado o Natal, as pessoas que compraram as guirlandas de palha queriam também outros produtos. Perguntaram se eu tinha tapetes, cestos, foi quando eu comecei com uma mulher, fazendo os sousplats e com esses pedidos nós começamos a pedir para ela fazer os cestos, os tapetes de palha e outros produtos”, explica.
Com as vendas alavancando, o negócio alcançou as plataformas digitais. ”Eu resolvi colocar na Shopee também. Foi quando a gente começou realmente a ter um impacto. De uma mulher, em seis meses, a gente já estava com 30 mulheres, 30 mães, que estavam tendo a oportunidade de vender o seu produto para o Brasil inteiro”, relata.
O crescimento aconteceu de forma acelerada. O que antes funcionava apenas pela internet passou a conectar dezenas de mulheres artesãs espalhadas pelo estado. Hoje, a rede criada por Deise reúne cerca de 120 mulheres, muitas delas mães e responsáveis pelo sustento da própria família. São artesãs de municípios como Pirambu, Pacatuba, Estância, Itaporanga e São Cristóvão, que encontraram no artesanato uma forma de garantir renda sem abandonar completamente a rotina doméstica e o cuidado com os filhos.
“Um ano depois nós já estávamos com quase cem mulheres. Hoje a gente trabalha com cerca de 120 mães, 120 mulheres, de seis municípios aqui de Sergipe. Nós vendemos pelo marketplace da Shopee, do Mercado Livre. A gente consegue proporcionar a essas mulheres que elas tenham mais empoderamento feminino, mais qualidade de vida e consequentemente consigam também retornar isso para os seus filhos, dando a eles oportunidade de estudar, de alcançar alguns projetos”, afirma.
Há seis meses, o negócio ganhou também um endereço físico. A loja, localizada no município da Barra dos Coqueiros, região metropolitana de Aracaju, funciona como uma vitrine da produção artesanal sergipana.
Foto: Raphaella TelesFoto: Raphaella TelesFoto: Raphaella TelesPeças produzidas por mulheres de diversas regiões de Sergipe ocupam o espaço da Palha Decor. (Foto: Raphaella Teles)
Entre cestos, peças em crochê, palha e cerâmica, o espaço reúne técnicas tradicionais produzidas em diferentes regiões do estado, e também preserva identidades culturais transmitidas entre gerações.
“Cada comunidade tem uma identidade cultural. A gente respeita a identidade cultural de cada região, valoriza a mão de obra delas. Por exemplo, a região de Itaporanga trabalha com os cestos. A região de Pirambu trabalha com a palha de ouricuri. A região de Pacatuba trabalha com a palha de taboa, Estância trabalha com peneira. Então cada um tem sua identidade cultural e a gente faz, a gente valoriza esse trabalho de cada região. E hoje a gente consegue unir. Tivemos a ideia de unir a palha com o crochê, porque a cidade de São Cristóvão é muito famosa pelo crochê que eles produzem. A gente junta aí duas tipologias e acaba valorizando dois municípios”, expõe.
União da palha com o crochê. (Foto: Raphaella Teles)União da palha com o crochê. (Foto: Raphaella Teles)União da palha com o crochê. (Foto: Raphaella Teles)
Apesar da realização profissional estampada no rosto, a rotina está longe de ser leve. Além de empreendedora, Deise continua trabalhando como professora e tenta equilibrar as múltiplas jornadas sem deixar a maternidade em segundo plano. Entre viagens, encomendas, aulas e reuniões, a culpa aparece como sentimento frequente, principalmente na relação com a filha mais nova, de 10 anos.
Ela conta que tenta incluir a jovem no cotidiano do trabalho como forma de transformar a ausência em proximidade. Enquanto organiza peças e acompanha pedidos, leva a filha para participar da rotina da loja, apresentar materiais e descobrir, pouco a pouco, o universo criativo construído pela mãe.
Pintura em peça de argila feita pela filha. (Foto: Raphaella Teles)
“Ela já sente muito minha falta. Às vezes fala: ‘Mainha, não saia não, mainha, não vá não’. E aí eu tento trazer ela comigo e tento fazer com que ela sinta gosto também pelas coisas que eu trabalho. E com isso ela já começou a pintar, já gosta de argila. Então eu tento trazer ela para o meu mundo também quando eu não consigo ficar com ela. É difícil, porque às vezes não é aquilo que ela gostaria, mas dentro do que eu posso fazer eu sempre procuro ficar perto”, conta.
Mas junto da maternidade existe também outro peso: o da responsabilidade compartilhada com as dezenas de mulheres que dependem financeiramente da produção artesanal para sobreviver.
“Eu sinto o peso do que é a minha empresa para outras mães. Então, além do desafio de ser mãe e estar com a minha filha e transformar os momentos que eu estou com ela em momentos significativos, eu sinto também que eu não posso parar porque as outras mães que dependem disso aqui precisam”, declara.
Artesanato feito pela filha enquanto a mãe trabalhava. (Foto: Raphaella Teles)
Ao falar sobre o impacto do trabalho na vida de outras mulheres, a emoção rompe a firmeza da voz. Entre tantas histórias que acompanha diariamente, uma permanece viva na memória.
“Tenho o caso de uma mulher que quando eu conheci ela, ela vendia cestinho no mercado municipal, a um real. Eu vi ela passando para lá e para cá com esses cestos e eu procurei ela ali e chamei ela, peguei o contato dela e depois fui até o endereço dela. Chegando lá, ela tinha um talento incrível, mas vivia numa situação de vulnerabilidade horrível, triste. Ela vivia num galinheiro com o marido e com o filho, porque a casa dela tinha caído, o barraco dela caiu e ela morava no galinheiro. Eu pedi para ela fazer as peças que ela achasse mais bonita, na opinião dela, e 15 dias eu voltaria. Quando eu voltei ela tinha lá umas nove peças. Eu escolhi três, cadastrei no marketplace da Shopee. E um ano e meio depois ela me chamou para ir lá: ‘Mainha, eu queria que a senhora viesse aqui’. Quando eu cheguei lá, ela disse: ‘Eu quero que a senhora venha tomar um cafezinho comigo’. Aí eu fui lá, quando eu cheguei ela estava com a casa dela construída. Morando numa casa de bloco, com a família dela. Então isso é gratificante demais. É a gente saber que é difícil o trabalho, mas é satisfatório saber que outras pessoas se realizam também e conseguem proporcionar qualidade de vida para as suas famílias”, finaliza.
Prêmios pelo empreendedorismo. (Foto: Raphaella Teles)Prêmios pelo empreendedorismo. (Foto: Raphaella Teles)Prêmios pelo empreendedorismo. (Foto: Raphaella Teles)
Um legado costurado à mão
Se, por meio do artesanato, Deise Dórea transformou o empreendedorismo em rede de apoio para outras mulheres, Rafaela Castro encontrou na moda autoral uma forma de reinventar a própria trajetória profissional e construir um futuro diferente para o filho. Mãe, empreendedora e criadora da marca sergipana Severinas, ela costura, entre tecidos, cores e identidade regional, muito mais do que roupas: constrói um legado marcado por pertencimento, autonomia e afeto.
Foto: Raphaella Teles
A Severinas nasceu pequena, dentro de casa e com baixo investimento financeiro, mas carregando um desejo enorme de permanência. A marca surgiu enquanto Rafaela ainda conciliava a maternidade recente com jornadas de trabalho cansativas e pouco acolhedoras para uma mulher que se tornou mãe.
“A Severinas nasce com meu filho no colo, nessa inquietação de construir algo sólido para deixar para ele mesmo. Pensando nele. Eu já fazia uma renda extra revendendo multimarcas, só que eu vendia mais do mesmo e eu queria entregar algo que tivesse mais de mim”, afirma.
A maternidade alterou a maneira como ela enxergava o trabalho, o tempo e o futuro. O nascimento do filho trouxe também um novo senso de responsabilidade e a necessidade de construir algo próprio, capaz de garantir autonomia financeira sem abrir mão da presença materna. Foi nesse movimento de transformação pessoal que a Severinas começou a ganhar forma.
“Quando a gente coloca um filho nos braços a gente repensa absolutamente tudo. A vida faz um giro de 360º e a gente fica com essa responsabilidade, esse senso de responsabilidade, essa vontade de construir um legado para deixar para o filho. E foi muito desse lugar que nasceu a Severinas: pequena, baixo investimento, mas sabendo que eu ia botar alguma coisa no mundo com muita capacidade de crescimento”.
Mãos que constroem ponto a ponto o legado para o filho. (Foto: Raphaella Teles)
A marca, marcada pela valorização da cultura sergipana e por peças carregadas de identidade, também nasceu como resposta a um mercado de trabalho que, segundo Rafaela, ainda não consegue acolher mulheres que conciliam maternidade e carreira. Antes de empreender, ela enfrentava uma rotina intensa, marcada por baixa remuneração, longas jornadas e pouca flexibilidade para viver plenamente os primeiros anos da maternidade.
Foi justamente diante desse cenário que o desejo de empreender deixou de ser apenas sonho e passou a representar possibilidade concreta de sobrevivência, independência e construção de futuro.
“O mercado de trabalho não acolhe mães.
Ele não está preparado para acolher mães, foi muito desse lugar. Foi do lugar de entender que a realidade salarial é salário mínimo, e salário mínimo é muito pouco. E foi do lugar de já conhecer o caminho das pedras de fazer moda e eu sabia que se eu tivesse uma dedicação eu conseguiria tirar mais do que o que o mercado de trabalho me pagaria”, diz.
Entre a criação das peças, a administração da marca e a maternidade, Rafaela segue equilibrando múltiplas versões de si mesma. Mas, diferente da lógica tradicional do mercado, onde mães frequentemente precisam escolher entre presença e trabalho, ela decidiu transformar o próprio negócio em uma extensão da vida que deseja construir ao lado do filho.
Emancipação x estratégia de sobrevivência
Em Sergipe, mais de 102 mil mulheres comandam negócios próprios, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, PNAD Contínua de 2025. Por trás dos números, existem mães que costuram entre uma mamada e outra, mulheres que transformaram o artesanato em sustento e empreendedoras que encontraram no próprio negócio uma forma de permanecer perto dos filhos. As histórias de Fran, Deise e Rafaela não são isoladas. Elas estão presentes nos números que revelam o potencial feminino para gerir negócios, sustentar famílias e reinventar a própria rotina diante dos desafios da maternidade e do mercado de trabalho.
Dados mostram o avenço do empreendedorismo feminino em Sergipe. Fonte: PNAD Contínua de 2025.
As trajetórias dessas mulheres mostram como luta, resiliência e propósito são capazes de projetar negócios. Entretanto, por trás do discurso de autonomia e empoderamento, existe também uma realidade marcada por sobrecarga, necessidade financeira e ausência de suporte.
Como narrado por duas das empreendedoras desta reportagem, o empreendedorismo nasceu como uma alternativa para suprir aquilo que o mercado de trabalho tradicional não conseguiu oferecer. Em muitos casos, empreender deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.
Para o professor do Departamento de Estatística e Ciências Atuariais da Universidade Federal de Sergipe (DECAT/UFS), graduado em Economia, mestre e doutor em Demografia, Kleber Oliveira, existe uma diferença entre empreender por emancipação e empreender por estratégia de sobrevivência.
É preciso que a gente diferencie a espontaneidade de uma empreendedora e a estratégia Quando é que ela é espontânea? É quando ela decide abandonar o emprego e abrir o seu negócio, então ela vai decidir empreender. Desse ponto de vista é muito bom, porque a mulher tem a opção de permanecer no seu emprego ou de fazer o seu próprio negócio. Agora, quando é estratégia de sobrevivência, as coisas mudam. Imagine, a mulher tinha a sua carteira assinada e foi demitida. Ela vai empreender não como uma opção, é como estratégia de sobrevivência. As coisas mudam bastante de figura porque ela acumula o empreendedorismo e não abre mão de ser mãe, não abre mão de ser esposa, de cuidadora, de gestora da vida do seu esposo, dos seus filhos”, explica.
Ainda de acordo com a PNAD Contínua, 64,3% das mulheres empreendedoras sergipanas são chefes de família e, por trás da autonomia financeira que o empreendedorismo pode proporcionar, também existe uma sobrecarga emocional e social.
“Elas precisam estudar, elas precisam ser mãe — e não é ser mãe e criar, ela tem que ser mãe exemplar —, ela tem que ser empreendedora de sucesso e ela não tem com quem contar. Ela tem uma família para orientar, para sustentar com o seu empreendedorismo. Não raro, a gente encontra mulheres com distúrbios emocionais: ansiedade, depressão pelo grau de cobrança que a necessidade impõe e a própria sociedade impõe também”, pontua o professor.
Entre a flexibilidade e a vulnerabilidade
Outro dado coletado na PNAD Contínua, que acende um alerta diz respeito à informalidade. Em Sergipe, mais de 75% das mulheres empreendedoras trabalham de maneira informal.
Fonte: PNAD Contínua de 2025.
Para a doutora em Sociologia, especialista em Educação Empreendedora pela PUC do Rio de Janeiro e empreendedora, Adrielma Fortuna, o fenômeno é atravessado por diferentes fatores. Segundo ela, muitas mulheres recorrem ao trabalho informal buscando flexibilidade para conciliar maternidade, cuidado e geração de renda.
Ela também explica que, em muitos casos, pessoas formalizadas como Microempreendedoras Individuais (MEI) sequer se reconhecem como empreendedoras. São diaristas, artesãs, manicures, vendedoras e trabalhadoras autônomas que enxergam na formalização uma possibilidade de acesso à seguridade social.
Alguns dos outros fatores ligados à informalidade são: o receio de perder benefícios sociais; a falta de conhecimento sobre direitos e vantagens da formalização; e ausência de tempo e renda para investir no próprio negócio.
“Um dos fatores que explica isso é porque muitas recebem benefícios do governo. Então elas ficam com medo também de se formalizarem e perderem a assistência do governo que é muito compreensível; Outra coisa é a falta de conhecimento. Uma das coisas que eu vejo muito quando eu vou fazer palestras sobre o MEI é o desconhecimento dos benefícios. Mulheres que não ganham benefício do governo, por exemplo, têm salão de beleza já há alguns anos e não sabem que ela se formalizando ela tem acesso a crédito, que elas têm acesso a aposentadoria, que ela está contribuindo vai estar contribuindo ali todo mês para a aposentadoria. Se ela tiver uma gestação ela tem direito a licença maternidade pela empresa; Uma outra coisa é voltada para questão do tempo. A própria dedicação das mulheres para a sua empresa; [Por fim] um custo a mais é custo. Mesmo você sendo MEI você vai pagar cerca de oitenta e seis reais por mês. Você fature ou não. Se você atrasar um dia no pagamento da mensalidade você paga juros”, enumera.
Ampliar o acesso à educação e à informação é o passo mais importante para reduzir a informalidade entre as mulheres empreendedoras. Mas, segundo a especialista, compreender os benefícios da formalização depende, muitas vezes, de oportunidades de capacitação que nem sempre chegam às populações mais vulneráveis.
“A questão está associada a um problema maior de base que é a falta de educação formal. É a escolarização. Então as mulheres em situação de vulnerabilidade são as mulheres menos escolarizadas. São as mulheres, por exemplo, moram em locais em que a saúde não chega, que a segurança pública não chega, que espaços de lazer não chegam[…] A única preocupação que ela está é de conseguir vender a produção dela para no final do dia ela pegar os cinquenta reais que ela fez, ou os cem reais, os duzentos reais e comprar a comida do dia ou do dia seguinte. Pra ela e pra família”.
Além de destacar que existe uma diferença entre o empreendedorismo por oportunidade e aquele motivado pela necessidade, Oliveira também alerta para as consequências da informalidade, principalmente diante da ausência de proteção social.
“O empreendedorismo não quer dizer que ela tenha proteção legal. O “fazer bico” não é empreendedorismo, empreendedorismo é um nome bonito para a mulher que vende amendoim. A mulher que vende amendoim também é empreendedora; uma pessoa que larga o serviço público, uma juíza, por exemplo, uma desembargadora que abandona o serviço público e vai abrir uma empresa, ela é empreendedora — ambas são empreendedoras, mas elas estão em posições completamente diferentes na escala social. Uma vai empreender por opção e outra vai empreender por necessidade. Esse grau de falta de cobertura legal implica que essa mulher empreendedora hoje, que vende amendoim, que faz diária — atividades domésticas —, ela aos 65 anos não vai poder se aposentar. Sergipe perde 13 bilhões por ano porque as pessoas não recolhem INSS, mas não recolhem, não é porque não querem recolher, é porque o que ganham é insuficiente”, conclui.
A realidade invisível das mulheres informais
Uma pesquisa de campo realizada por esta reportagem buscou, nas ruas de Sergipe, mulheres que empreendem na informalidade para entender os motivos que mantêm milhares delas fora da formalização. Mesmo diante de insistentes tentativas de entrevista, muitas recusaram participar da reportagem por medo, insegurança ou pela associação da informalidade a algo ilegal.
Entre as poucas mulheres que aceitaram compartilhar suas histórias está a comerciante Maria Selma Lorenzo, comerciante do Mercado Central Maria Virgínia Leite Franco, em Aracaju. Em meio à correria para atender clientes, organizar mercadorias e manter o funcionamento do pequeno negócio, ela encontrou espaço para falar sobre a maternidade dos seus quatro filhos, trabalho e sobrevivência.
Maria Selma. (Foto: Raphaella Teles)
“A dificuldade é quando a criança é pequena, agora não. Mas quando a criança é menor, com quem deixar pra trabalhar? Na época eu não trabalhava, não. Quando ele era menor, eu ficava em casa. Quem trabalhava era meu esposo”, explicou.
Com receio de expor o que a mantém na informalidade, ela afirma que um dos seus objetivos é conseguir formalizar o próprio negócio, realidade que dialoga diretamente com os fatores apontados pela especialista entrevistada.
Outra mulher que vive a informalidade diariamente é Heleniza dos Santos. Mãe de coração dos sobrinhos e dona de uma pequena banca no mercado, ela deixou o trabalho com carteira assinada para tentar melhorar de vida trabalhando por conta própria.
“Eu resolvi trabalhar pra mim. Trabalhei, trabalhei e juntei um dinheiro e comprei essa banca”, relembra.
Foto: Raphaaella Teles Foto: Raphaaella Teles
Heleniza também faz parte da grande parcela de mulheres que empreendem informalmente em Sergipe e explica que os altos custos da rotina impedem que ela consiga dar o próximo passo rumo à formalização.
“Muitas coisas pra pagar. Tem muitas coisas pra gente pagar, tem casa, tem aluguel, tem alimentação, aí às vezes não sobra. No próximo ano, vou tentar contribuir com o INSS pra ver se as coisas melhoram. Mas é porque tá muito crítico a situação, mercadoria cara, o movimento fraco, às vezes se você investe o dinheiro e não tem retorno. Tudo isso atrapalha”.
No ateliê, Fran ainda interrompe a costura quando as filhas chamam. Deise tenta transformar o pouco tempo livre em presença. Rafaela constrói, ponto por ponto, o legado para o filho. E Heleniza e Maria Selma segue atrás do balcão com dignidade e resistência.
Em comum, elas carregam mais do que os próprios negócios. Carregam a responsabilidade do cuidado, da renda, da casa e do futuro. Mulheres que transformaram necessidade em coragem e encontraram no empreendedorismo uma forma de sustentar os filhos, preservar a própria autonomia e construir futuro. Entre a emancipação e a sobrevivência, seguem equilibrando diariamente trabalho, família e resistência.