Santana do São Francisco, Sergipe, Brasil – Às margens do rio que carrega o nome de santo, o ritmo da produção é ditado por louvores. Na oficina do ceramista Manildo Batista, é sob o compasso de músicas religiosas que o barro bruto se deixa forjar, num piscar de olhos, em peças decorativas e cheias de minúcias.
Todos os dias, por volta das 8 horas da manhã, ele chega em seu ateliê em Santana do São Francisco, município distante cerca de 120 km de Aracaju, localizado no Baixo São Francisco, para iniciar o trabalho diário com mãos que acumulam décadas de intimidade com a argila.
“Quando a pressa passa, tudo acontece”, ensina o ceramista.
Foto: Vitor Samuel
O lema revela o segredo de um mercado onde talento, tempo e empenho mantêm tradições por meio do artesanato. Aos 62 anos, ele faz parte de um grupo de ceramistas que fizeram da matéria-prima disponível nas ribanceiras do Velho Chico um meio de garantir sustento e explorar a criatividade.
Manildo ajuda a erguer a chamada economia prateada, o ecossistema de negócios liderado por indivíduos com mais de 60 anos, que garantem a preservação de uma cultura vinculada aos territórios.
Essa dedicação geracional foi chancelada pela conquista oficial pelo artesanato em Barro de Santana do São Francisco do registro de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Ao alcançar esse marco, produtos com história ganham um selo definitivo de notoriedade, que funciona como uma ferramenta de proteção e valorização territorial. O registro, que representa a 153ª IG nacional e a segunda do Estado de Sergipe.
Ele atesta que um produto possui qualidade, reputação e características únicas estritamente ligadas à sua origem. Assim, as peças locais ganham um forte diferencial competitivo no mercado, promovendo a inclusão social e o turismo na região reconhecida.
Tradição valiosa que sustenta
Antes conhecida como Carrapicho, Santana do São Francisco foi batizada como a capital sergipana do artesanato em barro, e o título não é em vão.
Segundo a coordenação de artesanato local, a atividade garante o sustento de metade dos 7.346 habitantes do município (IBGE 2022). A força dessa economia pulsa em toda a cidade, que abriga 117 cerâmicas cadastradas e 530 artesãos registrados formalmente, espalhados por olarias movimentadas por tornos e fornos.
A cadeia produtiva é organizada, e nem todos iniciam moldando o barro artesanalmente. Antes de esculpir filtros de água, moringas e vasos, Manildo começou na lida com o barro dando acabamento nas peças, o chamado “polimento”.
Filho de um artesão tradicional, foi incentivado pelo pai a trabalhar em casa, somente como ceramista. Antes, chegou a se aventurar na pintura de automóveis e alimentou o sonho de ser jogador de futebol — desejo ainda visível nas fotos de atletas coladas nas paredes da olaria —, mas foi na autonomia do barro que encontrou sua sobrevivência.
“Busquei uma outra profissão, lido um pouco com pintura de automóvel, aprendi um pouquinho, mas não deu para exercer aqui e fui me apegando com o artesanato, e achei uma profissão interessante”, lembra.
Fotos: Vitor Samuel
A decisão de abandonar uma renda fixa para apostar no trabalho autônomo, no entanto, foi cercada de inseguranças.
“Eu fiquei meio assustado, porque lá já tinha uma renda aparentemente já fixa, já tinha quanto eu ganhava, dependendo do meu esforço, e ir para casa é uma aventura”, completa.
A história do ceramista se relaciona com a outros artesãos que têm a atividade manual como a única fonte de recursos. Segundo o estudo “Artesão no Mercado Nacional” (2026), realizado por meio de uma cooperação técnica entre a Unisinos e o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), essa era a realidade de 35,3% dos entrevistados. Outros 29,2% a tinham como principal pilar financeiro, complementado por outros ganhos.
Desse modo, quando precisou contar com o artesanato como meio indispensável de sustento, foi observando a própria produtividade na oficina onde trabalhava que Manildo percebeu o potencial econômico da atividade.
“Eu via como era minha produtividade. Você vai investir mais tempo, até valores, mas tem um retorno. Aí eu disse: ‘Se eu aprender, acho que dá para sobreviver’. Eu comecei a aprender e foi muito bom. Realmente dá para você sobreviver. Eu digo que o nosso trabalho, ou a nossa profissão, ela é valiosa. Quem não valoriza somos nós”, argumenta.
A percepção de Manildo sobre o valor do ofício também passa pelo esforço físico e técnico exigido na produção. O processo de lida com o barro guarda semelhanças com o trabalho em uma mina.
Tudo começa nas jazidas das ribanceiras do Velho Chico. Ali, o barro é cavado, picado e recebe uma primeira “agoada”. No dia seguinte, a argila é movimentada e molhada novamente até o terceiro dia, a fase do aprontamento, quando os profissionais pisam o material e realizam cortes manuais com ferramentas de ferro.
Já nas oficinas, a massa passa por nova pisa para a retirada de impurezas antes de ser dividida em “cabuchos”, que são pequenas porções prontas para o torno, uma estrutura giratória de madeira, que serve de suporte para erguer as peças. Assim que a peça atinge a consistência ideal, é feito o polimento final e o produto é exposto ao sol para perder a umidade restante antes de enfrentar as chamas no forno de queima.
Pés movimentam o motor que faz girar o tornoCabuchos viram pequenas peças utilitárias após manejoApós secagem, peças ficam por horas no forno até ganharem resistência e atingirem coloração ideal
Fotos: Vitor Samuel
Por causa do desgaste, para Manildo, a produção segue em ritmo reduzido, adaptada às limitações que o ceramista escolheu respeitar devido à idade.
“Eu produzo devagar e agora estou trabalhando sozinho também, aí também eu tenho um número controlado. Essas peças [são] de consumo aqui, essas jarras, chaleiras, panelas”, aponta.
Para manter a competitividade em um mercado com tanta oferta, Manildo adaptou um motor mecânico ao torno. No entanto, a tecnologia trouxe um novo dilema: se antes o ofício movimentava todo o corpo, o uso do motor concentra o esforço apenas nos membros superiores, gerando preocupações com a saúde.
“A recomendação médica [é que] você desça, passe uma meia hora caminhando para aumentar a circulação, porque aqui [membros superiores] fica parado. Eu digo: ‘Olha, eu já tô nessa idade, eu aderi a isso aqui, tá bom meu esforço’. Minhas peças eu faço devagar também, não tem essa correria”, completa.
Foto: Vitor Samuel
Além do impacto físico, o ceramista relata que o setor também enfrenta gargalos na comercialização. Segundo Manildo, intermediários costumam negociar lotes por valores abaixo do mercado, em meio à preocupação de alguns criadores em precificar o próprio esforço.
“Eles vêm para cá com a proposta de negociar, começam a negociar, comercializar com um preço bem aquém. E as pessoas, muitas vezes, se motivam porque vão comprar seu produto completo. Aí é dado um decréscimo de 10, 20, 30%. Quer dizer, isso é inadmissível”, lamenta.
Essa vulnerabilidade no retorno financeiro expõe um problema estrutural que ultrapassa as fronteiras de Santana do São Francisco: a informalidade.
De acordo com os dados sobre Empreendedores +60 (PNAD Contínua 4º Tri/2024), do universo de pessoas que trabalham por conta própria na terceira idade, 88,3% atuam no mercado informal e 73% não realizam nenhuma contribuição para a Previdência Social.
O Prof. Dr. Fábio Rodrigues de Moura, coordenador do curso de Ciências Econômicas da UFS, aponta que a informalidade impacta mais os trabalhadores na maturidade, e destaca que o acesso à informação é uma das ferramentas mais eficazes para romper esse ciclo.
“Atores como, por exemplo, o Sebrae, são muito importantes em um momento como esse, para poder tentar capturar de volta, capturar no sentido de chamar a atenção dessa população, incentivando a formalização. Há linhas de crédito que você pode conseguir apenas sendo formalizado, linhas de crédito que podem ajudar a promover o negócio”, aponta o economista.
Apesar dessas barreiras econômicas e de mercado, Manildo mantém o otimismo no poder da produção. O pensamento que toma forma nos recursos oferecidos pela própria natureza também defende a continuidade da tradição como o principal objetivo de sua jornada.
“O melhor de qualquer qualquer arte, qualquer profissão, é você gerar novos profissionais, porque é isso, o incentivo. Eu defendo muito essa arte porque ela é interessante e ela é agradável, eu me sinto bem”, conclui.
Crônica visual do imaginário popular
Além das peças utilitárias que abastecem o comércio regional, a economia criativa local captura a essência do imaginário popular. É nesse nicho que José Ivan, mais conhecido como Cachoba, transforma a argila em crônica visual do cotidiano sertanejo e ribeirinho.
Nas mãos do artesão de 66 anos, o material ganha formas humanas, traços religiosos e personagens típicos do Baixo São Francisco, um ofício que ele domina há mais de três décadas e que começou, como a maioria, na função de ajudante.
Fotos: Vitor Samuel
“Eu trabalhava numa cerâmica de artesanato que só fazia vaso. Como eu tinha 20 anos, nas horas vagas eu comecei a praticar escultura, fazer figuras humanas, fazer casinhas, fazer cavalinho, bichos e tal. Despertou o interesse da comunidade em comprar, [e dos] visitantes. Eu passei também a vender em algumas feiras, e de lá para cá eu comecei a aperfeiçoar um pouco o trabalho”, conta.
Com o tempo, sua identidade artística passou a retratar personagens característicos da região.
“Diferenciar e retratar o homem do campo, o velho, o nordestino, o lenhador, o pescador, que é do Baixo São Francisco. Então, isso despertou a curiosidade, e também despertou o mercado para que eu vendesse fora. Eu já vendi por muitos anos, e o mercado maior que absorve é Bahia, eu tenho clientes até em Porto Seguro”, afirma.
Embora seja reconhecido pelas esculturas, Cachoba mantém uma produção diversificada. Além das peças autorais, também fabrica vasos e coordena ajudantes responsáveis por executar parte das encomendas. De principal renda ao longo da vida, a cerâmica passou a funcionar como complemento financeiro após a aposentadoria.
Foto: Vitor Samuel
“Já trabalhei muito na cerâmica, já foi uma das principais fontes de renda na época, mas eu sou aposentado hoje, e tenho o artesanato como complementação de renda. Eu me dedico mais à produção e atender aos meus clientes que eu já tenho. E o trabalho que eu faço é um trabalho minucioso, que requer tempo”, explica.
Essa reputação construída ao longo de décadas garante estabilidade no escoamento das peças. Com uma regularidade quase industrial, ele atende anualmente a encomendas fixas de vasos com alças e dezenas de imagens ricamente detalhadas para comerciantes de fora do estado.
Foto: Vitor Samuel
Para o escultor, moldar a matéria-prima expandiu suas fronteiras pessoais.
“Esse trabalho me abriu portas para várias coisas, para o conhecimento que eu tenho hoje, uma relação interpessoal com pessoas de fora, com a sociedade, e ele foi muito importante porque ele complementou parte da minha vida”, aponta.
No último pau de arara
Já no ateliê de Maria José Batista, o barro é um elo familiar onde a casa se transforma em espaço coletivo de criação e salvaguarda cultural. Criada sob a influência criativa do pai, ela aprendeu cedo a enxergar a cerâmica como sustento e memória.
Professora aposentada, aos 65 anos, divide a produção com o marido: enquanto ele molda as peças no torno, ela assume os acabamentos, pinturas e mensagens decorativas.
Nascida em Aracaju, se mudou para Santana do São Francisco aos 16 anos e acompanhou o pai, então recém-aposentado, dar os primeiros passos na atividade. Às margens do Rio São Francisco, a herança cultural ganhou forma definitiva na rotina da casa.
Foto: Vitor Samuel
“Ele começou fazendo canoas. Ele focou nessa área, aí começou a fazer, e aí ele disse: ‘Eu vou copiar aquela lancha’. E daí começou, e fazia diversas outras coisas. Eu fui começando, fazendo as bolinhas, e das bolinhas, outras coisinhas, um cavalinho, uma boneca. Inclusive até eu brincava com as próprias bonecas de barro”, comenta.
Décadas depois, essa relação afetiva se traduz na paciência com que Maria José grafa dizeres em peças de barro e une o viés financeiro ao terapêutico.
“Para mim é uma fonte de renda. É um complemento na fonte de renda. É uma terapia, e gosto do que faço”, afirma.
Fotos: Vitor Samuel
Como muitas mulheres empreendedoras na terceira idade, a rotina exige jogo de cintura para conciliar a produção, o comércio no ateliê e os cuidados domésticos. Para manter o negócio competitivo no mercado aquecido pela Indicação Geográfica, ela aposta na inovação constante do catálogo.
“Eu faço o rotineiro, mas aqui e acolá lanço uma coisinha, uma novidade, deixo lá. Até que aparece alguém: ‘Ah, finalmente encontrei uma coisa diferente, gostei’. E leva, então já eleva a autoestima”, celebra.
Em universo onde o produto final carrega saberes transmitidos entre gerações e uma diversidade de técnicas e identidades, a preocupação da perpetuação da relação com o território recai sobre os mais velhos.
Apesar do reconhecimento conquistado pelo artesanato local, Maria José observa com preocupação o distanciamento das novas gerações em relação ao ofício. Ainda assim, ela segue determinada a manter viva a tradição.
“A importância é da gente continuar praticando, no caso, não deixando morrer, até enquanto eu tiver condições físicas tô aqui. Só deixo meu cariri no último pau de arara. É esse meu lema também. Eu até gostaria que essa juventude se engajasse, não se deixasse morrer”, diz ela.
Nesse sentido, para o professor Fábio Rodrigues de Moura, políticas que usem a juventude da própria casa como aliada estratégica podem ajudar a salvaguardar tradições como a cerâmica do Baixo São Francisco.
“As iniciativas voltadas aos jovens podem ser linkadas com seus familiares. Devemos focar nos jovens, mostrar para eles que, se entenderem que podem trabalhar em conjunto, só têm a ganhar, principalmente quando a gente pensa na renda familiar. O percentual de indivíduos que vão se enquadrar nessa categorização [economia prateada] só tende a aumentar nos próximos anos, e a camada mais jovem da população pode auxiliar”, afirma.
Seja pela esperança de engajamento dos mais jovens ou na resiliência de artesãos em atividade, em Santana do São Francisco, o artesanato é ferramenta ligada à memória, identidade e território. Pelo manejo cuidadoso, a força criativa que resiste se transforma em peças com selo de garantia. Saber-fazer é movimento que, sobretudo, pode se fazer com as mãos.