Chegar a um país desconhecido, sem dominar o idioma, conhecer seus direitos ou ter uma rede de apoio pode tornar o cotidiano um grande desafio. Foi a partir dessa experiência que a estudante malinesa Nantenin Diarra (23) ajudou a criar o Além das Fronteiras, projeto desenvolvido na Universidade Federal de Sergipe (UFS) para acolher estudantes estrangeiros. A iniciativa venceu o Prêmio Empreendedor Social 2026, promovido pela Folha de S.Paulo, na categoria Jovens Transformadores por Democracia e Cidadania.
Estudante de Relações Internacionais, Nantenin chegou ao Brasil há quatro anos por meio do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que oferece a jovens de países com acordos de cooperação com o Brasil vagas gratuitas em universidades brasileiras. Natural do Mali, país de África Ocidental, ela fala francês e bâmara.
Por isso, sua primeira barreira ao desembarcar no Brasil foi o português, além dos procedimentos burocráticos que também dificultaram o início da vida acadêmica.
“Você chega em um país sem falar a língua portuguesa, entra na universidade sem saber o que procurar, onde você tem que comer, onde vai achar isso… são várias questões que, para um brasileiro, são normais, mas, para uma pessoa que vem de fora, são desafios muito grandes”, relata.
Nantenin conta ainda que percebeu outros estudantes em situações semelhantes durante uma roda de conversa com refugiadas venezuelanas na universidade. Ao ouvir os relatos, a universitária decidiu que poderia ajudar outros imigrantes que passaram por experiências que também faziam parte de sua trajetória.
A partir dessa troca, nasceu a ideia do Além das Fronteiras. O projeto foi construído por outros quatro estudantes de Relações Internacionais da UFS, além da própria Nantenin: Hagata Mariana Cardoso Cruz, Hiara Rebeca Cardoso Cruz, Thaissa Fernanda de Oliveira Sousa, todas brasileiras; e João Pedro de Oliveira Celestino, natural de Angola, sob orientação do professor Geraldo Adriano Godoy de Campos, do Departamento de Relações Internacionais.
Como funciona o projeto
A atuação do Além das Fronteiras começa antes mesmo de os estudantes desembarcarem em Sergipe. A equipe mantém contato online, orienta sobre a viagem e organiza a recepção. Quando os alunos chegam, são recebidos no aeroporto e auxiliados a buscar moradia.
O suporte também se estende à rotina universitária. Entre as orientações estão informações sobre matrícula, acesso ao Restaurante Universitário, emissão da carteira de ônibus e orientação sobre os demais serviços oferecidos pela instituição. Nantenin destaca também a assistência para regularização migratória, com a emissão do Registro Nacional Migratório (RNM) e os procedimentos necessários junto à Polícia Federal.
“Como é que você vai saber que precisa fazer isso sem ter esse apoio jurídico, sem ter alguém que vai te explicar que, ao chegar no Brasil, você tem 90 dias para poder ir à Polícia Federal e fazer isso?”, questiona Nantenin ao explicar a importância de garantir o acesso à informação.
Atualmente, a rede de apoio concentra suas atividades no campus de São Cristóvão, mas também oferece suporte a estudantes estrangeiros dos campi de Itabaiana, Laranjeiras e Lagarto. Segundo Nantenin, mais de 200 estudantes já foram alcançados pela iniciativa.


Acolhimento que vai além da orientação
Encontrar apoio pode fazer a diferença não apenas na adaptação acadêmica, mas também na construção de vínculos. É o que conta Cária Adêncio (18), estudante moçambicana que chegou ao Brasil em janeiro deste ano para cursar Engenharia de Petróleo na UFS.

Antes da viagem, ela já mantinha contato com integrantes do projeto, que a ajudaram a organizar sua chegada. Mesmo assim, a universitária conta que ainda havia insegurança em confiar em pessoas que conhecia apenas pela internet.
Porém, sua percepção mudou ao ser recebida no aeroporto. Cária foi acolhida pela equipe e chegou a morar com Nantenin durante os primeiros meses no Brasil. “Não foi só o apoio com os documentos, comida e casa, mas também o apoio emocional, porque ela me recebeu como se eu fosse a irmã dela, como se eu fosse alguém da família”, relembra.
Quando Cária recorda os desafios que enfrentou ao chegar no Brasil, Nantenin também relembra o sentido da iniciativa e vê no projeto a possibilidade de transformar essa vivência em apoio para cada vez mais estrangeiros. “Em um mundo cheio de preconceito, a gente quer ser a voz, a ponte para essas pessoas, para que eles não passassem pelo que eu passei, pelo que os outros também passaram antes de mim”, afirma.
Projeto pretende ampliar atendimento
Além das ações já desenvolvidas, o Além das Fronteiras trabalha no desenvolvimento de um aplicativo gratuito e multilíngue, em parceria com a Faculdade de Tecnologia de Araras (FATEC), em São Paulo. A ferramenta deve reunir orientações jurídicas e institucionais para facilitar o acesso de estudantes estrangeiros aos serviços e direitos no Brasil. A proposta é ampliar o alcance da iniciativa para além de Sergipe, fortalecendo uma rede de apoio que possa ser utilizada por estudantes de diferentes regiões do país.
Para Nantenin, o objetivo é garantir que pessoas que deixam seus países encontrem condições de construir uma nova trajetória. “A gente quer ser essa ponte, essa voz para essas pessoas, porque é o nosso lugar de fala e a gente merece isso”, concluiu.
Agora, o próximo passo da equipe do Além das Fronteiras é a participação na cerimônia do Prêmio Empreendedor Social 2026, marcada para o dia 16 de novembro, em São Paulo.








