Artigo – Fim da escala 6×1: equilíbrio econômico e medidas para preservar a competitividade

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A redução da jornada deve ser acompanhada de políticas que diminuam o custo da contratação formal, estimulem a produtividade e protejam a capacidade de abastecimento do país.

A aprovação, pelo Senado Federal, da proposta de extinção da escala 6×1 e de redução gradual da jornada semanal de trabalho representa uma mudança relevante nas relações trabalhistas brasileiras. A medida responde a uma demanda legítima por mais tempo de descanso, convivência familiar e qualidade de vida, mas também impõe ao país o desafio de compatibilizar esse avanço social com a sustentabilidade econômica das empresas.

O debate ganha importância especial quando observado sob a perspectiva do comércio atacadista distribuidor, setor essencial à cadeia de abastecimento nacional, que conecta a indústria ao varejo e garante o fornecimento de produtos a milhares de estabelecimentos comerciais em todo o território brasileiro.

Os números da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (ABAD), em parceria com a NielsenIQ, demonstram a dimensão dessa atividade. Segundo o Ranking ABAD/NielsenIQ 2026, com dados referentes a 2025, o setor alcançou faturamento de R$ 616,6 bilhões, com crescimento nominal de 17,27% e expansão real de 11%, descontada a inflação medida pelo IPCA. No mesmo período, a participação do setor no mercado mercearil brasileiro passou de 53,7% para 56%.

Esses indicadores mostram que o atacado distribuidor ocupa uma posição estratégica na economia. Consequentemente, alterações relevantes em sua estrutura de custos podem produzir efeitos que ultrapassam os limites das próprias empresas e alcançar a indústria, o comércio varejista e o consumidor final.

Uma conquista social que merece ser reconhecida

A ampliação do tempo de descanso pode proporcionar benefícios importantes aos trabalhadores. Mais tempo disponível para a família, o lazer, a educação e a recuperação física e mental representa uma dimensão relevante da qualidade de vida.

Em atividades que envolvem esforço físico, deslocamentos, separação de mercadorias, transporte e cumprimento de metas operacionais, o descanso adequado também pode contribuir para a segurança e para a redução do desgaste profissional.

É importante reconhecer, portanto, que a discussão não deve ser conduzida como uma disputa entre empresas e trabalhadores. O desenvolvimento econômico depende de profissionais valorizados, condições adequadas de trabalho e organizações capazes de operar de maneira produtiva e sustentável. O desafio consiste em transformar esse avanço social em uma mudança economicamente viável, considerando as diferenças entre os setores e os modelos de negócio.

O peso econômico do atacado distribuidor

O faturamento de R$ 616,6 bilhões registrado em 2025 evidencia a relevância do setor, mas é necessário interpretar corretamente esse indicador: faturamento não equivale a lucro, geração de caixa ou capacidade de absorver novos custos.

Empresas de distribuição movimentam grandes volumes financeiros e, simultaneamente, precisam administrar despesas com pessoal, combustível, frota, armazenagem, energia, tecnologia, instalações e capital de giro. A rentabilidade depende da diferença entre receitas e custos, e não apenas do volume de vendas.

O próprio Ranking ABAD/NielsenIQ evidencia a diversidade dos modelos operacionais. Em 2025, considerando os dados publicados pela entidade e excluindo o Atacadão da análise do canal indireto, os distribuidores com entrega responderam por 44,5% do faturamento declarado pelas empresas participantes, enquanto o atacado generalista com entrega representou 35%. Essa configuração ajuda a compreender a importância da logística e da continuidade operacional para o setor.

Uma empresa distribuidora precisa coordenar recebimento, conferência, armazenagem, separação de pedidos, carregamento, transporte, entrega e atendimento comercial. A redução das horas disponíveis de trabalho pode exigir uma reorganização simultânea de diferentes etapas dessa cadeia.

Se a cobertura operacional precisar ser mantida com equipes adicionais, o custo total da operação poderá aumentar. O impacto dependerá da estrutura de pessoal, da produtividade, das escalas vigentes e da capacidade de reorganizar os processos.

Menos horas trabalhadas e maior custo por hora produtiva

A principal preocupação econômica está na relação entre jornada, remuneração e produtividade.

Quando o salário mensal é mantido e o número de horas trabalhadas diminui, o custo salarial por hora aumenta, consideradas as demais condições constantes. Se a empresa também precisar contratar trabalhadores adicionais para preservar o volume de operações, poderão aumentar as despesas com salários, encargos trabalhistas e previdenciários, treinamento, supervisão e infraestrutura. Esses efeitos não serão iguais para todas as empresas.

Uma operação com processos automatizados e maior produtividade poderá absorver parte da mudança com ajustes de planejamento. Já uma distribuidora que depende intensamente de mão de obra para separar pedidos, carregar veículos e cumprir janelas de entrega poderá enfrentar maior necessidade de recomposição das equipes.

Há ainda uma diferença importante entre custo fixo e custo variável. Aluguel de armazéns, depreciação de equipamentos e parte das despesas administrativas não aumentam necessariamente com a redução da jornada. Entretanto, o custo por unidade movimentada poderá subir se a capacidade instalada for menos aproveitada ou se forem necessários novos turnos e recursos operacionais.

A questão central, portanto, não é presumir que todas as empresas terão aumentos iguais, mas reconhecer que a transição poderá gerar pressões relevantes, sobretudo nas operações intensivas em mão de obra e com margens limitadas.

Os riscos para preços, emprego e competitividade

Diante de um aumento de custos, as empresas dispõem de alternativas: absorver a diferença por meio de suas margens, elevar a produtividade, reorganizar processos, reduzir outras despesas ou repassar parte do aumento aos preços.

No atacado distribuidor, o repasse pode afetar a competitividade comercial e a relação com os clientes varejistas. Caso parte dos custos adicionais seja incorporada aos preços de venda, poderá haver repercussão sobre os estabelecimentos que dependem da distribuição para abastecer suas prateleiras.

Isso não significa que os preços necessariamente aumentarão na mesma proporção dos custos. A concorrência, as condições de negociação, a produtividade e a capacidade de absorção de cada empresa influenciam o resultado.

Também merece atenção o emprego formal. Se a adaptação à nova jornada ocorrer sem ganhos de produtividade ou medidas de alívio econômico, algumas empresas poderão adiar contratações, restringir investimentos ou rever planos de expansão.

Esses são riscos possíveis, e não consequências inevitáveis. A redução da jornada também pode produzir benefícios por meio de menor rotatividade, melhores condições de trabalho e ganhos de produtividade. A avaliação definitiva dependerá dos resultados observados após a implementação. O objetivo das políticas públicas deve ser ampliar a probabilidade de que os benefícios sociais sejam alcançados sem comprometer a capacidade de geração de empregos, a competitividade e o abastecimento.

Reduzir os encargos sobre o trabalho é parte da solução

Se a sociedade pretende avançar na redução da jornada, é necessário discutir também como tornar a contratação formal economicamente mais viável. A redução tecnicamente estruturada dos encargos incidentes sobre a folha de pagamento pode constituir um instrumento relevante para atenuar os custos adicionais da transição, especialmente em atividades intensivas em mão de obra.

No comércio atacadista distribuidor, a questão é particularmente importante porque a manutenção do nível de serviço depende de equipes capazes de assegurar a movimentação de mercadorias e a regularidade das entregas. Uma política de redução de encargos, quando bem desenhada, pode diminuir o custo de contratação, aliviar a pressão sobre as margens e reduzir o incentivo à substituição de trabalho formal por alternativas menos produtivas.

Essa medida precisa, entretanto, ser acompanhada de responsabilidade fiscal e avaliação dos resultados. Não se trata de eliminar indiscriminadamente direitos trabalhistas ou comprometer o financiamento da Previdência e de outras políticas sociais, mas de examinar quais componentes do custo de contratação podem ser reduzidos ou compensados de maneira sustentável.

Entre as alternativas a serem discutidas estão:

  • Desoneração focalizada da folha para atividades com elevada participação do trabalho nos custos operacionais.
  • Medidas transitórias de alívio financeiro durante a adaptação às novas escalas.
  • Incentivos à formalização e à contratação, vinculados a critérios transparentes.
  • Simplificação de obrigações acessórias e redução de custos burocráticos.
  • Linhas de crédito e incentivos a investimentos em tecnologia, automação e eficiência logística.

A adoção de medidas dessa natureza exige estudos sobre os efeitos fiscais, a distribuição dos benefícios e os resultados efetivos sobre emprego e produtividade. O objetivo deve ser construir uma compensação econômica consistente, sem criar privilégios injustificados ou transferir custos excessivos para a sociedade.

Produtividade e planejamento: a responsabilidade empresarial

A atuação do poder público precisa ser acompanhada de iniciativas das próprias empresas.

O Ranking ABAD/NielsenIQ 2026 registra expectativas positivas de parte do setor para 2026, incluindo crescimento de colaboradores, volume comercializado, base de clientes e fornecedores, além de investimentos em tecnologia, sistemas de gestão, comércio eletrônico e outros canais de venda. Esse contexto reforça a importância de tratar a adaptação à nova jornada como uma oportunidade para modernizar processos, sem ignorar as despesas necessárias para isso.

As empresas devem avaliar a produtividade por hora trabalhada, o custo por pedido separado, o custo por entrega, a ocupação dos veículos, o absenteísmo e a rotatividade das equipes. Também precisam simular diferentes escalas e identificar onde existem gargalos operacionais.

A automação de armazéns, a melhoria da roteirização, o planejamento dos horários de recebimento e expedição e a integração dos sistemas comerciais e logísticos podem contribuir para compensar parte das horas disponíveis a menos. Esses investimentos, porém, exigem capital e tempo de implementação. Por isso, a modernização não substitui a necessidade de políticas econômicas adequadas, sobretudo para distribuidores de menor porte.

Uma agenda de transição baseada em diálogo e evidências

A aprovação da proposta deve abrir uma etapa de diálogo entre governo, Congresso Nacional, trabalhadores e entidades representativas do setor produtivo. Para o atacado distribuidor, é fundamental que esse processo considere as diferenças entre empresas, regiões e modelos operacionais. Estudos setoriais, simulações de custos e indicadores de emprego podem contribuir para a definição de medidas mais eficientes.

A ABAD e as entidades regionais possuem um papel importante na consolidação de informações sobre a estrutura operacional do setor. O uso de dados sobre número de funcionários, produtividade, estrutura logística e evolução das despesas poderá ajudar a dimensionar os efeitos da mudança e fundamentar propostas de política pública.

É importante, contudo, distinguir os dados já publicados das estimativas que ainda precisam ser construídas. O faturamento demonstra a dimensão econômica do setor, mas não permite calcular, isoladamente, quanto a redução da jornada acrescentará aos custos de cada empresa. Para essa estimativa, são necessários dados específicos sobre folha de pagamento, jornadas atuais, horas extras, encargos, produtividade e necessidade de contratação adicional.

A elaboração de cenários com essas informações permitiria identificar quais modelos de distribuição estão mais expostos e quais medidas poderiam reduzir os impactos sem comprometer o emprego formal.

Conciliar proteção social e sustentabilidade econômica

O fim da escala 6×1 representa uma mudança importante nas relações de trabalho e deve ser discutido com respeito à busca por mais qualidade de vida. Ao mesmo tempo, sua implementação exige atenção aos custos, à produtividade e às condições necessárias para preservar a competitividade das empresas.

A transição será mais equilibrada se combinar planejamento empresarial, modernização operacional, previsibilidade regulatória e medidas que reduzam o custo da contratação formal. Nesse contexto, a redução responsável dos encargos sobre o trabalho deve integrar o debate econômico. Não como oposição aos direitos dos trabalhadores, mas como instrumento a ser avaliado para tornar compatíveis a ampliação do descanso, a manutenção do emprego formal e a sustentabilidade das operações.

Valorizar o trabalhador e preservar a capacidade de abastecer o país são objetivos complementares. O desafio está em construir condições para que a mudança produza benefícios sociais duradouros sem gerar pressões econômicas desnecessárias sobre empresas, comerciantes e consumidores.

Para o comércio atacadista distribuidor, esse equilíbrio depende de diálogo institucional, decisões fundamentadas em dados e políticas capazes de reconhecer que a proteção social se torna mais sustentável quando acompanhada de uma economia produtiva, competitiva e geradora de empregos.

Sobre o autor

Breno Pinheiro França tem 41 anos, é empresário, atua como sócio diretor na França Distribuidora, no segmento de atacado distribuição em Sergipe.

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