A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como crítico, em relatório revelado no último sábado, 19, o risco de influência e interferência externa dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento, enviado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, aponta uma escalada das pressões do governo de Donald Trump sobre o Brasil e relaciona a atuação de Washington a uma estratégia mais ampla de reorientação política da América Latina.
O relatório, intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, foi encaminhado às autoridades no fim de agosto. Segundo a Abin, a avaliação não indica manipulação das urnas ou alteração de resultado eleitoral, mas trata da possibilidade de pressões políticas, econômicas e diplomáticas interferirem no ambiente institucional e no debate público durante o processo eleitoral.
A agência situa essas ações dentro da estratégia adotada pelo segundo governo Trump para reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na região, com o objetivo de reduzir a influência de potências rivais, como a China, e ampliar o controle sobre recursos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura latino-americana. O relatório dedica atenção especial à atuação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, apontando um componente ideológico em sua política para a América Latina, voltado a afastar os países da região da China e a apoiar a ascensão de governos conservadores.
Segundo a Abin, o Brasil ocupa posição particular na estratégia americana por ter um governo com maior disposição para defender sua autonomia diante das pressões de Washington por concessões e realinhamento geopolítico. O documento cita como episódios recentes a tentativa de enquadrar organizações criminosas brasileiras como terroristas e as sanções anunciadas em julho contra brasileiros e empresas sediadas no Brasil e em Portugal, acusados pelo governo americano de vínculos com redes de lavagem de dinheiro ligadas ao Primeiro Comando da Capital.
O relatório também menciona atritos ligados diretamente ao pleito de 2026. Em negociações realizadas em 2025, o governo Trump apresentou ao Brasil uma minuta de declaração conjunta que previa compromisso brasileiro de não deter, prender ou limitar arbitrariamente a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral. Nesta quinta-feira, 17, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista à rádio Itatiaia, que a proposta se tornou “arquivo morto” para o governo brasileiro.








