“Era melhor ter me matado naquele instante”, diz pai que denuncia negligência após morte de filha recém-nascida em Itabaiana

O sonho do segundo filho para Messias Alves acabou se transformando em tragédia para sua família no último fim de semana. Em entrevista ao Portal Fan F1, ele denunciou que após negligência médica, sobretudo de anestesista de um hospital e maternidade filantrópica no município de Itabaiana, sua filha morreu após o procedimento de parto realizado no último sábado, 25.

O caso foi formalmente registrado em boletim de ocorrência. Messias afirma que a esposa deu entrada no hospital sem complicações de pressão ou sinais de risco prévio, tendo o parto sido atrasado pela ausência do anestesista.

Segundo Messias, o impacto emocional na família é notável. Ele conta que o filho mais velho do casal, de 4 anos, ainda aguarda a chegada da irmã após os nove meses de gestação, e que ficou com a bebê no colo por apenas 30 minutos após a confirmação da morte.

“Reação foi de desespero total. Ali pra mim tinha me matado também naquele momento. (…) O menino só pergunta por ela. Esperou nove meses, a gente criando expectativas, e tá muito sentido também. Eu fiquei com ela meia hora nos braços”, conta.

Messias afirma que sua esposa, Vanessa de Jesus Santos, de 25 anos, estava com cerca de 41 semanas de gestação. Por volta das 12h de sábado, após a gestante apresentar contrações e o rompimento da bolsa amniótica, o casal deu entrada na unidade hospitalar para a realização do parto.

Conforme o relato dele, por já ter passado por uma cesariana no primeiro filho, a indicação para o nascimento da menina também era de um parto cirúrgico, acompanhado do procedimento de laqueadura previamente planejado pela mãe.

Após a triagem inicial, ele afirma que trocou de roupa e aguardou a chamada para entrar no centro cirúrgico. No entanto, Messias aponta que a espera se estendeu por mais de duas horas enquanto Vanessa permanecia com dores na sala de espera.

“Ela passou pelo obstetra, enfermeira, fez a ficha tudo certinho (…). Aí deixaram ela lá, ela pediu à enfermeira pra ficar mais ela, que ela estava com muita dor. Aí eu achei estranho, custando demais, e perguntei a outra enfermeira: ‘por que eu não entrei ainda?’. Ela disse: ‘Porque o anestesista foi almoçar'”, relatou.

Ele afirma que mesmo diante do quadro urgente decorrente da bolsa rompida, a equipe de plantão não chamou o anestesista prontamente.

“Aí se passa a hora, se passa a hora… O anestesista não pode sair da maternidade, e eu tive a informação que ele saiu da maternidade. Assim que o anestesista entrasse na sala, eu seria chamado. Eu vi ali que o tempo estava passando. (…) Mas se os médicos viam que a bolsa estava estourada, por que não ligou para ele, para o anestesista?”, questionou.

Segundo o relato do pai, a entrada no centro cirúrgico só veio a ocorrer por volta das 14h40.

Já no centro cirúrgico, Messias afirma ter notado apreensão na atitude da médica obstetra responsável pelo procedimento. Ele afirma ter ouvido a médica exclamar “Meu Deus” em duas ocasiões durante as intervenções.

“Na hora, eu vi que tiraram ela, não estava roxa ainda, colocaram um negocinho na boquinha dela e no aparelhinho pra limpar alguma coisinha. Aí eu falei, o anestesista estava de lado assim, perguntei: ‘e aí, o que tá acontecendo?’. Ele disse: ‘nada não’. A minha mulher perguntou: ‘ela não chorou?’. Eu tentei acalmar ela, e o anestesista no celular, nem aí”, desabafou.

Pouco depois, ele diz ter sido orientado por uma enfermeira a aguardar fora da sala cirúrgica. Após 20 minutos, conta, ao presenciar profissionais movimentando equipamentos de reanimação, veio a confirmação do óbito da recém-nascida.

A causa da morte foi registrada como indeterminada. Messias disse ainda que apenas a assistente social da unidade prestou atendimento acolhedor aos familiares, visivelmente abalada com a situação.

“Do médico, não [vejo culpa direta], acho que foi do anestesista. Mas do médico, ele poderia ser experiente e dizer: ‘liga pro anestesista, olha, a bolsa tá estourada, já tem algum tempo’. Acho que ela morreu ali dentro da barriga sofrendo, entendeu? Que a mulher estava com muita dor ali, naquele momento. Acho que ela morreu do jeito mais difícil que tem de morrer”, disse ele.

A família agora cobra justiça e apuração sobre a responsabilidade do profissional e da instituição hospitalar.

“Rapaz, eu quero justiça, porque eu queria perguntar: será que era a primeira vez que acontece isso? Ou será que vai acontecer de novo isso? Eu não quero mais que nenhum pai passe por essa dor, porque é muito difícil. Era melhor ter me matado naquele instante ali”, finalizou.

Em nota, a Polícia Civil de Sergipe informou que o boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia de Ribeirópolis. Um procedimento investigativo será instaurado para elucidar a situação.

A equipe de reportagem do Portal Fan F1 buscou contato com o hospital para obter um posicionamento sobre a denúncia. Inicialmente, por telefone, foi informado um horário para que a equipe estabelecesse contato com a direção. Em nova ligação, foi informado que a diretoria entraria em contato com a reportagem. O espaço permanece aberto para que a unidade apresente esclarecimentos sobre o caso.

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