Celebrado nesta quarta-feira, 8, o Dia da Emancipação Política de Sergipe marca um dos momentos mais importantes da história do estado. A data relembra o decreto assinado por Dom João VI, em 8 de julho de 1820, que desvinculou Sergipe da administração baiana, iniciando o processo que culminaria na autonomia política do território.
Em entrevista concedida ao Jornal da Fan, da Rádio Fan FM, o historiador e professor Marcos Vinícius destacou que o significado da data ainda é pouco conhecido pela população e defendeu uma maior valorização da história sergipana nas escolas. “Quando a gente fala do 8 de julho, a gente está falando de emancipação. Da emancipação do Estado de Sergipe com relação ao domínio que havia da Bahia. É um significado ímpar que, infelizmente, ainda não está no imaginário da grande população”, afirmou.
O professor fez questão de esclarecer um equívoco histórico frequentemente repetido. Segundo ele, Sergipe nunca pertenceu à Bahia. “A gente escuta muita gente dizendo que Sergipe era da Bahia, quando não era. Sergipe era uma capitania própria, Sergipe Del Rey. Se era Sergipe Del Rey, não era Sergipe da Bahia”, explicou.
Marcos Vinícius detalhou que a ligação entre os dois territórios acontecia porque as autoridades sergipanas eram nomeadas pelo governo instalado em Salvador, que também controlava a arrecadação de impostos e o escoamento da produção econômica do estado. “A emancipação vai falar justamente desse rompimento da autoridade baiana de nomear as autoridades sergipanas, que acabavam favorecendo interesses econômicos da Bahia”, ressaltou.
Durante a entrevista, o historiador lembrou que a fidelidade de Sergipe à Coroa Portuguesa durante a Revolução Pernambucana de 1817 foi determinante para que Dom João VI assinasse o decreto emancipatório. “Sergipe ficou ao lado do rei e não de um movimento revolucionário. Isso ficou muito marcado em Dom João VI, que decidiu retirar da Bahia o poder de nomear as autoridades sergipanas”, disse.
Segundo ele, embora o decreto tenha sido assinado em 1820, sua aplicação foi impedida pelas autoridades baianas. “Em 1820 você tem um decreto real dizendo que Sergipe está emancipado, mas Salvador não deixa. As autoridades baianas prenderam Carlos César Burlamaque, que havia sido nomeado governador, e tudo voltou a ser como era antes”, explicou.
A emancipação só seria efetivada após a Independência do Brasil. Marcos Vinícius destacou que Sergipe também apoiou Dom Pedro I durante o processo de independência. “Dom Pedro olha para Sergipe mais uma vez e reconhece a participação do estado. Então faz valer o decreto assinado por seu pai. A emancipação começa com Dom João VI e só se efetiva depois da Independência do Brasil”, afirmou.
“Quintal da Bahia”
Outro ponto abordado foi a expressão “quintal da Bahia”, frequentemente utilizada para se referir a Sergipe.
Para o historiador, a frase ganhou uma interpretação equivocada ao longo do tempo. “O quintal era o lugar de onde saíam as frutas, a macaxeira, a galinha, tudo o que havia de melhor. Quando se dizia que Sergipe era o quintal da Bahia, significava que daqui saía uma produção muito importante: gado, cana-de-açúcar, alimentos e outros produtos que abasteciam a Bahia”, explicou.
Marcos Vinícius também criticou a pouca presença da história sergipana nas salas de aula e afirmou que existe legislação que determina o ensino desses conteúdos. “A Constituição de Sergipe obriga o ensino da história, da geografia e da literatura sergipana. A LDB também determina o estudo da identidade local. Existe todo um amparo legal, mas isso ainda não é uma prática na maioria das escolas”, disse.
Autor de 11 livros sobre a história de Sergipe, escritos em parceria com o professor Antônio Vanderlei de Melo Correia, o historiador afirmou que ainda enfrenta dificuldades para fazer esse material chegar às redes pública e privada de ensino. “O importante não é adotar o meu livro. É levar o conteúdo da história de Sergipe para os estudantes. Se não quiser usar o nosso, use outro. O essencial é que os alunos conheçam a própria história e desenvolvam o sentimento de pertencimento”, concluiu.







