O canto de toda a gente: Instituto Canarinhos fortalece cidadania, inclusão e cultura de doação em Sergipe

A escuta atenta para o canto de toda gente foi o ponto de partida do maestro Carlos Magno para fazer ecoar as primeiras notas de um projeto que, há 25 anos, se mantém como instrumento de promoção da cidadania e da cultura de doação por meio da música.

Antes mesmo de existir um nome, uma sede ou recursos financeiros, existia o gesto essencial de ouvir crianças, famílias e comunidades que encontravam na musicalidade um território de pertencimento e expressão.

Após anos de atuação em escolas, formando corais e trabalhando com instrumentos musicais, Carlos decidiu exercer o voluntariado em uma instituição sem fins lucrativos. Foi ali que, em certo sábado, ouviu crianças assistidas cantando Coração Civil, de Milton Nascimento, e reconheceu algo que lhe soou familiar.

As vozes eram de crianças que participavam de um coral que ele havia deixado anteriormente, e foram reencontradas de forma inesperada naquele espaço.

“Eu só tinha ensaiado esta canção no outro coral que eu deixei, e eram justamente as crianças deste outro coral que eu tinha deixado que estavam cantando. Teve uma mãe que chegou e falou assim: ‘Olha, professor, as crianças não se adaptaram com o professor que foi para lá e nós queremos que nossas crianças venham para cá, porque nós ficamos sabendo que o senhor estava dando aula aqui’”, relembra.

Da vontade coletiva de crianças, famílias e educadores nasceu o que viria a ser o Instituto Canarinhos de Sergipe, o INCASE, formalizado anos depois, mas existente desde 1999 como prática de educação musical e convivência comunitária.

“Como havia crianças de diversos bairros, nós demos o nome de Canarinhos de Aracaju: o canto de toda a gente. Fomos ensaiando e, no dia 9 de outubro de 1999, nós fizemos a estreia, apareceu um um patrocinador para as camisas, outro para fazer o design, e nós estreamos. Fizemos a primeira apresentação em um shopping em Aracaju, e aí a partir dali não parou mais”, conta o maestro.

Com sede em Aracaju, o INCASE se consolidou ao longo dessas duas décadas e meia como uma organização não governamental com finalidades culturais, de assistência social e de promoção da cidadania e dos direitos humanos. Atende crianças, jovens e adolescentes a partir dos 7 anos de idade, que além do canto participam de atividades de musicalização, dança, flauta doce, violão, violino, violoncelo, bateria, teclado, percussão e teatro.

Canto e notas de solidariedade

Se foram as vozes dos canarinhos que deram início à trajetória do Instituto, foi a solidariedade que garantiu sua permanência ao longo de 25 anos. Com o crescimento do projeto, novos desafios surgiram, entre eles a mudança de voz dos adolescentes, que ameaçava a permanência de alguns no coral. A resposta veio por meio da adaptação e criatividade.

“As crianças, quando chegavam na pré-adolescência, queriam sair, porque havia mudança de voz, então, o que que nós fizemos? Introduzimos instrumentos musicais. Primeiramente, a flauta doce. Então, todos passaram a aprender flauta doce”, explica Carlos Magno.

A partir dessa decisão, novos instrumentos foram incorporados, como percussão, violino, escaleta e violoncelo. A música ganhou corpo de orquestra, enquanto o teatro e a dança passaram a integrar o processo como linguagens complementares de expressão e convivência.

Atualmente, o Instituto é formado por três grupos. Os Pequenos Canarinhos de Aracaju reúnem crianças de 6 a 10 anos; os Canarinhos de Aracaju, adolescentes de 10 a 18 anos; e a Orquestra Popular Villa-Lobos, alunos do próprio coral. Esse amadurecimento institucional levou, em 2008, à formalização como ONG. Hoje, o INCASE é reconhecido como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, o que possibilita a participação em editais públicos.

“E além dos editais, nós começamos a trabalhar com o povo, solicitando doações. As coisas começaram a vingar bem, então hoje nós trabalhamos com crianças, adolescentes e jovens, inclusive pessoas atípicas, fazendo a inclusão social, a inclusão cultural que nos dá muito prazer”, destaca o maestro.

Ao longo de sua história, o Instituto também fortaleceu uma cultura de doação e corresponsabilidade. O funcionamento depende do engajamento espontâneo de famílias, amigos e moradores da comunidade, que contribuem com tempo, trabalho e recursos.

“As voluntárias são parentes dos canarinhos, alguns pais que fazem questão de nos ajudar, porque a instituição não cobra mensalidade, então aí fica por conta mesmo da comunidade, da sociedade”, afirma Carlos Magno.

Para o maestro, a solidariedade é uma prática cotidiana e, no caso dos Canarinhos, sustentada pela forma como as pessoas enxergam a arte e a inclusão.

“Doação e solidariedade vão muito do coração de cada um. O que a pessoa pensa da arte, o que a pessoa pensa da inclusão, e nós temos muitas pessoas boas. O que é doação? Nós temos as mães dos canarinhos que são voluntárias. São elas que preparam os lanches para as crianças, por exemplo”, explica.

Cultura de doação

A história do INCASE não se sustenta apenas pela música que se aprende em sala, mas também pelos vínculos. É nesse ambiente de acolhimento que se insere a história de Ivanete dos Santos, mãe de Ingrid Vitória dos Santos, de 23 anos. Ivanete conheceu o Instituto há cerca de 14 anos, quando buscava um espaço que acolhesse o interesse precoce da filha pela música e, ao mesmo tempo, oferecesse oportunidades de convivência.

Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Ingrid apresentava dificuldades significativas de interação social e foi uma das primeiras crianças autistas a integrar o INCASE.

“Desde que Ingrid começou a falar, já se interessava por música. Aí eu disse: ‘essa menina é uma ‘periquitinha’, gosta de cantar muito’. A minha intenção era que ela entrasse lá e começasse a conhecer outros meninos da idade dela e começasse a interagir com aquelas crianças”, relata.

Com o passar do tempo, os efeitos desse convívio se tornaram evidentes. As mudanças, segundo a mãe, foram graduais e profundas, construídas a partir da música e do respeito às particularidades da filha.

“Ela era uma autista muito agitada, muito hiperativa. E hoje ela é mais calma, tranquila, paciente, sabe esperar, sabe dialogar, sabe conversar e sabe se expressar”, afirma.

O progresso de Ingrid aproximou Ivanete ainda mais do projeto. Movida pelos resultados e pela forma como os membros do Instituto acolheram a filha, ela passou a atuar como voluntária, ajudando na divulgação e na conservação do espaço utilizado para os ensaios do grupo.

“Isso, para mim, é uma satisfação. O melhor que a gente faz é compartilhar um com o outro, dividir com o outro, ajudar o outro. Se a gente vê que um irmão nosso está precisando de alguma coisa, vamos lá ajudar, ver o que ele está precisando. Mesmo que seja com a fala, com o diálogo, acho que a gente já ajuda”, diz.

Outra presença constante no cotidiano do Instituto é Ediranilde Silva, avó de duas alunas. O vínculo começou quando ela passou em frente à antiga sede do INCASE e decidiu buscar uma oportunidade para as netas. Desde então, são nove anos de convivência marcados por pertencimento e participação ativa.

“Então eu me sinto assim, a pessoa mais velha da casa, no meu caso, acompanhando todos eles, e pra mim é muito gratificante. Queria que todo mundo pudesse chegar mais. Não só na parte dos pais, mas sim a comunidade. Porque aqui precisa, é um trabalho que ele faz, magnífico para todo mundo, para todas as crianças”, afirma.

Outra trajetória que ajuda a compreender essa cultura de doação é a de Edeíldes, mãe de quatro filhos e psicopedagoga. Sua relação com o INCASE começou pelo filho Rodrigo, então adolescente, integrante dos Canarinhos, e se expandiu para uma atuação contínua no campo pedagógico e voluntário.

“Há 10 anos atrás, ele foi canarinho. Foi lá que ele aprendeu a tocar violino, violão, e hoje ele ainda continua na orquestra”, conta.

Enquanto aguardava o filho nos dias de ensaio, Edeíldes observava o cotidiano do Instituto, os deslocamentos das crianças, as conversas entre mães. Daí, o desejo de colaborar surgiu quase como consequência natural.

“Eu perguntei ao maestro se eu poderia ajudar, se tinha alguma coisa lá no Instituto que eu pudesse fazer”, relembra. A resposta veio direta: “você vai ser a coordenadora pedagógica”, diz ela.

Para ela, o voluntariado ocupa o lugar de necessidade. “O voluntariado sempre esteve presente na minha vida. Para mim, particularmente, é uma maneira de retribuir o universo, tudo aquilo que ele nos dá todos os dias. É uma necessidade fazer algo a mais do que eu já faço no trabalho diário, no trabalho remunerado. Eu vejo uma realização pessoal intensa. É uma construção de amizade para a vida toda”, completa.

Ao revisitar a própria trajetória, o maestro Carlos Magno encontra na doação pela música a síntese do caminho percorrido. Recorrendo a um verso, traduz o que o voluntariado e a existência do Canarinhos representa em sua vida.

“Padre Zezinho, que eu tive o privilégio de conhecer, de tocar com ele, ele tem uma letra uma música que diz assim: ‘Fui lutar por um mundo novo, deixei meu lar, mas ganhei um povo’. Isso aconteceu comigo. Eu deixei minha família lá no Rio de Janeiro, lá em Volta Redonda, e vim para Sergipe, e hoje eu tenho uma família quatro vezes maior do que a minha”, finaliza.

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *