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Empreen-DELAS | Da economia de subsistência para o estímulo ao empreendedorismo feminino: a ascensão do aratu em Indiaroba

Por Larissa Gaudêncio

01/06/2024


Foto: Arthur Soares

Sorrateiro, o aratu se esconde no solo rico dos mangues, mas é atraído pelas marisqueiras, experientes encantadoras de crustáceos. A ferramenta de sopro mais poderosa – a própria boca – faz ecoar assobios e cantigas que trazem o animal à superfície, confirmando que a sensibilidade ambiental e os costumes culturais dessas personagens possibilitam a sobrevivência da lida com a pesca.

Em Indiaroba, município situado no extremo sul sergipano que abriga cerca de 18 mil habitantes, as práticas para a coleta do aratu fazem parte de um ritual construído mediante relações familiares, na observação da natureza e, acima de tudo, na resiliência de uma comunidade composta por mulheres que, mesmo com os pés na lama, conseguem construir e realizar sonhos. 

Por lá, os saberes ancestrais já se uniram às tecnologias urbanas. O balde, a vara e a isca possibilitaram a coleta do aratu por gerações de famílias ribeirinhas e a construção de uma cultura de subsistência e comercial. O pequeno marisco, por meio de seu catado, ganhou importância social, cultural e econômica, e hoje nomeia a moeda de circulação exclusiva na cidade, ajudando a impulsionar pequenos negócios e empreendedores locais. 

De acordo com a Secretaria Municipal de Inclusão e Desenvolvimento Social, atualmente há 293 comerciantes cadastrados no banco municipal que aceitam a moeda aratu como pagamento em transações comerciais. Nesse embalo, desde a criação da moeda, há quase dois anos, mais de 4 milhões de aratus já foram movimentados. 

‘Parêa boa é de dois em dois’: tradição e subsistência

No Povoado Terra Caída, a 13 km da sede de Indiaroba, as águas do rio Piauí banham a história de ávidas trabalhadoras. Maria Lúcia Evangelista, uma guerreira de 84 anos, é um exemplo de que a mariscagem como prática contínua dinamizou o processo social, tornando mulheres as responsáveis por uma das principais forças econômicas da comunidade. 

Devido à proximidade da divisa com a cidade de Mangue Seco, na Bahia, em Terra Caída há restaurantes, pousadas e comércios que atendem a demanda crescente de visitantes. No povoado, as embarcações flutuam tranquilas e servem de meio de transporte para pescadores e viajantes, em meio a uma figura imponente que se coloca como regente. O monumento de um aratu colossal prende os olhos de quem admira a paisagem e revela o que é simbólico para o município. Mas como para cada Golias há um Davi, há quem dome esse “gigante”. 

As artimanhas para pescar aratu, Maria Lúcia conta que aprendeu com a mãe: maré seca, vara, balde e iscas feitas de restos de outros mariscos. Pescadora artesanal ou, como gosta de dizer, veterana marisqueira, deu seu toque especial: cantigas regionais que dão o tom à experiência revigorante da pesca. 

“Eu fui pro mangue mais ela [mãe], e no primeiro dia que eu fui mais ela, eu trouxe um saco de aratu e ela outro saco, ali na ilha [Ilha Porto Alegre]. Eu tinha 12 anos, de 12 anos até essa data. Eu estou no mangue e as meninas dizem assim: ‘Ali é dona Lúcia que está ali no mangue, está cantando, batendo na lata e cantando’”, conta.

Maria Lúcia é conhecida na comunidade como “a guerreira de Terra Caída” / Fotos: Arthur Soares

O procedimento quase que teatral é necessário para vencer em um árduo pano de fundo. O manguezal se revela como um ecossistema “fortaleza”, onde o solo afunda e os galhos são obstáculos. E é por isso que para a marisqueira Jeane dos Santos, de 39 anos, o que não pode faltar é força de vontade. “Não é para qualquer um, não”, diz ela, altiva. No caso de Jeane, os gestos para compor a cena labutar também são hereditários. 

“Eu comecei a pescar aratu mais meu pai e minha mãe quando tinha uns 13 anos, porque tudo o que eu sei do trabalho no mangue foi minha mãe mais meu pai que me ensinaram. Eu mesma pego, eu mesma quebro em casa e eu mesma vendo. Muitas falam aqui que sabem isso e aquilo a respeito do mangue, eu mesma não tenho inveja de ninguém que trabalha dentro do  mangue”, afirma Jeane. 

É na beira da mangue, já no Povoado Preguiça, que ela começa a preparação para incorporar também o espírito de guerreira. A camisa de proteção contra os raios solares e um par de sapatilhas são a armadura; a vara e a isca funcionam como a espada. 

“A gente assobia, canta, bate na beira do balde quando não quer cantar e nem assobiar, para fazer zuada para poder eles virem, se não eles não vêm, e se você se mexer, aí é que não vêm mesmo. A gente usa a vara, a isca, qualquer isca, até mesmo do aratu serve. Bota o sapato, bota a meia e passa o dia dentro do mangue, mas ainda tem que quebrar, lavar bem lavado e torrar”, explica.

Jeane dos Santos levanta cedo para explorar os mangues do Povoado Preguiça / Fotos: Larissa Gaudêncio

É um verdadeiro malabarismo entre habilidade e paciência. Após lançar a linha ao mangue, as marisqueiras esperam que os aratus capturem a isca para coletá-los e armazená-los em sacos ou baldes. Já em casa, fazem um pré-cozimento que endurece a carne para que ela possa ser retirada do exoesqueleto, e assim se obtém o catado, que é porcionado em embalagens de 1 kg e vendido pelas próprias mulheres por um valor médio de R$ 50. 

Segundo a Prefeitura de Indiaroba, pouco mais de 200 marisqueiras como Maria Lúcia e Jeane atuam em povoados do município. O trabalho rende uma produção de aproximadamente 35.116 kg do animal por ano. Por esse motivo, o aratu tem grande importância para a economia de subsistência de famílias ribeirinhas. 

“O que tiver dentro do mangue eu faço, tenho medo de trabalho não, principalmente dentro da maré, porque eu sei. Tem tempo que a gente pega a redinha para pegar camarão, eu mesma não passo fome através do manguezal. Foi gratificante, sim, porque tinha momento em que eu não tinha dinheiro para comprar um alimento”, completa Jeane.

Essa predisposição para a atividade na pesca artesanal das mulheres indiarobenses parece se estender a todo o estado de Sergipe. Segundo dados atualizados em maio no Registro Geral da Atividade Pesqueira, do Ministério da Pesca e Aquicultura, o quantitativo de pescadores profissionais do estado é o sexto maior do Brasil, com 32.879 registros, sendo que 1296 deles foram efetuados em Indiaroba. 

De acordo com o painel da pasta, o percentual de mulheres no RGP no estado supera o de homens, com 20.593 registros, o equivalente a 62,63%.

A consciência ambiental e o gene empreendedor

Situada no extremo-sul sergipano, Indiaroba faz parte da região que compõe a Área de Proteção Ambiental (APA) no Litoral Sul de Sergipe, criada em 1993 pelo Governo do Estado. Constituída por manguezais, estuários e remanescentes de Mata Atlântica, a área é o berço de espécies aquáticas, como o aratu, que tornam as relações sociais indissociáveis do meio ambiente. 

O manguezal é um ecossistema que funciona como um equalizador. Ele atua na bioestabilização do relevo, protegendo as paisagens costeiras, e na fixação dos solos, diminuindo a erosão nas margens de canais. Não obstante, as marisqueiras e outros membros de comunidades ribeirinhas se empenham na preservação do espaço onde vivem e trabalham, estabelecendo uma relação de pertencimento ao território vivo que foi repassado entre gerações.

A líder do Movimento das Mulheres Marisqueiras de Sergipe e do Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais, Geonisía Vieira Dias, reforça essa estreita conexão entre os povos ribeirinhos e os recursos essenciais para a sua sobrevivência.

“O nosso trabalho, o nosso ganha-pão vem do nosso manguezal, vem do nosso trabalho no manguezal, nos nossos rios, então se a gente não preservar, não tiver o cuidado com a preservação, a gente fica sem nada. É muito difícil essa luta, porque tem muita gente que vai lá, corta os nossos manguezais e joga dentro dos nossos rios, e isso prejudica a pesca, prejudica também o berçário dos nossos mariscos. Nós que moramos nas comunidades ribeirinhas, se nós não fizermos isso, preservarmos, nós ficamos sem alimento”, afirma. 

Do vínculo com o mangue, nascem e renascem histórias de vida. Na contramão de estereótipos  inflexíveis, há mulheres que encontram espaço para desmistificar preconceitos e concepções limitantes. Anatália Costa é uma dessas personagens que dão um jeito de navegar contra a maré.

Percebendo a necessidade de expor os serviços e produtos de mulheres da comunidade, criou o  Grupo de Mulheres Empoderadas de Terra Caída, que reúne marisqueiras, artesãs e empreendedoras. Proprietária de uma lanchonete, mas ex-marisqueira, Anatália vislumbra em seu negócio uma possibilidade de valorizar a cultura ribeirinha através da culinária, como também de apoiar comerciantes locais. 

“Eu compro o marisco da marisqueira, porque eu faço carne de hambúrguer de aratu, eu desenvolvi a carne de hambúrguer de aratu, então eu compro delas, porque a gente não pode sair para comprar de fora, a gente tem que comprar das marisqueiras daqui. São pessoas que lutam, que correm atrás, têm uma vida sofrida. Minha mãe é marisqueira, eu também já fui marisqueira, mas agora não tem como ir, porque agora eu estou empreendendo”, diz ela.

Anatália Costa é proprietária da lanchonete McWilson, que tem o hambúrguer de aratu como o carro-chefe / Fotos: Arthur Soares

Antália é componente do grupo de 368 microempreendedores individuais que residem em Indiaroba e dos 103.368 registrados em Sergipe, segundo informações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Ela mobiliza o grupo para que periodicamente realizem feiras temáticas, visando a exposição dos produtos feitos pelas mulheres da comunidade, principalmente no inverno, quando a mariscagem apresenta uma retração e muitas são relegadas a buscar meios adicionais para garantir o sustento.

“Eu vi a possibilidade de estar criando esse grupo para estar chamando as mulheres, porque tem muitas mulheres que sabem fazer coisas maravilhosas, mas elas não sabem como expor, como chegar ao cliente, então junto com uma consultora do Sebrae que veio até a gente foi a oportunidade da gente estar sentando e conversando”, completa. 

Essa verdadeira rede de apoio estabelecida na comunidade é reforçada por Ana Elísia Pereira, presidente da Associação pela Cidadania dos Pescadores e Moradores de Terra Caída (ASPECTO), que menciona, além das ações de fomento ao turismo de base comunitária, a valorização do potencial dos trabalhadores do povoado.

“No decorrer do tempo, a gente vem fortalecendo a comunidade através de cursos para os jovens e para as mulheres também, de artesanato, de culinária, de costureira, porque a marisqueira tem um período que não é muito favorável, que é o inverno, as vendas caem porque os turistas não vem, a chuva acontece e elas não vão para o mangue, então elas tem que ter outras rendas, mesmo gostando de ir para o mangue, precisam de outras atividades”, afirma.

 

De crustáceo a moeda

Tirar da adversidade uma solução inovadora parece ser uma característica intrínseca aos cidadãos indiarobenses. Foi durante a pandemia da covid-19 que o prefeito Adinaldo do Nascimento verificou que, diante do isolamento social e necessidade de diminuir a circulação para outros municípios, o comércio dentro da própria cidade cresceu. 

“É claro que houve o apoio emergencial que o Governo Federal repassou, mas dado o fato das pessoas não poderem se locomover, ficou claro que o comércio melhorou, e aí os comerciantes começam também a exigir da gente ações que fizessem com que o dinheiro não saísse, mas muitas vezes lhe dão o desafio, mas ele não lhe dão como solucionar o desafio”, relembra o prefeito. 

A partir daí, visando combater as desigualdades sociais e fomentar a cadeia econômica da produção, comercialização e do consumo local, foram criados, em julho de 2022, o Banco Popular de Indiaroba (BPI), o primeiro banco municipal do Nordeste, e a moeda social aratu (A$), com a premissa de poder de compra e venda exclusivamente dentro do município e lastreamento pelo real (R$). 

“O Banco Municipal trabalha com a moeda social digital, que funciona através de aplicativo no celular ou pelo cartão, e tem o nome de moeda social porque o dinheiro circula de forma restrita no território municipal, e ele não objetiva lucro. A moeda social é lastreada em real, portanto, cada aratu equivale a um real, em conta pré-paga, então ela tem um lastro já anterior, para que, de fato, o que tem na conta é o que tem em real”, afirma Adinaldo.

Conforme a Secretaria Municipal de Inclusão e Desenvolvimento Social, além dos A$  4 milhões já movimentados e da parcela significativa de comerciantes que aceitam a moeda, houve um aumento exponencial no número de empresas formais no município a partir da criação do banco.

“Quando as atividades dentro do banco começaram, tínhamos 314 microempresas cadastradas, e hoje nós temos 485 microempresas. Hoje, nós temos basicamente quase 300 comércios que aderiram à moeda social, e nós temos mais de 2 mil usuários no banco. Isso faz com que gire cada vez mais esse dinheiro localmente e gere desenvolvimento e economia para o nosso município”, aponta o gerente do Banco Popular de Indiaroba, Lauro Oliveira. 

A moeda social aratu circula exclusivamente no município de Indiaroba / Fotos: Arthur Soares

Os microempreendedores individuais e proprietários de microempresas, detentores de CNPJs, conseguem trocar o aratu por real para que possam adquirir matéria-prima fora do município para abastecer seus negócios, criando, assim, um mercado alternativo entre prestadores de serviços e consumidores. 

Ainda segundo o prefeito Adinaldo Nascimento, o pagamento dos benefícios sociais e a operacionalização do Fundo Municipal de Desenvolvimento Econômico são efetuados através do banco e da moeda social. 

“É cobrada uma taxa de 2% do empreendedor para exercer seus serviços com a moeda. Esses recursos são direcionados para o Fundo Municipal, que pode ser utilizado para crédito produtivo ou trabalho social. A soma dos 2% de quando você compra um serviço em moeda local, paga um serviço em moeda local ou paga determinada mercadoria, possibilita a gente ter um volume de recursos que não sai do orçamento do município”, afirma o prefeito. 

Um dos programas de transferência de renda pagos em moeda local é o Bolsa Família Municipal, que beneficia cerca de 1300 pessoas com A$ 130 mensais. Já o Fundo Municipal de Desenvolvimento possibilitou a criação de um microcrédito voltado para mulheres empreendedoras. 

Anatália Costa é uma das comerciantes que aceitam a moeda e foi contemplada através do programa Mulher Empreendedora com um microcrédito de A$ 3 mil, para que pudesse investir na infraestrutura de seu negócio. 

“Aqui aceito a moeda aratu, e também peguei um crédito para as mulheres empreenderem, A$ 3  mil pra gente estar tocando o nosso empreendimento. Tem muita gente que não tinha condições de ter aquele dinheiro, mas como o prefeito teve esse projeto do bolsa municipal, aquelas pessoas de baixa renda têm o cartão com A$ 130 por mês. Eles depositam um crédito no cartão para essas pessoas e elas vêm comprar os lanches aqui”, explica. 

 No estabelecimento de Anatália e em muitos outros pelo município, adesivos com o aviso “aceitamos aratu” colorem a fachada e reforçam a perpetuação do animal nas mais diversas esferas. Do mangue para os pratos dos indiarobenses e milhares de sergipanos, dos pratos para estabelecimentos comerciais, onde também é moeda, o aratu se faz presente.

A sina até a ascensão

Onde a maré define o ritmo de trabalho e o mangue se mostra como um local místico, as mulheres são guardiãs da devoção e sabedoria, protagonistas na perpetuação da atividade pesqueira, seja por necessidade ou amor. Onde a subordinação é constantemente substituída pela organização coletiva, mulheres se fortalecem mutuamente e ocupam esferas decisórias. 

Onde um pequeno animal dos mangues toma uma magnífica importância e ascende de alimento a moeda, estereótipos são rompidos. Onde as cores da saúde têm tons terrosos e são fluídas como água, o meio ambiente é amigo e o bem mais precioso de comunidades inteiras. 

Onde o aratu se esconde, há encantadoras que não utilizam flautas, mas distinguem seu rastro e iniciam uma batalha sem sangue em uma fortaleza sem pedras. O bicho não demora a aparecer, pois o canto é forte e a postura é firme. 

Onde mais, a não ser em Indiaroba?

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