DOMINGUEIRA
Por Narcizo Machado
A compra de votos é um dos vícios mais antigos e persistentes da política brasileira. E talvez o maior erro seja tratar o problema apenas como uma doença dos políticos. Para existir quem compre, precisa existir quem venda, quem intermedie e, principalmente, uma sociedade que, em determinados momentos, aceite a prática como algo normal, justificável ou até inevitável. O voto, que deveria ser uma escolha livre, transforma-se em moeda de troca.
Uma das raízes desse problema está no patrimonialismo brasileiro, essa dificuldade histórica de separar o público do privado. Outro grande desafio é nossa tal cordialidade: as relações pessoais, familiares e afetivas invadem o espaço público. Temos uma sociedade que usa do privilégio das relações pessoais para burlar as regras que deveriam valer para todos.
E assim nasce o famoso jeitinho brasileiro. Não necessariamente como uma característica genética de um povo, mas como uma prática social construída ao longo do tempo. O favor vira moeda, a relação pessoal substitui o direito, a promessa substitui a política pública e, em época de eleição, o voto pode virar mercadoria. O problema é que, quando a sociedade passa a enxergar isso como parte natural do jogo, a corrupção deixa de causar indignação e passa a ser administrada como conveniência.
Estudos recentes do cientista político Felipe Nunes ajudam a compreender o Brasil que chega hoje às urnas. Em Brasil no Espelho, o pesquisador mostra uma sociedade marcada por valores como família, religião, esforço individual, medo e busca por proteção. Já em Biografia do Abismo, Nunes mostra como a política brasileira se tornou profundamente marcada por identidades, emoções e polarização. Não é uma tese específica sobre compra de votos, mas ajuda a entender o terreno social onde determinadas narrativas políticas prosperam.
E aqui está a parte mais incômoda: não adianta demonizar apenas o eleitor pobre que aceita uma vantagem imediata. Muitas vezes, ele está diante de uma necessidade concreta, de uma descrença histórica no poder público e da sensação de que, se não receber alguma coisa agora, continuará sem receber nada depois. Isso não torna a compra de votos correta. Mas ajuda a explicar por que ela sobrevive. A corrupção eleitoral também se alimenta da desesperança.
No fundo, compra de votos é uma doença da democracia, mas não é uma doença que nasce apenas dentro dos gabinetes. Ela permeia toda a sociedade. Enquanto houver político disposto a comprar, intermediário disposto a negociar e eleitor disposto a aceitar, o ciclo vicioso continuará.
A verdadeira cura começa quando o voto deixa de ser favor, dívida ou mercadoria e volta a ser aquilo que deveria ser desde sempre: poder de escolha.








