O saber vai longe: idosas buscam autonomia financeira em arte que celebra herança cultural sergipana

Na cidade-mãe de Sergipe, mulheres mostram que, longe de significar estagnação, a maturidade tem se revelado um terreno fértil para o empreendedorismo que promove alento financeiro e salvaguarda o patrimônio histórico.
Fotos: Ronald Almeida

São Cristóvão, Sergipe, Brasil – É no silêncio da noite que Carminha Silva, de 63 anos, celebra um encontro. É o contato banal do ser humano com a natureza que se torna extraordinário quando se dá a devida importância. Nesse momento de quietude, a artesã se dedica à produção de biojoias que ganham vida através de sementes e escamas de peixes.

Já durante o dia, o resultado dessa troca se materializa em colares, pulseiras, adornos e objetos decorativos que ela expõe em um cantinho da Sala de Saberes e Fazeres. Localizada no coração de São Cristóvão, na Grande Aracaju, a sala reúne artesanato, moda, gastronomia, artes plásticas e decoração produzidas por artistas da cidade-mãe de Sergipe.

Como no caso de outras mulheres, a entrada no mercado de design autoral na terceira idade exigiu recomeços. Após o término de um casamento e sem aposentadoria, ela decidiu viajar e, como costuma dizer, “conhecer as matas”. Foi desse olhar atento e imerso na vegetação que nasceu o encantamento pelas sementes.

“Comecei a ver que aquelas sementes ficavam jogadas, e aí eu comecei me interessar para trabalhar com as sementes, [decidi] fazer alguma uma coisa. A natureza tá se acabando, e a gente tem que conservar aquilo que tá se acabando, pra melhoria da gente, são as biojoias que as pessoas ficam apaixonadas”, explica. 



Foto: Ronald Almeida

Carminha integra um contingente que movimenta a economia e tem ajudado a preservar a identidade local: segundo o Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab), havia 5.848 artesãos ativos em Sergipe até o início de março de 2026.

Amparada legalmente, a profissão de artesão é regulamentada pela Lei nº 13.180, de 23 de outubro de 2015, que institui, inclusive, a carteira profissional para a categoria.

Esse universo de criação se cruza com um fenômeno que ganha cada vez mais força no país: a economia prateada. Longe de significar estagnação, a maturidade tem se revelado um terreno para o empreendedorismo, seja pela necessidade financeira latente ou a demonstração de que o saber acumulado pode se transformar em emancipação.

Foto: Ronald Almeida

O movimento também é respaldado por números. Um estudo da Unidade de Estratégia e Transformação do Sebrae Nacional, com base em dados da PNAD Contínua do IBGE, traçou o panorama do empreendedorismo sênior no Brasil entre 2012 e 2024. Os dados revelam que o país contava com 4,3 milhões de empreendedores com mais de 60 anos, o que representa um um crescimento de 53% em relação a 2012.

Sergipe acompanhou de perto essa expansão. No final de 2024, o estado registrava 39.890 empreendedores na faixa dos 60 anos ou mais, o que equivalia a 13,8% de um ecossistema estadual composto por pouco mais de 290 mil donos de negócios. Entre 2012 e 2024, o crescimento desse público sênior em solo sergipano foi de 49%. 

É dentro desse panorama que para mulheres como Carminha, que encontram na natureza o insumo e na própria história o mapa para o futuro, o empreendedorismo é a prova viva de que a sabedoria não se aposenta, mas se renova e celebra as próprias raízes. 

Salvaguarda do patrimônio e autonomia

O processo de criação de Carminha começa no caminhar pelas ruas de São Cristóvão, onde escolheu viver há três décadas após deixar sua terra natal em Alagoas. O olhar treinado enxerga matéria-prima por onde passa.

A partir dos elementos colhidos diretamente do meio ambiente, o trabalho manual da artesã ganha forma por meio de muita entrega e reflexões que respeitam a vocação original de cada insumo.

As sementes de açaí, que compõem parte de sua produção, vêm do sítio de um produtor local. Já outras espécies, como o “Chapéu-de-napoleão”, ela colhe de árvores em praças públicas e estuda a mística por conta própria. Segundo a artesã, o aprendizado veio da observação, do erro e de uma forte conexão espiritual. 

Fotos: Ronald Almeida

“Eu fui aprendendo, eu aprendi sozinha, eu e Deus ensinando, aí eu fui furando a semente, fui fazendo e me aperfeiçoando, não fiz curso. Para furar uma semente do açaí, eu esquentava uma agulha no fogo. Quando ela tava bem vermelha, eu furava”, lembra.

Para Carminha, a tarefa a faz sentir como uma “guardiã sem diploma” da história de São Cristóvão, mas apesar da satisfação de entrega a um processo 100% manual, relata o desafio da valoração comercial de uma história que tenta preservar.

Foi em meio a essa adversidade que percebeu que o cliente buscava propósitos em cada objeto, e transformou o ato de vender em contação de histórias. Com essa estratégia, ela mostra aos compradores que cada peça desenvolvida carrega uma trajetória própria, funcionando como um verdadeiro selo de legitimidade.

Ao apresentar as peças com o Chapéu-de-napoleão, ela explica ao visitante que aquela “é a semente da transformação, transforma o negativo em positivo”.

“Quando eu faço a explicação da história, as pessoas não deixam de levar”, completa.

A satisfação em agregar narrativas à produção a consolidou como empreendedora na terceira idade. Por meio das sementes, encontrou uma nova vocação que garante sua autonomia financeira.

“O que me cativou foram as sementes. Não sou aposentada, aí já me ajuda muito no orçamento de casa trabalhar com as biojoias, moro com meu filho”, conta a artesã.

Ela conta ainda que o manuseio das sementes se transformou em uma ferramenta de apoio psicológico.

“Perdi um irmão que estava acamado, estava na minha casa e eu cuidava, eu tratava e eu fazia tudo. Isso [as sementes] mudou a minha cabeça, eu não fiquei com problema. Depois que eu me separei, não fiquei com problema, e me ajudou muito mentalmente”, afirma.

Para ela, ocupar esse espaço e carregar formalmente o título de artesã traz senso de identidade e orgulho.

“Ser artesã eu acho que é uma coisa única, é uma coisa rica. Eu acho o artesão diferenciado. Eu mesmo me acho diferenciada aqui nessa cidade”, celebra. 

Para além de um reflexo da busca por renda e envelhecimento ativo, a trajetória de Carminha também dialoga com a realidade de envelhecimento da população e a ampliação da participação das pessoas idosas em atividades produtivas. 

Segundo as Projeções da População baseadas no Censo Demográfico de 2022, do IBGE, o índice de envelhecimento em Sergipe passou de 22,6, em 2000, para 62,5, com projeção de alcançar 343,7 em 2070. 

Para o Prof. Dr. Fábio Rodrigues de Moura, coordenador de Ciências Econômicas da UFS, isso implica na necessidade de refletir sobre novas formas de permanência na vida produtiva. 

“Temos que parar de pensar que é uma camada da população que não quer mais contribuir, que está parada, apenas esperando ser assistida por alguma política de transferência de renda, aposentadoria ou de saúde. Conforme os anos vão passando, vemos o contrário: vem aumentando a entrada desses indivíduos no mercado de trabalho, não só como trabalhadores, mas principalmente como empreendedores”, aponta. 

Foto: Vitor Samuel

Ainda segundo o economista, as projeções indicam um intervalo cada vez maior entre a aposentadoria e a expectativa de vida.

“O que fazer quando você se aposentar, sabendo que, se estiver com a saúde em dia, existem ainda mais 25 ou 30 anos pela frente? É uma perspectiva muito grande de futuro, e é importante pensar em meios de continuar na ativa”, afirma o professor.

Figuras da identidade


A validação de negócios como o de Carminha como parte fundamental para movimentar a economia e a cultura local se consolidou através do reconhecimento institucional. 

Para Márcio Ramos, Diretor Municipal de Turismo de São Cristóvão, o fortalecimento desse ecossistema passa pela conscientização de quem produz sobre o próprio valor, raízes e um resgate da identidade local em São Cristóvão. 

Ele defende que as criações manuais do estado expressam de forma autêntica o cotidiano da população, traduzindo o olhar sensível e a habilidade única de cada criador. A ideia é traduzir histórias de vida em obras palpáveis, fazendo com que a memória de cada artesão ganhe forma física.

“A gente vem trabalhando para que elas reproduzam nas suas peças esses aspectos culturais identitários que elas se sentem pertencidas e representadas. Como é que eu dou forma a isso? Como é que eu reproduzo isso e transformo isso e adapto isso ao meu artesanato?”, explica.

Foto: Ronald Almeida

Dentro dessa engrenagem, o espaço de comercialização assume um papel central na preservação da memória comunitária 

“A Sala de Saberes, por exemplo, é um espaço mesmo de valorização desse artesão 60+, com uma produção que reflete muito toda essa vivência de cada uma delas dentro da cidade. A gente trabalha essa formação de um pensamento e comportamento empreendedor, associada a oficinas de aprimoramento técnico ”, acrescenta.

Essa costura que une a economia prateada à salvaguarda do patrimônio imaterial também é construída por mais rostos. 

Maria Lourdes, de 69 anos, utiliza os tecidos coloridos e enchimento para materializar elementos que definem a identidade cultural do estado. Nascida e criada em São Cristóvão, ela encontrou no artesanato de bonecas temáticas uma forma de fixar as memórias sobre danças folclóricas locais. Sua jornada começou há cerca de 30 anos, transformando a rotina de dona de casa. 

“Eu fui convidada para participar de uma oficina de bonecas aqui na sala da cultura popular, para fazer bonecas. Só que eu estava em casa, sou dona de casa, tinha um grupo de bordado, mas disse: ‘Eu vou’. Fui convidada, fui e amei”, recorda.

Foto: Ronald Almeida

A confecção das peças presta homenagem direta a manifestações tradicionais como os Parafusos, a Taieira e o Reisado. Para Maria Lourdes, o convívio diário com as colegas permitiu a expansão de suas técnicas e o fortalecimento de laços afetivos que barram o isolamento social na terceira idade.

“Eu já tenho aqui as minhas colegas, meu espaço e tenho o dinheiro, que vai entrando aqui pra gente ir comprando as nossas coisas. Tudo que é feito aqui tem uma história, então, a gente vai aprendendo até com as colegas”, diz ela. 

A rede de saber-fazer compartilhado também atua, para ela, diretamente contra o isolamento social na terceira idade.

“A gente vai aprendendo, fazendo e eu fico imaginando hoje, que os meus filhos cresceram, cada um tem sua vida, se eu não tivesse fazendo bonecas, se eu não tivesse nesse espaço, eu estaria em casa ficando depressiva”, afirma.

Fotos: Ronald Almeida

Essa busca por bem-estar mental por meio do estímulo à criatividade também uma das motivações apontadas pelo professor Fábio Rodrigues de Moura para o avanço da economia prateada. 

“Estimular a capacidade cognitiva é muito importante para a saúde mental e, muitas vezes, uma parte dessa camada da população busca certas oportunidades de empreendedorismo que justamente levem a esse instruir”, aponta.

Outra dimensão seria justamente a necessidade de complementação de renda após a aposentadoria ou à chegada à terceira idade.  

“Uma camada tem essa intenção de ajudar na renda da família e, na verdade, isso sempre aconteceu. A questão é que hoje em dia, nós estamos observando mais oportunidades dessa parcela da população conseguir voltar ao mercado de trabalho com a digitalização e os acessos a canais de empreendedorismo muito mais facilitados”, destaca.


Quando o vigor de transformar trajetórias pessoais em preservação histórica se expande, ele deixa de adornar estantes e passa a vestir os próprios corpos. É com essa força criativa que Helena Freitas, de 76 anos, une manifesto cultural à moda artística. 

Nascida em 1950, ela traz na herança de sua família indígena a essência de sua arte. “Costureira, modista, estilista e artista”, recusa definições únicas para um ofício que começou a se desenhar ainda na infância.

Foto: Ronald Almeida

“Eu comecei quando eu tinha ainda 10 anos de idade, pois minha mãe era artesã. [Naquela época] eu nunca ouvi falar em empreendedorismo, mas eu já fazia, eu já empreendia porque eu fazia bonecas, eu vendia bonecas, eu vendia vestido de bonecas para as amiguinhas. Então eu já empreendo desde pequena”, afirma Helena. 

O despertar para as infinitas possibilidades do vestuário nasceu ao observar a mãe criar soluções criativas para diferenciar as roupas dela e dos irmãos. 

“Ela fazia uns modelitos diferentes, que era para a gente não se enganar. E ali eu fui me despertando, que roupa se podia fazer de várias formas, como quisesse”, completa.

Embora dominasse a costura desde a juventude, a transição para o design autoral só aconteceu na maturidade, após ter contato com ações de economia criativa.

“No início foi uma terapia, hoje é um profissionalismo. Com 16 anos, eu tinha feito um curso de corte e costura, mas eu não me adaptei a essa vida. Quando eu já tinha os meus 66 anos, eu me despertei em ir mais além do que eu fazia na máquina, eu queria fazer na mão também. Comecei a fazer roupas criativas, rasgava minhas primeiras roupas e customizava”, conta.

O talento chamou a atenção da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que abriu as portas para a realização de sua primeira coleção e de desfiles que projetaram sua marca, a Helenarts. 

“Fiz quase 100 roupas. E foi essa a primeira coleção, não todas desfilaram, mas acho que umas 40 ou 50. Eu desmancho uma e faço diferente, eu tenho essa facilidade”, lembra. 

Para além das passarelas, o ofício também se tornou um ativo de geração de renda que garante sua autonomia e auxilia na composição do orçamento familiar. 

Fotos: Ronald Almeida

“Hoje tenho as minhas roupas. Eu bordo camisas, bordo vestido. Você me conta a sua história, eu vou bordar a sua história ali no seu vestido. Esse meu trabalho é para minha sobrevivência, minhas excursões, para ajudar minhas filhas”, diz ela.

Segundo Helena, a moda a ajuda a exportar a identidade do município para o mundo.

“Através desse meu trabalho, eu mostro ao mundo que tem São Cristóvão, porque muita gente não sabe, aí eu tenho Instagram e o mundo… passou quase 4 meses a minha exposição no Museu de Sergipe, e o mundo quase inteiro veio aqui”, afirma. 

A engrenagem produtiva liderada por essas mulheres mostra que a economia prateada, além de ser uma alternativa de renda, é um pilar de resistência cultural. Em um estado onde a longevidade cresce a passos largos, o tempo deixa de ser um limitador para se tornar a matéria-prima mais valiosa de uma economia que se recusa a esquecer quem é. Para entender os caminhos do futuro, o segredo pode ser olhar para as mãos de quem guarda o passado.

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