Artigo – O paradoxo do Desenrola: o Estado bombeiro do incêndio que ele mesmo deixou alastrar

Foto: Inteligência Artificial

O Novo Desenrola Brasil promete socorrer milhões. Mas por que precisamos, a cada dois anos, de um programa nacional para resgatar pessoas de um buraco em que elas nunca deveriam ter caído? O Estado prefere ser herói no fim da tragédia a ser educador no começo dela — e a porta giratória continua girando.

Estado bombeiro aparece no fim da tragédia

15 milhões
Beneficiados pelo Desenrola desde 2023.
R$ 53 bilhões em dívidas renegociadas, com perdão médio de 85% sobre o valor original.

Fósforo aceso: ninguém apagou

74,82 milhões
Brasileiros negativados em abril de 2026 — recorde histórico.
Quase metade da população adulta.

Fonte: CNDL/SPC Brasil.

Em maio de 2026, o Governo Federal lançou o Novo Desenrola Brasil. Desde 2023, o programa já beneficiou cerca de 15 milhões de brasileiros e renegociou R$ 53 bilhões em dívidas. Os números são apresentados como vitória social, e em parte são, para a família que respira aliviada ao limpar o nome. Mas, como dirigente lojista, sinto que preciso levantar uma reflexão incômoda: por que precisamos, a cada dois anos, de um programa nacional para resgatar milhões de pessoas de um buraco em que elas nunca deveriam ter caído?

Não escrevo contra quem aderiu. Pelo contrário, quem usou fez bem. Diante de uma dívida que sufoca, qualquer alívio é legítimo. Escrevo contra a lógica de um Estado que prefere ser herói no fim da tragédia a ser educador no começo dela.

O retrato cru de abril de 2026
Os dados mais recentes do Indicador de Inadimplência da CNDL e do SPC Brasil são impossíveis de ignorar. São 74,82 milhões de brasileiros com contas em atraso, recorde consecutivo. Quase metade da população adulta está negativada.

O setor que mais cresceu em atrasos foi justamente o de Água e Luz, com alta de 22,38% em um ano. O presidente da CNDL, José César da Costa, foi cirúrgico ao definir o fenômeno: vivemos o “efeito porta giratória”. O cidadão limpa o nome hoje para se endividar amanhã.

A antítese silenciosa de um programa que promete salvar
Há algo profundamente contraditório quando um país convive com três realidades ao mesmo tempo. Um cartão de crédito que cobra em média 60% ao ano, com modalidades de empréstimo que ultrapassam 300% — taxas que em qualquer país do mundo seriam consideradas usurárias. Um sistema bancário que aprova crédito automaticamente, oferecendo limite no app, antecipação de salário, parcelamento “sem juros” que vira juros, sem perguntar se o cliente tem como pagar. E uma escola que não ensina educação financeira como matéria obrigatória, deixando o cidadão chegar aos 18 anos sem saber o que é juro composto.

Combine os três e o resultado é matemático. Famílias caem numa armadilha que nunca enxergaram. E quando o buraco está fundo demais, vem o Estado — mas não para fechar o buraco nem para ensinar a desviar dele. Vem para tirar a família lá de dentro com fila, aplicativo, perdão médio de 85% sobre o valor original e foto institucional que rende manchete.

A geração que mais sofre é também a mais produtiva
O recorte etário é alarmante. Estamos falando da fatia da população que deveria estar no auge da produtividade, comprando casa, abrindo negócio, criando filhos com tranquilidade, poupando para o futuro. Em vez disso, essa geração entrou no mercado de trabalho sem qualquer formação financeira, foi bombardeada por ofertas de crédito desde os 18 anos, viu o cartão como extensão do salário e descobriu o cheque especial antes do orçamento doméstico.

Não é gente irresponsável. É gente desinformada por omissão estrutural. Pesquisas da CNDL mostram que 47% dos consumidores admitiram já ter feito compras sabendo que o pagamento seria difícil. Quem ensinou essas pessoas a fazer diferente? Ninguém.

O que está sendo ensinado, na prática
Cada edição do Desenrola, do ponto de vista pedagógico, transmite três lições silenciosas e devastadoras.

As três lições silenciosas do Desenrola

  1. Endivide-se: mais cedo ou mais tarde aparece um programa. Quem renegociou em 2023 com generoso abatimento está aprendendo, na prática, que esperar pode valer a pena.
  2. O governo é quem te salva. A relação entre cidadão e Estado se inverte. Em vez de cobrar do poder público condições para prosperar, o brasileiro passa a agradecer por aliviar uma dor que o próprio sistema, por omissão, permitiu existir.
  3. Você não precisa entender de dinheiro. Se sempre haverá um salva-vidas no fim da linha, qual o incentivo para aprender a nadar?

A humilhação travestida de benefício
Há uma cena que se repete e merece atenção. O cidadão na fila, no caixa, no aplicativo, agradecendo pela chance de pagar uma conta que não deveria ter existido nas condições em que existiu. Não é gratidão. É alívio de quem foi solto de uma armadilha por quem ajudou a armá-la.

A política pública que ninguém anuncia em coletiva
Existe um programa muito mais barato, muito mais eficaz e muito menos midiático. Chama-se educação financeira como política de Estado. Não rende foto com ministro nem propaganda em rede nacional. Mas é o que romperia o ciclo da porta giratória.

Imagine uma geração que sai do ensino médio sabendo o que é uma taxa de 14% ao mês no cartão. Que entende juro sobre juro. Que conhece a diferença entre comprar à vista com desconto e parcelar “sem juros”. Que aprendeu a construir uma reserva de emergência e a ler um contrato bancário antes de assinar.

Essa geração não precisaria de Desenrola. Formaria pais que ensinariam os filhos. Em duas décadas, o Brasil teria dívida estruturada — financiamento de casa, de carro, de estudo — em vez de dívida de sobrevivência no rotativo.

Não é contra o programa, é a favor do próximo passo
Quero ser claro, porque a tese é fácil de distorcer. Não defendo o fim do Desenrola. Quem está afogado precisa de bote. Mas o país precisa parar de tratar o bote como solução e começar a tratá-lo pelo que ele é: socorro emergencial dentro de um sistema que precisa ser reformado na origem.

A pergunta correta não é quantos milhões foram beneficiados. É o que estamos fazendo para que, no próximo ciclo, o Brasil precise renegociar metade do que renegocia hoje. Se a resposta for “nada estrutural”, o programa não passa de calmante. E calmante usado em excesso, todo mundo sabe, vicia.

O caminho que precisa ser construído
Defendo três passos para encarar com seriedade.

Frente 1 · Educação financeira obrigatória
No currículo escolar, do fundamental ao médio, com material atualizado, professores capacitados e avaliação real do aprendizado. Não como tema transversal genérico, mas como disciplina com peso, hora-aula e conteúdo prático.

Frente 2 · Regulação firme do crédito predatório
Limites mais rígidos para o rotativo do cartão, transparência total nos contratos, restrição à oferta automatizada para quem acabou de renegociar e proibição de práticas que empurram o consumidor de baixa renda a dívidas matematicamente impagáveis.

Frente 3 · Programas permanentes de orientação
Em parceria com entidades do comércio, sindicatos, escolas, igrejas e prefeituras. Educação financeira não pode ser campanha de governo. Tem que ser política de Estado, com continuidade entre administrações.

Para encerrar
O Brasil não precisa de mais um Desenrola daqui a dois anos. Precisa de uma geração que não dependa dele.

Dignidade não está em ser perdoado por uma conta que sufocou a família por anos. Está em entender o contrato antes de assinar, dizer não ao limite extra do cartão, poupar antes de consumir e transmitir essa cultura aos filhos.

Programas emergenciais salvam vidas no curto prazo. Educação financeira salva gerações.

Enquanto continuarmos celebrando o bombeiro e ignorando o fósforo, o incêndio voltará. E voltará maior, porque a dívida média cresce, os juros não cedem, o crédito predatório se sofistica e a escola segue sem ensinar o que importa.

*Por Elison Bomfim – Presidente da CDL Aracaju

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