O psiquiatra infantil Luís Felipe Sales foi o entrevistado do Jornal da Fan, da rádio Fan FM, nesta segunda-feira, 4. Durante a conversa, o especialista trouxe uma análise técnica sobre o atual cenário de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na sociedade, alertando para a necessidade de rigor clínico e combatendo desinformações que cercam a condição.
O psiquiatra destacou a preocupação com a banalização do chamado “autismo leve” e a importância de uma investigação profunda. “Hoje em dia tem se percebido que o autismo leve acaba abrangendo coisas demais, o que não deveria ser. Temos profissionais mal treinados e um uso excessivo de questionários estruturados que podem levar a diagnósticos errôneos. Para ser autismo, é preciso que exista um prejuízo real na vida daquela pessoa”, defendeu, reforçando que a avaliação deve ser feita por profissionais capacitados.
Sobre o aumento expressivo de diagnósticos de nível 1, Luís Felipe explicou que o reconhecimento de sinais em adultos que passaram a vida sem suporte contribuiu para esses números, mas reforçou que a análise deve ser retrospectiva. “Quando você vai a uma consulta, está tirando uma foto da sua vida para o médico. Mas, para um diagnóstico correto de autismo, tem que ser um filme: uma condição do neurodesenvolvimento que vem desde bebê até os dias atuais”, explicou. Ele defendeu ainda o uso de exames precisos, como rastreamento ocular e testes genéticos, para garantir segurança ao laudo.
O especialista também aproveitou o espaço para desmistificar polêmicas recentes, como a suposta relação entre o uso de paracetamol na gravidez e o autismo. Segundo ele, não há comprovação científica de causalidade. “Os estudos não encontraram essa associação de causa. Hoje, o paracetamol é uma das medicações mais seguras para dor e febre em gestantes. Existe uma associação estatística porque mães que sentem dor tomam o remédio, mas isso não significa que ele cause o transtorno”, argumentou.
Por fim, o psiquiatra fez um alerta sobre o “mercado obscuro” de tratamentos sem comprovação científica, que muitas vezes visam apenas o lucro e oneram as famílias sem trazer benefícios reais. “Infelizmente é um mercado que está meio obscuro, mas que espero que nos próximos anos as pessoas estejam mais conscientizadas para conseguir uma saúde de qualidade para toda essa população. É preciso ter cuidado com promessas milagrosas e focar no que realmente tem evidência”, conclui.








