Delegada Danielle afirma que o feminicídio é crime cultural e critica “combate restrito às mulheres”

Durante entrevista concedida ao Jornal da Fan, da rádio Fan FM, desta quinta-feira, 5, a delegada Danielle Garcia falou sobre o crime de feminicídio em Sergipe e no Brasil, explicando que o autor desse crime tem um perfil ‘covarde’. Na entrevista, ela defendeu a medida protetiva e afirmou que o combate a crimes de gênero deve ser feito em conjunto.

“O assunto é muito mais sério do que se imagina. Enquanto nós estávamos trabalhando apenas setorizadamente (a Defensoria Pública faz o trabalho dela, o Ministério Público faz o trabalho dele, a Polícia Civil faz o trabalho dela, o governo faz o trabalho dele) sem comunicação, sem trazer os homens para a responsabilidade, a gente tá perdendo esse jogo a muito tempo”, pontuou.

Ao responder sobre medida protetiva e o fato de que muitas pessoas alegam que ‘não funciona’ e que acaba ocasionando a morte, ela rebateu: “As mulheres que morrem geralmente não têm boletim de ocorrência. Geralmente, porque nós estamos lidando com um autor de crime covarde. Esse autor de crime não é aquele criminoso que tem que enfrentar outros criminosos na rua, enfrentar um tiroteio, não. Ele vai matar a mulher, muitas vezes dentro de casa, muitas vezes dormindo, a mulher não tem como se defender desse crime”.

E completou: “Tá na hora de a gente, primeiro, pensar onde estamos errando, e eu acho um grande erro é exatamente termos segregado esse combate e deixado apenas mulheres no enfrentamento. Apenas mulheres pensando sobre isso. E a gente precisa educar nossos meninos, nossos homens”.

Danielle defendeu que todo crime precisa ser punido, mas explicou que crimes de gênero funcionam de maneira diferente: “Quanto mais desenvolvido o país, a cidade, o estado, menor o número de crimes violentos. Mas essa matemática não serve para crimes de gênero, porque esse crime é um crime cultural e estrutural. Por isso que a gente pode ter a polícia mais preparada do mundo, o Judiciário mais pronto do mundo, a gente pode ter a sociedade mais rica do mundo, mas se não mudarmos a cultura machista que existe ainda na nossa sociedade, infelizmente as mulheres não vão parar de morrer”.

A Delegada levantou a bandeira da luta feminina e falou sobre os ataques que sofre nas redes sociais. “A gente não pede para nascer, a gente não escolhe o sexo para o qual deseja nascer. E a gente nasce mulher e, quando nasce, a gente tem que lutar por essa causa a vida inteira. E quem tá falando é uma mulher muito privilegiada, uma delegada de polícia, autoridade, ainda assim […] veja as ofensas no meu Instagram, o Instagram é público, não privado. Mas no público, o tanto de ofensas: “vagabunda”, “picareta”, outros nomes horríveis que eu não posso nem citar aqui. […] Esses xingamentos são destinados sempre que eu estou nas minhas redes sociais discutindo questões de gênero”, finaliza.

“O número de descumprimentos de medidas protetivas aumentou drasticamente. Em 2024 tivemos 157 descumprimentos de medida protetiva. Em 2025 já tivemos 1.123 descumprimentos”, e defendeu maior fiscalização e rigor da lei para que esses números sejam combatidos. E completou: “A mulher que morre, morre apenas por ser mulher, é o problema que a gente tem que desconstruir essa cultura machista, a gente tem que estar nas escolas e falar sobre violência, não é sobre a escola falar de gênero, não é isso, é falar sobre violência, sobre cultura de paz”.

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