Era uma noite diferente aquela, pelo menos para mim, pois meu coração ardia e pulsava sufocando-me em meus pensamentos. Sentado à mesa, caprichosamente posta, solitário, curtindo apenas a companhia do inseparável jornal diário e de um pequeno rádio que pertencera à minha avó, coitado, em ondas curtas com seu chiado envolvente e som ininteligível, navegava absorto em busca de sentido para tantas coisas que me rodeavam. Entre o petiscar de variadas guloseimas e olhadelas nas conflitantes notícias exaradas naquele papel, pausa para reflexão, o penoso e inútil trabalho de se compreender o mundo. Fazia frio. Não me cabendo em mim mesmo, agoniado, agasalhei-me e saí. Uma leve garoa, quase um orvalho, envolvia a noite, prateando as calçadas ao reflexo das muitas luzes que pendiam das lojas e vitrines daquele quarteirão. Era Natal. As ruas do centro comercial ainda se encontravam em alvoroço, as famílias celebravam suas festas, as igrejas entoavam cânticos ao menino Jesus, os Shoppings, atitarrados de gente, ofertavam seus produtos, e os mais atrasados, ávidos para se desfazerem do dinheiro, corriam para comprar o presente do amigo ou parente e ingredientes para a indispensável ceia. Parei, recostei-me sob o toldo de uma loja fechada e observei ao redor o zanzar faminto dos investidores em passos apressados e olhar indiferente; edificadores de altares a Mamom. Parecia que toda a fartura e beatitude desejadas em um ano surgiam como mágica em um único dia, em um só momento, em um brindar litúrgico de paz e prosperidade. Será mesmo que é assim? Como que atraídos por direção divina, os meus olhos pararam em uma criança, a poucos metros, maltrapilha, encolhidinha em frente a uma vitrine de brinquedos e doces. Boca semiaberta e olhar distante, parecia sonhar com uma infância real e feliz, um mundo utópico e cada vez mais distante para milhares de seus iguais. Não resisti. Aproximei-me do garoto, ajoelhei-me ao seu lado e perguntei o seu nome, onde morava, sobre os seus pais, e segurei o nó da garganta. Entrei na loja, comprei o brinquedo simples e barato que ele desejava, e um saco de biscoitos, o cobri com a minha já gasta jaqueta, afaguei rapidamente os seus cabelos desgrenhados e lhe desejei boa sorte. Sorri e saí. Poucos passos adiante, ouvi uma vozinha me chamar: “moço!” Voltei-me e olhei para o garoto cujos olhinhos estavam marejados. Pezinhos juntos e descalços, brinquedinho entre as mãos, perguntou-me: “Você é Jesus?”.
Itamar Bezerra.








