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Empreen-DELAS: mulheres de Carmópolis encontram novos caminhos para a vida na produção artesanal

João Figueiredo

01/06/2024


A realidade de muitas mulheres, principalmente nos interiores nordestinos, por muitas vezes é o acúmulo de funções entre a vida doméstica e empregos. A dupla jornada é apenas uma consequência da herança de uma sociedade patriarcal, que insiste, em muitos casos, em permanecer onde as discussões sociais demoram a chegar.

Se a dupla jornada é ruim, imagina para muitas mulheres em que a vida, durante anos, resume-se aos cuidados domésticos e a submissão a um marido que trabalha e que representa o sustento da família. Estas, na maioria das vezes, têm momentos subtraídos e a vida controlada.

Mas, e quando mulheres de garra e dispostas a mudar sua realidade se unem para mostrar que existem caminhos possíveis para uma vida de liberdade, independente, e fortalecidas entre si?  Foi assim que um pequeno grupo de trabalho formado por mulheres fortes e determinadas deu origem a uma associação que produz alimentos e objetos artesanais, já conhecidos em Sergipe e também em outros estados.

O Portal Fan F1 foi até a cidade de Carmópolis, município que fica a cerca de 48 quilômetros de Aracaju, para conhecer integrantes da Asmurac – Associação de Mulheres da Rede Artesanal de Carmópolis, um projeto que representa união, esperança, progresso e liberdade.

                    A produção artesanal variada é uma das marcas desta associação / Foto: João Figueiredo

Uma rede de mulheres para mulheres 

A Associação de Mulheres da Rede Artesanal de Carmópolis foi registrada oficialmente em 2021. Mas, ainda em 2018, um grupo de trabalho composto formado por poucas integrantes, todas naturais da cidade, foi o embrião do que se tornaria a associação anos mais tarde.

Idealizado, nomeado, e liderado somente por mulheres, o grupo ainda em formação passou a se expandir. Convites entre família ou até mesmo entre amigas fizeram com que a Asmurac alcançasse o número de 16 colaboradoras, que juntas, são conhecidas pelas produções artesanais e alimentícias no município.

Divididas a partir da área que mais se identificam, parte do grupo é responsável pela fabricação do licor, da famosa geleia de tomate com pimenta, da geleia de manga com maracujá, e do doce casadinho.

               Esta produção alimentícia leva o nome de Sabores de Carmópolis  / Fotos: João Figueiredo 

No ano passado, a associação ficou entre as dez melhores colocadas no programa Expo Favela Sergipe. Estar entre as melhores na seleção estadual permitiu que as produções carmopolitanas chegassem em São Paulo, no Expo Favela Nacional.

Para cada integrante, uma transformação

Coincidentemente, no dia de conhecer a história da Associação de Mulheres da Rede Artesanal de Carmópolis estavam disponíveis para contar suas histórias as integrantes pioneiras deste projeto: dona Eugênia Lima, dona Maria Francisca e Joelma Siqueira. E é neste momento em que se percebe o quanto esta união laboral, mas também com laços de amizades, foi capaz de mudar vidas.

O local da conversa com as integrantes foi a sede provisória da Asmurac, em Carmópolis. Uma casa simples, no 1º andar de um prédio, com poucas mobílias e utilizado somente para as devidas produções.

Na sala, somente cadeiras e mesas de plástico, onde estão expostos parte dos produtos. Na cozinha, fogão e geladeira, e uma mesa de alumínio, onde ficam os materiais usados na produção. Por fim, dois quartos com estantes que armazenam os materiais relacionados à produção artesanal.

Enquanto ainda não tem a sede fixa, as integrantes fazem as produções no espaço provisório / Fotos: João Figueiredo

Breve apresentação, um diálogo rápido, e logo elas ficam à vontade para transmitir o sentimento e as percepções sobre a associação. As três falam com muita propriedade sobre a relação delas com a Asmurac, desde a formação do grupo até hoje. O que chama mais atenção é que elas, anteriormente, não vislumbravam com as produções que hoje fazem. Foram os caminhos de vida que se abriram, trazendo uma alternativa de renda e também esperança para um outro modo de viver.

Após sofrer um acidente que a deixou até de muletas, Joelma Siqueira, de 47 anos, passava por momentos de aflição. Foi aí que veio o convite da irmã para fazer parte da Asmurac, espaço onde ela encontrou os elementos que precisava para encontrar um novo caminho.

“Na época eu estava sem querer fazer nada, um pouco depressiva por conta do meu acidente, e minha irmã me apresentou o projeto. E eu fui gostando, principalmente da parte de culinária, que eu gosto, me identifico. E estou até hoje, de 2018, até hoje”, comenta.

Os famosos casadinhos, nas mãos de Joelma, também são produzidos por ela e pelas colegas da área de  culinária / Foto: João Figueiredo

Após seis anos, Joelma é mais atuante na culinária, área na qual, inclusive, participa da produção do que chama de “carro-chefe” da Asmurac, que é a Geleia de Tomate com Pimenta.

Segundo Joelma, para uma produção média de 6 potes, são utilizados, no mínimo, cerca de 50 tomates.  Em média, o pote de Geleia de Tomate com Pimenta, vendido nas exposições, bancas, ou até mesmo pela internet, chega próximo aos R$ 40. O problema, de acordo com ela, é que o produto muitas vezes o valor é questionado.

“Quando a gente fez a pesquisa lá no shopping, quando a gente ‘tava’ um período lá, foi botado, no mínimo, que essa geleia de tomate com pimenta e a da mangaba o valor era R$ 40. A gente antigamente vendia de 18, depois passou para 20, agora está 25, mas aí, quanto tempo atrás, né? E aí o pessoal ainda acha caro, complicado, mas é isso aí”, lamenta.

Mesmo apontando as dificuldades, Joelma se expressa de forma alegre e sorridente ao falar da Asmurac, sem hesitar em dizer que a associação transformou sua vida.

“Sou outra mulher, totalmente. Em todos os sentidos – mãe, filha, mulher, profissional, vizinha, amiga. Porque o projeto me fez ver de outra forma a vida. Eu estava no período de depressão, não queria saber de nada. E aí foi quando minha irmã primeiramente acreditou e falou ‘você vai’, e ‘tô’ aí. Mudou totalmente. Outros ares, outros pensamentos, outros saberes. Me sinto bem realizada”, reflete.

A veterana das componentes da associação compartilha do mesmo pensamento. No auge dos seus 60 anos, mas com muita vitalidade, Dona Maria Francisca dos Santos é uma das mais ativas na produção do artesanato. Chega até a dizer que por conta do movimento repetitivo teve problemas de saúde. Por vezes, até se queixa de dores e do braço travado. Mesmo assim, continua bordando sem pestanejar.

          Veterana, Dona Francisca é uma das principais referências da produção artesanal da associação / Foto:  João Figueiredo

Com agulhas e fios de malha, uma das veteranas que deu origem à associação até certo momento da vida não trabalhava com bordado. Todavia, a necessidade de um trabalho para exercer o compromisso materno com filho a levou para o caminho de artesã, o qual transformou Dona Francisca em uma especialista na área.

“Eu não podia trabalhar porque tinha que cuidar de criança pequena, aí eu achei um meio de fazer o artesanato, que cuidava dele e fazia. E daí para cá eu fui me aperfeiçoando, fazendo, fazendo…”

Com mais de duas décadas trabalhando com artesanato, Dona Francisco produz de tudo: faz panos bordados, bolsas e até mesmo bonecos, mais conhecidos como bonecos de fuxico. Antes da associação, ela se tornou uma apaixonada pela área e referência para outras mulheres que sonharam em seguir com a mesma atividade.

“Antes de entrar na associação eu já fazia parte de outra associação. Eu sou uma das bem antigas que briguei e insisti pelo artesanato. Uma vez eu fui para um seminário em Aracaju e disseram que Carmópolis não tinha artesanato, aí eu disse “tem e eu vou provar”, aí comecei levar as meninas, através das ‘mulherada’, que eu faço parte da Marcha Mundial das Mulheres. Então hoje a gente já é mais conhecida”, comemora.

Além de produzir, Dona Francisca ministra oficinas presenciais de artesanato em Aracaju, e de forma online para o exterior  / João Figueiredo 

Como membra da Asmurac, a veterana decidiu transmitir seu conhecimento para outras mulheres, através de oficinas criativas ministradas em Aracaju, seja para o público externo como também para as outras integrantes da associação de Carmópolis. Estas, aliás, têm tomado gosto pelo artesanato, principalmente na produção das bolsas.

‘Quando eu comecei a fazer eu ia desistir, porque dá muito trabalho. Mas aí quando eu comecei … e todas as que estão fazendo, 16 ou 18 mulheres, a gente não quer ir embora. A gente quer continuar, porque quer ver a bolsa pronta”.

Tanto os produtos alimentícios, dos quais Joelma participa, tanto com o artesanato, liderado por Dona Francisca, são vendidos para gerar recursos para as integrantes e também para serem investidos no setor de produção. As vendas acontecem por meio dos eventos das quais a Asmurac participa, como também por meio da internet, no e-commerce.  Esta segunda opção é gerenciada por dona Eugênia Lima, de 47 anos, a tesoureira da associação.

                   Dona Joelma já fez parte da produção artesanal, mas atualmente faz o controle de todas as vendas / Foto: João Figueiredo

Assim como as amigas, dona Eugênia estava no grupo de trabalho inicial que depois viria a se tornar a Asmurc. Foi a partir daí que ela deixou de ser apenas uma dona de casa para ter papel participativo como uma das integrantes mais importantes deste empreendimento conjunto das mulheres de Carmópolis.

Quando eu conheci o artesanato foi através de Francisca. Eu disse a ela que não queria, fiquei uma semana enrolando, mas quando fui me apaixonei pela arte. Depois, com o tempo, surgiu o projeto aqui em Carmópolis”.

Inicialmente, após alguns cursos, Dona Eugênia foi convidada a dar algumas aulas de macramê e desde então não saiu mais da associação. “Eu dei aula de macramê, as meninas gostaram e estou no projeto até hoje. Não como oficineira, estou participando do projeto, e hoje estou como consultora do e-commerce”, explica.

Se por um lado há união, do outro a falta de reconhecimento

Apesar de já estarem mais conhecidas Sergipe a fora, as integrantes não deixaram de citar que ainda falta apoio e reconhecimento para as produções, principalmente dentro do próprio município de Carmópolis.

“Eu vejo que aqui em Carmópolis a gente precisava mais de apoio, porque as mulheres aqui não têm apoio dos governantes, infelizmente. Porque muita gente tem que buscar fora para ser reconhecido, e aqui no nosso município a gente não é reconhecido, a gente não é valorizado”, lamenta Dona Eugênia.

“Ser bem sincera, aqui em Carmópolis…era para ser mais valorizado, porque é da terra, mulheres da terra”, defende Joelma.

Mesmo assim, a força da fala das integrantes sobre a Asmurac mostra o quanto a associação foi fundamental, seja como uma atividade laboral, mas também como um crescimento de vida. A união do grupo e as possibilidades de expansão só as motivam a estar sempre em busca de melhores condições.

“O meu pensamento é para unir e crescer. Não ficar só no foco Carmópolis. Não só depender de um marido, não só depender de uma prefeitura, não. Isso aqui é para você aprender, para você crescer, para você expandir, ver com outros olhares, como eu estou vendo também”, pensa Joelma.

O ‘boneco de fuxico’, assim nomeado por Dona Francisca, é umas das principais atrações produzidas pela associação / Foto: João Figueiredo

ASMURAC – um braço de uma rede extensa

A Associação de Mulheres da Rede Artesanal de Carmópolis está integrada à Rede Solidária de Mulheres, uma iniciativa da Associação das Catadoras de Mangaba de Indiaroba (Ascamai), em parceria com a Petrobras.

Criada em 2018, o projeto estimula a participação e oferece apoio a mulheres extrativistas e artesãos que preservam o conhecimento ancestral de suas práticas manuais e o meio ambiente coletivamente. Atualmente, além de Carmópolis, o projeto está inserido em mais 10 municípios e 17 áreas de atuação com organizações de mulheres.

Em prol do desenvolvimento das mulheres no trabalho, a Rede Solidária de Mulheres oferece cursos técnicos para que as mulheres vinculadas à rede façam capacitação e aprimoramento das técnicas de produção artesanal. No caso da Asmurac, por exemplo, as integrantes sempre tem o acompanhamento de uma engenheira de alimentos, que auxilia no processo alimentício.   Além disso, a Rede Solidária é a responsável por realizar cursos complementares, intercâmbios, encontros e seminários, webinários e lives com temas relevantes para as mulheres e a sociedade. O objetivo, bem marcado, é fortalecê-las nas suas áreas e permitir que as mesmas possam desenvolver seu trabalho.

São projetos como este, seguido pelo grupo de mulheres de Carmópolis que fazem a Asmurac, que tem a extrema capacidade de fornecer uma luz no fundo do túnel escuro e longo. A certeza que fica, ouvindo as histórias ­­carmopolitanas, é de que o conhecimento adquirido por estas integrantes as emancipa e a união entre elas as fortalece. Hoje, sem dúvida, existe um caminho mais iluminado e alegre, os quais estas mulheres vão continuar seguindo.

 

 

 

 

 

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