Por Michel de Oliveira
Jornalista e doutor em Comunicação e Informação
O colorido das fitas, as cantorias festivas e a cadência da dança do Reisado Baile Estrela, de Moita Bonita, mostraram que a Vila do Natal 2025 teria um sentido especial. Na noite de 5 de dezembro, na Praça de Eventos da Orla da Atalaia, sergipanos e turistas se voltaram para o cortejo como quem reencontra uma memória familiar. Não era apenas uma apresentação folclórica – o que já seria de grande destaque -, mas o resgate do modo de celebrar o ciclo natalino que fala diretamente à identidade sergipana.
A presença do Reisado desde o primeiro dia da programação não foi um gesto decorativo, representa mais um passo concreto na valorização da cultura popular dentro das vilas temáticas organizadas pelo Governo do Estado. Mesmo sendo uma tradição própria do período que vai de dezembro a janeiro, marcada pela devoção aos Santos Reis, pelo compasso da zabumba e dos apitos, o Reisado passou boa parte das últimas décadas sobrevivendo em palcos e festivais fora do ciclo que lhe dá sentido. Esses espaços mantiveram a prática viva, mas a deslocaram de seu tempo simbólico.
Ao ocupar a Vila do Natal, fazendo parte da programação que vai até o dia 28 de dezembro, o Reisado retorna ao calendário que o formou, acertando o compasso entre tradição e política cultural. Grupos de todo o estado que carregam personagens como o Mateus, a Dona do Baile e o Boi Janeiro voltam a se apresentar no período em que a narrativa popular faz sentido, diante de um público amplo e disposto a apreciar. É uma oportunidade para que as cantigas e os movimentos coreografados dos brincantes recuperem o seu contexto original, no ciclo natalino.
É importante destacar que esse processo de valorização da tradição sergipana não acontece apenas com o Reisado, é parte de um esforço maior da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap) para dar visibilidade às expressões culturais do estado. Na Vila do Forró, por exemplo, apresentações de grupos folclóricos mostraram que o calendário oficial pode e deve abrir espaço para manifestações que durante anos circularam à margem dos grandes eventos.
As vilas temáticas e os demais eventos organizados pelo Governo do Estado também têm ampliado o espaço para expressões que, durante muito tempo, ficaram em segundo plano nas grandes programações culturais. Quadrilhas juninas, grupos de teatro e trios pé de serra passaram a ocupar a programação, com estrutura adequada e público garantido.
Colocar artistas sergipanos, mestras e mestres da cultura popular como eixo principal das programações cria uma cadeia de fortalecimento que vai da economia criativa ao reconhecimento simbólico, passando pela formação de novas plateias, além do incentivo para manutenção dos grupos, remunerados pelas apresentações.
Em Sergipe, onde o folclore ocupa um papel central na cultura, essa escolha tem um peso particular. Grupos de diversos municípios mantêm vivas tradições que combinam influências portuguesas, africanas e ameríndias. Valorizar esse patrimônio não é apenas promover eventos com identidade regional: é construir política pública. Uma iniciativa que compreende que manifestações como o Reisado, o Cacumbi, as Taieiras, os Parafusos, as Cheganças e os cortejos populares formam um repertório que não pode depender somente da boa vontade de projetos pontuais.
A inclusão do Reisado na Vila do Natal sinaliza a concretização de uma mudança de postura da gestão cultural de Sergipe: coloca a cultura popular no centro do planejamento, reconhece a força dos grupos tradicionais e amplia suas possibilidades de circulação. Não se trata de uma homenagem, é uma forma de restituição: garantir que essas expressões existam no seu próprio tempo e contexto, com estrutura e visibilidade.
Quando uma tradição encontra o espaço adequado para se apresentar, ela se renova. Quando o público reconhece essa presença, ele se aproxima da própria história. E quando a política cultural assume esse compromisso, ela contribui para que a memória coletiva não se perca. É assim que o Reisado, novamente em dezembro, volta a ocupar o lugar que sempre foi seu e o Natal encontra, de fato, um sentido de renascimento, tradição e familiaridade







