Cinco dias. Esse foi o período em que o corpo de Luiz Maghave de Souza, 37 anos, permaneceu no Instituto Médico Legal (IML) de Nossa Senhora do Socorro aguardando reconhecimento. Ele foi morto pelo disparo da arma de fogo de um policial militar na madrugada de 23 de julho, no almoxarifado da corporação, no Centro de Aracaju. Negro, com diagnóstico de esquizofrenia, Luiz vivia em situação de rua, era acompanhado pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e pelo projeto Consultório na Rua, e já havia passado pelo Centro POP e por unidades de urgência psiquiátrica, como o Hospital São José e a Clínica São Marcelo.
Os familiares souberam da morte por meio da página “Que Vem das Ruas”, que noticiou que o corpo estava havia cinco dias sem identificação. A Declaração de Óbito do IML, emitida em 28 de julho, aponta como causa da morte traumatismo cranioencefálico, lesão perfurocontundente e projétil de arma de fogo. Ele foi enterrado no mesmo dia em Itaporanga D’Ajuda, município distante 32km de Aracaju. Pai de duas filhas e avô de uma criança, Luiz é lembrado pela família como uma pessoa tranquila quando estava sob tratamento.
Segundo a Polícia Militar (PMSE), Luiz tentava forçar acesso a uma área militar restrita e não atendeu às ordens de parada, chegando a avançar contra os policiais, sendo que um deles reagiu com um disparo. A vítima chegou a ser socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu.
A versão, no entanto, é contestada pela filha, Luiza Santos, em entrevista ao Portal Fan F1. “Não consigo imaginar ele reagindo a um policial. Ele estava desarmado, não ia fazer nada contra ninguém. Acho que eles não tiveram paciência ao abordar. Quem tem esquizofrenia não se comporta como uma pessoa comum, e eles deveriam ter mais calma. Talvez ele estivesse só procurando algo para comer ou um lugar para dormir.”
O caso reacende o debate sobre os protocolos de abordagem policial a pessoas com transtornos mentais em situação de rua. A morte de Luiz se soma à de Genivaldo de Jesus Santos, homem negro com esquizofrenia que, em maio de 2022, morreu asfixiado dentro de uma viatura da PRF em Umbaúba, também em Sergipe, episódio que gerou repercussão nacional. Os números reforçam a preocupação: Sergipe ocupa atualmente o quarto lugar no ranking nacional de letalidade policial, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, registrando taxa de 6,33 mortes de suspeitos “em confronto” para cada 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, de 2,9.
A filha de Luiz pede justiça e transparência. “Quando estava em tratamento, era muito bom. Eu não esperava receber essa notícia dessa forma. Espero que a justiça seja feita e que eu saiba o que realmente aconteceu. A polícia precisa investigar as câmeras da região. Mais esse crime contra nossa população não pode ficar impune.”
A PM informou que todo o material foi apresentado às autoridades competentes e que a Corregedoria da Polícia Militar acompanha o caso. Já a Secretaria de Segurança Pública (SSP/SE) informou que o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) está investigando a ocorrência, tendo a perícia coletado impressões papilares no local para auxiliar nas apurações.








