‘Insensibilidade’ e ‘constrangimento’ foram as palavras usadas pela auxiliar administrativa Kelly Vieira para descrever a situação vivida na manhã desta quarta-feira, 23, ao tentar voltar para casa com a filha Maria Esther, de 7 anos, uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), após uma sessão de terapia em uma clínica no bairro Suíssa, em Aracaju.
A atitude de um motorista por aplicativo teria tornado o retorno um momento de tensão. Segundo Kelly, ao entrarem no veículo, Maria Esther colocou o pé no banco, um movimento involuntário que ela costuma fazer para se acomodar. O gesto, no entanto, foi suficiente para que o motorista cancelasse a corrida antes mesmo de dar partida.
“Ela sempre tem essa mania de se posicionar com o pé para entrar no carro. Não é com vontade, é involuntário, não é para sujar o carro de ninguém. Ela colocou o pé e sentou. Já estava até sentada quando ele disse assim: ‘eu vou cancelar, senhora’. Eu perguntei: ‘mas por que?’. Ele disse: ‘ela botou o pé, você viu e deixou’”, destacou.
A mulher relata que a interrupção inesperada provocou confusão na criança, diante da mudança brusca de planos. Kelly afirma que, enquanto tentava acalmar a filha e tirá-la do carro, sentia medo e angústia.
“Ela tem uma rigidez muito forte. Na cabeça dela, quando entra num carro, é para ir embora. Ela saiu da clínica para entrar no carro e para ir embora. Então ela começou a chorar dentro do carro, não queria descer. Eu estava sozinha e tive que largar todas as coisas na porta da clínica, na calçada, porque não tive como chamar ninguém para me ajudar”, completou.
Uma câmera de circuito de segurança registrou o momento exato em que a mãe coloca a filha no carro, na parte de trás, mas ao tentar entrar, é informada pelo motorista do cancelamento da corrida. Ela diz ainda que mesmo diante da situação e ciente de que a criança era autista, o motorista permaneceu indiferente.
“Ele foi muito grosso, insensível total. Ele não precisava ter feito isso, cancelar por causa disso. Ele podia chamar a minha atenção e eu ia explicar ele. Ainda disse a ele que minha filha era autista”, contou.
Kelly afirma que usa o aplicativo diariamente para retornar das terapias com a filha, mas sempre com apreensão.
“Eu tive medo de ele arrastar o carro e levar ela, fiquei agoniada. Eu tentei tirar ela, explicando a ela e ela ficou chorando, eu tive que forçar para puxar ela e fiquei me tremendo. Ele viu eu puxando ela, mas não se manifestou em nada. Viu tudo e foi muito frio. Quando eu tirei ela no carro, ele foi embora. Eu sempre fico atenta para que ela não faça nada. Eu tenho medo, eu ando de Uber, mas eu ando com medo, porque muita gente não conhece, não sabe como é o autista, só a gente que passa”, finalizou.
A Associação dos Motoristas por Aplicativo de Sergipe classificou o caso como”covardia”.
Já a Associação dos Amigos Autistas, representada por Adenilson dos Reis, não se pronunciou oficialmente sobre o caso por meio nota, mas por ligação ele afirmou que “eu não estava lá no carro para ver o que aconteceu, essa é a minha opinião. Nem todos os profissionais estão aptos a trabalhar com uma criança dessa que não obedece, que se irrita, que quer fazer o que quer”, disse.








