O candidato ao Governo de Sergipe, Valmir de Francisquinho (Republicanos), foi diagnosticado, na última terça-feira, 25, com um ataque isquêmico transitório (AIT) após passar mal e ser levado para atendimento médico. A condição apresenta sintomas semelhantes aos de um acidente vascular cerebral (AVC), mas, no AIT, os sinais desaparecem completamente em até 24 horas.
Em entrevista ao Portal Fan F1, o cardiologista Pedro Pereira, da Clínica do Coração, explicou como o AIT acontece, quais sintomas podem indicar o problema e esclareceu a relação entre o diagnóstico e o forame oval patente (FOP), uma pequena abertura identificada no coração durante a investigação.
O que é o ataque isquêmico transitório?
Segundo o cardiologista, o AIT é, na prática, um episódio de isquemia cerebral que apresenta resolução completa dos sintomas.
“O ataque isquêmico transitório é muito parecido com o AVC. A diferença do ataque isquêmico para o AVC é que ele se resolve em até 24 horas e os sintomas desaparecem completamente”, explicou Pedro Pereira.
Os sintomas variam conforme a região do cérebro afetada. Podem ocorrer perda de força em um dos lados do corpo, desvio da comissura labial, tontura e outras alterações neurológicas.
“Pode ser toda a metade de um corpo, pode ser apenas um desvio de comissura labial, pode ser uma crise de tontura. Vai depender muito da região do cérebro que foi acometida e qual foi a artéria”, detalhou.
Apesar de os sintomas desaparecerem, o episódio não deve ser ignorado. Segundo o médico, quem já teve um AIT pode apresentar novamente o quadro ou sofrer um AVC.
Qual a relação com o ‘orifício’ no coração?
Durante a investigação, foi identificado em Valmir um forame oval patente (FOP). O cardiologista explica que se trata de uma abertura que existe naturalmente no coração durante a gestação e que normalmente se fecha após o nascimento.
“Quando a gente nasce, até 48 horas, esse orifício é fechado naturalmente quando o pulmão expande e nós começamos a respirar por fora”, explicou.
Em algumas pessoas, porém, a abertura permanece. O FOP é relativamente comum em adultos e, na maioria dos casos, não provoca sintomas.
“O FOP é uma alteração comum nos adultos. Ele não causa nenhum sintoma, fica assintomático”, afirmou.
O problema pode ocorrer quando há passagem de sangue do lado direito para o lado esquerdo do coração. Nessa situação, um coágulo pode atravessar a abertura e chegar à circulação arterial, alcançando o cérebro.
“O grande problema do FOP é que em algum momento ele pode fazer uma passagem do sangue do lado direito para o lado esquerdo do coração. Aí vem o êmbolo, vem o coágulo, e esse coágulo pode ir para a cabeça provocando AVC ou um ataque isquêmico transitório”, explicou.
FOP é comum, mas não precisa ser investigado por todos
Pedro Pereira ressalta que a presença do FOP, sozinha, não significa que uma pessoa esteja em risco. Por ser uma alteração relativamente frequente e geralmente assintomática, não há indicação de investigar todos os adultos.
“Num adulto que não apresenta sintomas, a gente não tem que estar se preocupando. A gente não vai ficar rastreando FOP em todo adulto”, afirmou.
A investigação costuma ser feita quando o paciente apresenta um AIT ou AVC e os médicos não encontram outra causa provável.
Nesses casos, pode ser realizado um ecocardiograma transesofágico, exame que permite verificar a passagem de sangue entre os lados do coração. Segundo o cardiologista, uma solução salina com bolhas é utilizada durante o procedimento para observar se há passagem do lado direito para o esquerdo.
Como o FOP pode ser tratado?
Quando a equipe médica conclui que o FOP está relacionado ao AIT ou a um AVC sem causa identificada, uma das possibilidades é o fechamento da abertura.
Segundo Pedro Pereira, o procedimento é realizado por cateterismo e não exige uma cirurgia convencional.
“Esse fechamento hoje é um fechamento simples, é via cateterismo, via hemodinâmica. Ele é fechado, não corta nada, faz o cateter e fecha através de uma prótese esse orifício”, explicou.
O momento do procedimento depende das condições clínicas do paciente. Nem sempre o fechamento precisa ser feito durante a mesma internação.
“No nosso paciente que teve um AIT, não necessariamente a gente vai fechar esse forame oval ainda no mesmo internamento. A gente pode programar para um momento posterior”, esclareceu.
Em pacientes que tiveram AVC sem uma causa aparente e nos quais o FOP é identificado, a equipe médica também pode avaliar o fechamento para reduzir o risco de um novo episódio.
Estresse pode ter relação?
Questionado sobre uma rotina intensa e situações de estresse, o cardiologista explicou que a ansiedade pode elevar os níveis de adrenalina, aumentando a pressão arterial e os batimentos cardíacos.
“Adrenalina alta aumenta a pressão arterial, e só pelo aumento da pressão arterial, o aumento dos batimentos que a adrenalina pode provocar, ela já pode trazer várias repercussões no nosso organismo”, afirmou.
Apesar disso, o médico ponderou que não é possível apontar o estresse como causa direta de um episódio específico.
“Não podemos afastar, mas em algum momento ele pode surgir e também pode surgir num momento que não tenha nenhum estresse”, disse.
Quando procurar atendimento?
Como os sintomas do AIT são semelhantes aos de um AVC, a orientação é procurar atendimento médico diante de qualquer alteração neurológica súbita, mesmo que ela desapareça posteriormente.
A investigação é importante justamente porque o desaparecimento dos sintomas não elimina o risco de um novo episódio. A identificação da causa permite que os médicos avaliem medidas para prevenir a ocorrência de um AVC ou de outro AIT.








