Do lixão às cooperativas: coleta seletiva gera dignidade a catadores e se fortalece com fomento produtivo em Aracaju

A reportagem mostra como a organização coletiva, aliada a programas de fomento produtivo, garante direitos a catadores, transforma o descarte em renda digna e impulsiona a sustentabilidade na capital sergipana.

Aracaju, Sergipe, Brasil – Uma palavra se repete no discurso de quem cata materiais recicláveis em Aracaju: lixão. Não como figura de linguagem, mas como um endereço e uma memória vinculada a um território. Foi no lixão do bairro Santa Maria, na Zona Sul da capital sergipana, que Socorro Soares dos Santos, de 57 anos, começou a catar em 1998, recém-chegada de Alagoas.

Foram anos trabalhando em meio ao que a capital descartava. Urubus sobrevoando o material, risco sanitário permanente, mas também a única garantia de sustento. A desativação completa do espaço ocorreu após ações do Ministério Público de Sergipe (MPSE) e a implementação das diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Pela legislação, os rejeitos urbanos devem ter disposição final ambientalmente adequada que observe normas operacionais específicas, evitando riscos à saúde pública. A instalação que se enquadra nessa definição é o aterro sanitário, descrito pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) como um importante território econômico e social em que se dá o encontro entre resíduos sólidos e meio ambiente, e inerente ao processo de erradicação dos lixões. 

Rumo à sustentabilidade, o fim dos lixões era o caminho necessário; para os catadores, representou uma preocupação. Mas mesmo em meio ao receio de perder a renda que vinha da cata veio a primeira tentativa de organização coletiva. Nasceu, então, em 1999, a Cooperativa dos Agentes Autônomos de Reciclagem de Aracaju (Care), da qual Socorro logo se tornou cooperada.

“Na cooperativa, você tem compromisso, você também tem seus EPIs, tem seus direitos garantidos pelo INSS, você contribui, [você tem] um trabalho mais decente, mais digno. Eu acho tenho certeza que na cooperativa o catador tem mais visibilidade”, compara Socorro.

A saída da informalidade para a rotina nas cooperativas não mudou apenas a vida dela e de quem estava no lixão, mas também revelou o potencial de uma dupla sustentabilidade na capital: de um lado, a sustentabilidade humana e financeira de quem vive da reciclagem, garantindo renda, proteção à saúde e direitos aos cooperados; do outro, a sustentabilidade no meio ambiente, com o desvio de recicláveis que iriam ao aterro.

O tamanho desse desafio é dimensionado em números oficiais. Dados fornecidos pela Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb) apontam que, entre janeiro e agosto de 2026, Aracaju destinou 259.696,23 toneladas de resíduos sólidos para o aterro sanitário. Em contrapartida, no mesmo intervalo de oito meses, o serviço regular de coleta seletiva porta a porta, presente hoje em 26 bairros, recolheu 3.993,67 quilos de materiais passíveis de reciclagem.

Ao mesmo tempo em que cumpre a função de soterrar o que não pode ser reaproveitado, o aterro recebe diariamente volumes que poderiam abastecer a cadeia produtiva local. Quem atua na base tenta reverter esse destino: autodeclarados agentes ambientais, os catadores ainda absorvem uma parcela pequena do volume total gerado na capital.

É aí que entram as políticas de fomento, mostrando que a cata tem impacto positivo ambiental, social e financeiro: cada volume a menos enviado ao aterro já representa um ganho ambiental direto. O desafio é fazer esse volume crescer na mesma velocidade em que a cidade continua gerando lixo.

Do capinar sozinho à colheita comum

Para quem viveu no antigo lixão de Santa Maria, trabalhar em cooperativa foi uma mudança total de vida, pois a rotina segue uma engrenagem própria de produção coletiva.

Antes, o capinar sozinho; a preocupação com o próprio sustento. Na cooperativa, onde os catadores são trabalhadores autônomos, a colheita coletiva. A remuneração depende diretamente da pesagem e do volume total triado pelo grupo no mês.

O começo dessa história exigiu paciência de quem não tinha outra fonte de renda. Severina Alaíde, a “Dona Bel”, de 59 anos, passou 15 anos trabalhando no lixão depois que chegou de Pernambuco.

“Eu vim para cá [cooperativa], mas com condições, três dias lá e dois aqui, porque aqui ainda não tinha renda ainda, era o começo. Começou com seis pessoas, depois aumentou para 12, mas com a gente acreditar na cooperativa, que ia dar certo, foi aumentando”, afirma.

“A cooperativa para nós foi uma mãe, foi e é uma mãe até agora”, completa.

A saída do lixão também mudou a história das crianças que viviam por lá. Josué dos Santos voltou para a Care depois de anos trabalhando na rua e ainda guarda a lembrança do passado com a família.

“Infelizmente, a gente presenciava muitos acidentes em coletas, e até homicídios lá dentro mesmo. Era muita coisa pesada para uma criança ver. Quando o lixão fechou, veio o medo de perder o sustento, mas a Care sempre recebeu as pessoas que saíram de lá. Aqui eles fornecem todo equipamento, e a gente não corre o mesmo risco que corria na rua”, diz.

Foto: Eduardo Brito

Além de proteger a saúde dos trabalhadores, a cooperativa faz o material render mais dinheiro do que na rua. Em Aracaju, o material chega pelos caminhões da coleta nos bairros e pelos ecopontos da cidade. Levado aos centros de triagem e galpões, o montante vai para esteiras rolantes ou mesas, onde os catadores separam plástico, papelão, papel e latinhas de metal.

Depois de separados, os materiais passam por prensas para a formação de fardos compactados. É essa prensagem e organização que garante licenciamento ambiental e escala para que a cooperativa venda direto para as fábricas e indústrias transformadoras, eliminando a figura dos intermediários e repartindo o lucro entre os associados.

Para Socorro, toda essa cadeia para o beneficiamento dos resíduos altera o sentido da profissão.

“O lixo deixa de ser lixo quando você sabe tratar, quando sabe organizar e separa cada material num cantinho. Você pesa, vende e manda para a indústria ser transformado. Isso para mim é coleta seletiva, não é só tirar de um canto e jogar no outro”, resume.

Foto: Vitor Samuel

A manutenção dessa linha de triagem revela, contudo, que a erradicação dos lixões não encerra automaticamente a vulnerabilidade socioeconômica da categoria. Manter caminhões rodando, substituir maquinários e garantir proteção aos catadores exige recursos que vão além da venda mensal dos fardos reciclados.

É essa necessidade de infraestrutura técnica e recursos contínuos que aponta Adriano dos Santos, técnico da Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) em Sergipe. Nascido e criado no antigo lixão de Santa Maria junto aos pais e 11 irmãos, ele acompanhou a transição da área e reforça que a sustentabilidade depende de investimento contínuo.

“Fechar o lixão foi apenas o começo”, resume.

Segundo Adriano, o estado conta hoje com uma média de 600 catadores cooperados, sendo cerca de 250 em atividade na capital, distribuídos por quatro cooperativas: Cooperativa De Reciclagem Do Bairro Santa Maria (Coores), Cooperativa dos Agentes Autônomos de Reciclagem de Aracaju (Care), Cooperativa de Reciclagem União e Cooperativa Reciplac. 

“O processo de inclusão não termina no encerramento do lixão ou na formação da cooperativa. O trabalho só é concluído, de fato, quando a gente consegue organizar a cooperativa de uma maneira estruturada para que eles consigam fazer recolha seletiva, triagem e beneficiamento dos materiais recicláveis”, aponta.

Foto: Vitor Samuel

Para Adriano, os aportes financeiros direcionados às cooperativas funcionam como a reparação de uma dívida social com quem, nas margens, deu sua contribuição para a limpeza urbana. 

“Por muitos e muitos anos esses catadores fizeram um trabalho de forma muito precária e insalubre, na maioria das vezes até trabalhando dentro dos lixões. Hoje, nas suas cooperativas, toda a linha de fomento e de crédito que acontecer nós entendemos como uma justiça social de um público que foi excluído durante muito tempo e que precisa justamente de um apoio como esse”, afirma.

Um exemplo de como o investimento em infraestrutura pode impactar positivamente a rotina dos cooperados é o Centro de Triagem de Resíduos Sólidos (CTR) Marilene Alves, implantado pela Prefeitura de Aracaju com maquinário completo na Zona Norte da capital.

Operado pela Cooperativa União, ele é lar de cerca de 40 cooperados diários. Jackson Miller, presidente da União e ex-catador do lixão do Santa Maria compara a mudança.

“O centro de triagem melhorou 10 mil vezes o trabalho de cada um deles, porque antigamente nós trabalhávamos no sol quente. Se chovesse, nós ‘tava’ debaixo da chuva, se fizesse sol, nós ‘tava’ debaixo de sol. Hoje nós temos toda a estrutura para que os cooperados consigam trabalhar de forma digna”, aponta.

Foto: Vitor Samuel

Redes de fomento

Antes de ter um horário fixo de trabalho e a certeza do que receberia no fim do mês, Daysiane de Oliveira, de 24 anos, percorria as ruas do bairro Bugio, na Zona Norte de Aracaju, empurrando um carrinho de mão. Catadora desde os 20 anos, ela recolhia papelão, papel, garrafas PET e sucata de ferro para revender em ferros-velhos da região. 

“Eu saía de casa umas oito horas da manhã, aí ficava até umas duas, três da tarde trabalhando. Não garantia uma renda muito boa”, lembra. 

A rotina mudou após a indicação de familiares para participar do programa Conexão Cidadã. Daysiane procurou a Cooperativa União e, após atestar os benefícios da organização coletiva em comparação ao trabalho autônomo, foi incluída no quadro de cooperados.

“Depois que eu vim para cá, graças a Deus eu consigo o meu salário todo mês, certinho. Os meninos [filhos] eu consigo pegar, levar para a escola, tudo certinho”, afirma. 

Foto: Vitor Samuel

O programa tem como foco identificar, cadastrar e prestar assistência a quem permanece na informalidade das ruas, sem vínculos com associações ou cooperativas.

Em Aracaju, ele foi viabilizado por meio de parceria entre a Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) e a Fundação Banco do Brasil, que compõe a estrutura do Sistema Nacional de Fomento (SNF), ecossistema coordenado e representado nacionalmente pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), que reúne bancos públicos e agências de fomento em prol do crédito sustentável e da inclusão socioeconômica.

A programa também contou com a articulação da Secretaria-Geral da Presidência da República e o apoio de órgãos locais como a Prefeitura de Aracaju e o Sebrae. Desde então, na capital, o Conexão Cidadã mapeou 675 catadores autônomos em territórios estratégicos.

Vera Cardoso, coordenadora da iniciativa na capital sergipana, explica que o programa busca identificar e apresentar alternativas para que os catadores autônomos possam enxergar novas perspectivas além da subsistência.

“Esses catadores, eles saem do anonimato, porque [para] muitos, a oportunidade não chegava, porque na cooperativa é mais fácil, tem convênios, você tem algumas parcerias que chegavam até eles. E os catadores avulsos, praticamente muitos deles catam para comer, mas e como mudar a vida, a condição de vida deles?”, questiona.

Foto: Vitor Samuel

Em Aracaju, segundo Vera, o financiamento possibilitou a instalação de trailer para atendimento aos catadores, oferecendo uma rede de apoio integrada, com a distribuição de kits de higiene e coletes e camisetas, emissão e regularização de documentos essenciais, acesso a serviços de saude e orientação jurídica e social.

Além disso, os recursos viabilizaram a compra de EPIs, realização de capacitações e até mesmo a participação de catadores em eventos relativos à atividade.

“Levamos eles até a Expocatador, aqueles catadores que tiveram interesse, que todo ano tem em São Paulo, então teve alguns deles que foram para esse momento”, afirma.

A aproximação com os trabalhadores que ainda sobrevivem da venda avulsa nas ruas conta com a expertise formativa do Sebrae Sergipe por meio do programa Pró-Catador. Criado para fortalecer a inclusão socioprodutiva e a geração de renda para trabalhadores autônomos e organizados em cooperativas, a iniciativa atua de forma coordenada às ações de campo do Conexão Cidadã, levando orientação sobre cooperativismo, organização financeira e alternativas de formalização jurídica.

No dia em que a reportagem esteve no Centro de Triagem Marilene Alves, onde a Cooperativa União desenvolve suas atividades na Zona Norte de Aracaju, representante do Sebrae Sergipe realizava uma palestra de capacitação sobre empreendedorismo voltada aos catadores.

O foco do encontro foi detalhar os caminhos de inclusão produtiva e desmistificar o acesso a direitos básicos, como o registro de Microempreendedor Individual (MEI) para aqueles que optam por permanecer autônomos.

“De repente, ele não quer a cooperativa, mas ele quer ser um MEI. Se ele for MEI, ele vai ser amparado pelo INSS. A política pública que muitas vezes mais falta para eles é a informação”, completa Vera. 

A busca por saídas individuais como o registro de microempreendedor decorre da própria dinâmica da atividade nas ruas. Segundo Vera, a adesão às cooperativas não é imediata porque muitos trabalhadores conciliam a catação com bicos ou possuem rotinas próprias de circulação.

“Como ele não tem a quem vender, ele se submete a isso. Então, com o Conexão e essa parceria com as cooperativas, nós estamos aproximando, estamos mostrando que eles também catam, eles também têm material e a cooperativa pode comprar do catador avulso”, aponta.

Além do atendimento social, a expansão do setor se apoia em recursos de fomento à infraestrutura e logística de grande porte. Pelo Programa Cataforte, fruto de editais do Governo Federal em articulação com entidades financeiras e de desenvolvimento, seis cooperativas da Grande Aracaju, incluindo a capital, foram contempladas com caminhões próprios para potencializar as rotas coletoras.

Na Care, Ingrid Bomfim, responsável pelo setor de educação ambiental da entidade, aponta que o programa possibilitou a ampliação da escala de atendimento.

“Se não fossem esses editais e esses veículos chegando, a gente não conseguiria cobrir tantos bairros nem recolher o material de grandes empresas e órgãos públicos como a gente faz hoje. O caminhão dá a capacidade de buscar o resíduo onde ele é gerado e trazer para a esteira com segurança”, afirma.

Mas apesar dos suportes institucionais e do avanço das políticas de fomento, o setor ainda enfrenta entraves comerciais na captação de grandes cargas.

Jackson Miller, presidente da Cooperativa União, relata que empresas de grande, como redes de supermercado e atacadistas, ainda preferem negociar seus resíduos com intermediários privados em vez das cooperativas.

“Hoje os grandes geradores mesmo, [ao invés] de vender o resíduo para as cooperativas, eles vendem seus resíduos para o atravessador, para outros. Esse material podia ser destinado para trazer os catadores cada vez mais para aqui para dentro da cooperativa”, expõe.

Consciência urbana

Para que o beneficiamento avance nos centros de triagem estruturados pelo poder público e pelo fomento, a também cadeia precisa da adesão direta da comunidade à coleta seletiva.

Para Adriano dos Santos, técnico da Ancat em Sergipe, essa postura passa pela compreensão do catador não mais como quem recolhe sobras, mas como profissional técnico da preservação da cidade.

“O catador precisa ser visto e valorizado pelo que ele de fato é: um agente ambiental que presta um serviço essencial para a cidade. Quando a sociedade e o poder público entendem que o catador tá na ponta prestando serviço de limpeza e preservação ecológica, a relação com o descarte muda completamente”, aponta.

Essa atuação pedagógica acontece antes mesmo de os caminhões passarem recolhendo os materiais. Por meio de parceria da prefeitura com as cooperativas, equipes de agentes socioambientais percorrem diariamente as ruas orientando os moradores sobre o cronograma da coleta porta a porta. Assim, a população pode solicitar a inclusão do seu endereço na rota.

Entre eles está Evânio Lima Santos, que trabalhou no antigo lixão de Santa Maria e há oito meses realiza as abordagens. Ele detalha como o diálogo com a população tem contribuído para o entendimento do que é a separação de resíduos.

“É um trabalho de conscientização e preservação ao meio ambiente, levando essa experiência para muitos que não tinham conhecimento do que era reciclável. Hoje, nós estamos passando para eles a forma correta de fazer a separação desses materiais, a destinação correta, e conscientizando que coloquem em um canto reservado, com toda higiene e limpeza. É benéfico para as cooperativas e para os catadores autônomos também, porque recebem um material totalmente limpo”, afirma.

Foto: Vitor Samuel

A melhora na receptividade nas portas, contudo, ainda contrasta com a montanha de resíduos que segue soterrada todos os dias. Na Care, Ingrid Bomfim aponta o abismo que a educação ambiental ainda precisa superar diante das toneladas despachadas para o aterro sanitário.

“Ainda chega muito rejeito na cooperativa. A gente entende até que pode ser falta de informação da população. Não sabe se onde descartar e acaba enviando na coleta seletiva. Mas a gente tá trabalhando para conseguir chegar até mais pessoas e fazer uma educação ambiental efetiva. Hoje a gente conta com a redes sociais, que é algo que eu acredito que tem contribuído nessa questão de sensibilizar da forma correta”, aponta.

Essa distância entre o que a capital enterra e o que as cooperativas conseguem captar expõe o limite do que o fomento consegue resolver sozinho. O investimento em cooperativas resolve uma dívida social antiga com os catadores que transformaram sobrevivência do lixo em serviço público essencial até construir consciência ambiental.

Para quem acompanhou a transição, o caminho rumo à uma mais cidade sustentável é longo. Contudo, há agentes que movem toneladas para deixá-lo cada vez mais próximo. Jackson resume a identidade que define o trabalho da categoria.

“Nós não somos catadores, nós somos agentes ambientais, porque a gente faz esse serviço muito importante. E se a população entendesse que tem que separar o seu resíduo, destinar o seu resíduo para o local correto, eu acho que melhorava mais a qualidade de vida até dos catadores, diminuiria o custo de levar para os aterros. É muito importante para o meio ambiente e para nós, que ficamos felizes pelo trabalho que a gente vem prestando à sociedade”, finaliza.

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *