Caminhoneiro há meio século, seu Adroaldo Gomes, 72 anos, conhece algumas curvas e buracos da BR-101. Natural de Aracaju (SE), ele sobrevive transportando cargas de um estado para outro pela rodovia que é o principal corredor de escoamento de produtos do país. Na viagem mais recente, trouxe 32 toneladas de farinha de milho de Luís Eduardo Magalhães (BA) até a cidade de Nossa Senhora do Socorro, município da região metropolitana de Aracaju – um percurso de 1.200 quilômetros, sendo 310 deles pela BR-101. Entre relatos de trechos mal iluminados, pistas esburacadas e promessas de duplicação que nunca se cumprem, ele mantém o sonho de ver a obra concluída. “Já era pra ter terminado há muito tempo. Está horrível”, lamenta.
Partindo do município de Nossa Senhora do Socorro em direção ao Norte, percorremos fábricas, atravessamos áreas de reserva da Mata Atlântica e passamos por plantações de canaviais, até que chegamos ao primeiro desvio da BR. É neste ponto que a duplicação dá lugar a uma pista simples e sem acostamento em muitos trechos. A partir daí, o cenário revela uma série de problemas: ausência de acostamento, desnivelamento do asfalto e riscos que provocam inúmeros acidentes fatais, além de constantes congestionamentos de veículos de pequeno e grande porte. O problema acarreta uma série de transtornos para os moradores do perímetro urbano às margens da rodovia federal, assim como para os comerciantes.





Em Sergipe, a saga da duplicação da BR 101 já se arrasta por 29 anos, sendo considerada por muitos como uma novela sem final feliz. Isso porque dos 206 km da rodovia, 129 km já foram duplicados, restando 77 km. Enquanto isso, motoristas como seu Adroaldo continuam a enfrentar atrasos, riscos e a incerteza de quando poderão rodar por uma rodovia segura e moderna.

A poucos metros da ponte sobre o rio Sergipe, que liga as cidades de Laranjeiras a Maruim, na região conhecida como Vale do Cotinguiba, comerciantes se amontoam as margens da BR. Eles tentam tirar o sustento comercializando produtos. É o caso da Vânia da Silva que há oito anos comercializa crustáceos. “A duplicação é um sonho para todos nós, isso evita acidentes, o trânsito vai ficar mais organizado, não vai ficar essa bagunça que é hoje e vai melhorar todo o comércio daqui”, comenta.
Não muito distante da barraca da Vânia, está localizado o restaurante em que seu David de Souza trabalha. Ele diz que a atual condição da BR tem contribuído para a queda de clientes no local. “A poeira está demais, quando os caminhões passam despejam aqui e isso acaba afastando os clientes. A duplicação resolveria bastante esse problema, fora que não teríamos que enfrentar tanto engarrafamento”, conta



A rodovia
A BR-101, também conhecida como a Rodovia do Atlântico, foi construída pelo Exército entre os anos de 1950 e 1960, percorrendo 11 estados do litoral brasileiro, tendo essa nomenclatura que indica que ela é uma rodovia longitudinal, por ser o grande eixo de integração nacional Norte-Sul. Ela parte da cidade de Touros, no Rio Grande do Norte e vai até a cidade de São José do Norte, no Rio Grande do Sul.
Em toda a sua extensão, a rodovia federal percorre áreas de manguezais, serras e regiões costeiras. Ela atua num papel fundamental na economia brasileira, facilitando o transporte de bens agrícolas, indústrias e minerais, além de conectar portos importantes na logística de exportação e importação.



Em Sergipe, ela desempenha um papel crucial na economia regional e no desenvolvimento, cortando 16 municípios. As obras de duplicação começaram a ser executadas em solo sergipano em 1998, partindo da região metropolitana de Aracaju. A pavimentação asfáltica da rodovia deu lugar a técnica de whitetopping, que nada mais é do que placas de concreto, onde o asfalto é aproveitado como base para camada de concreto, o que garante maior durabilidade, chegando a 60 anos.


Alexandre Cunha atua como coordenador de engenharia do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Ele explica que vários trechos de obras de duplicação se tornaram grandes gargalos como falta de recursos, revisão de projetos, questões ambientais, obras em ritmo acelerado e desacelerado e trechos pendentes de licitação.

“Diversos fatores contribuíram para o atraso na conclusão das obras. Tivemos problemas com as empresas executoras, sendo necessário rescisões contratuais. Atraso nos processos de desapropriação e reassentamento, limitação de recursos financeiros, período da pandemia, etc. Em alguns momentos tivemos dificuldade na aquisição de insumos. Em outros casos, em virtude do longo período das obras, fez-se necessária a atualização dos projetos, demandando toda uma análise criteriosa e um rito processual”, explica.
Apesar da obra não ter sido concluída totalmente ao longo desses 29 anos, já é possível constatar em vários trechos duplicados a presença de rachaduras e buracos que comprovam a falta de manutenção.

Natural de Recife (PE), José Barbosa da Silva trabalha como caminhoneiro há 32 anos. Ele é apaixonado pela profissão e utiliza a 101 transportando, em boa parte das viagens, cerveja. A última viagem teve como ponto de partida Igarassu, na região metropolitana do Recife para Aracaju. Um percurso de 524 km. Ele observa que em muitos trechos duplicados em solo sergipano já é possível perceber o desgaste das placas de concreto da via.
“Em alguns trechos as placas de concreto estão se diluindo, se rachando, então é um serviço que não está muito bem feito. Tem alguma coisa de errado nas placas. É feito um serviço de tapa buraco, com dois, três meses, muitas vezes por causa da chuva, o buraco abre do mesmo jeito”, questiona.

Outro fator que reforça a falta de manutenção e demora no trâmite licitatório do poder público é na altura do km 88,5, no povoado Tabocas, em Nossa Senhora do Socorro. O trecho continua operando em meia pista desde que parte da via cedeu devido às fortes chuvas em abril de 2024. A ocorrência afetou o sentido Norte da rodovia, e, até o momento, a obra de recuperação ainda não foi concluída. O DNIT informou que o deslizamento foi causado por fatores climáticos e por questões geológicas e geotécnicas localizadas fora da faixa de domínio da rodovia. O novo projeto inclui a construção de contenções na saia do aterro, melhorias no sistema de drenagem e recuperação total da estrutura da pista. O edital de licitação nº 90135/2025-2 foi publicado em maio de 2025. O prazo de execução da obra é de quatro meses após a assinatura do contrato, ou seja, setembro. Enquanto o serviço não é iniciado, motoristas são obrigados a desviar a rota em meia pista, um verdadeiro transtorno em horário de pico.
Um levantamento realizado pelo Sistema Integrado de Operações Rodoviária (SIOR), da Polícia Rodoviária Federal (PRF), aponta que houve redução no número de acidentes na rodovia em Sergipe.

“A duplicação é muito importante porque evita colisões frontais, que envolvem grande carga de energia e resultam em lesões graves, muitas vezes permanentes, ou até mesmo em perda de vidas. Isso tem contribuído bastante para a redução do número de óbitos nas nossas BRs. Com relação aos locais em obras, a tendência natural é que os condutores reduzam a velocidade, mesmo que a via esteja em condições precárias. Já nos trechos em boas condições, com pista em ótimo estado, paradoxalmente, é onde registramos os acidentes mais graves. Para se ter uma ideia, em 2023, durante o carnaval, todos os sinistros com vítimas ocorreram em pistas retas, secas, durante o dia e sem buracos. Ou seja, justamente nas condições que deveriam oferecer mais segurança. Nas pistas duplicadas e bem sinalizadas, podem acontecer sinistros por imprudência, imperícia ou negligência. Mas, quando a estrada está esburacada ou em obras, a tendência é que ocorram menos acidentes graves, com menor índice de mortes”, destacou o inspetor Rogério, Consultor de Trânsito.
Apesar dos dados evidenciarem uma redução consistente de acidentes e mortes, a queda torna-se mais expressiva a partir de 2015, quando trechos da rodovia passaram a ser duplicados.

Há seis anos, um acidente na 101 está até hoje marcado na memória do seu José Barbosa. A colisão envolvendo uma carreta e um caminhão causou um bloqueio de quase oito horas. “O trecho não era duplicado, era o final da duplicação, onde começava o desvio. Passamos muitas horas esperando a retirada dos veículos. Foi um sufoco”, relembra.
Em Sergipe, em trechos de zona urbana em que a rodovia federal passa, o DNIT instalou uma passarela. A previsão do órgão é instalar mais seis lombadas trecho Norte.
Um levantamento do DNIT sobre o andamento das obras de duplicação no país mostra que Sergipe possui 71,79% da malha concluída. No Nordeste, o estado está atrás de Alagoas (97,39%), Pernambuco (98,21%) e Paraíba (100%). Por outro lado, supera a Bahia, com apenas 17,39% de duplicação, e o Rio Grande do Norte, com 56,97%.
No comparativo com estados da região Sudeste do país, Sergipe sai na frente do Rio de Janeiro que possui 29,08% de trecho duplicado da 101 e São Paulo com 13,40%.

“As obras de duplicação da BR-101 seguem critérios distintos durante a implantação. Mesmo em Alagoas, a rodovia não está totalmente duplicada, diferentemente de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, onde o processo de duplicação já foi concluído. No estado da Bahia, a duplicação ainda está em estágio inicial. Cumpre ressaltar que, tanto no Espírito Santo quanto no Rio de Janeiro, a BR-101 apresenta percentuais de duplicação menores do que no estado de Sergipe”, destacou o superintendente do DNIT em Sergipe, Halpher Luiggi.
Progresso x meio ambiente
Além de encurtar distâncias e facilitar o transporte, a duplicação da BR-101 traz à tona um ponto importante: a preservação do meio ambiente e a vida das comunidades que vivem no entorno da rodovia. Antes da realização da obra, o DNIT realizou um estudo quantitativo para identificar quantas pessoas residem na área afetada, seguido do reassentamento e indenização de moradores.
“As medidas ambientais adotadas para reduzir o impacto da duplicação da BR-101/SE, no estado de Sergipe, especialmente em áreas de reserva e cultivo de cana e da mata atlântica foram determinadas previamente no conjunto de estudos que compõem a etapa inicial da obra, em destaque para o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) e posteriormente o Plano Executivo Ambiental (PEA) do empreendimento”, explicou Halpher.
Resgate e a realocação de animais silvestres, o transplante de espécies nativas da Mata Atlântica, construção de passagens para a fauna, reflorestamento de áreas degradadas e monitoramento constante da biodiversidade e dos recursos hídricos são ações que se destacam. Além disso, programas de educação ambiental também foram levados às comunidades e aos trabalhadores da obra, numa tentativa de equilibrar o peso do progresso com a responsabilidade de preservar o patrimônio natural.
“Nossas obras são acompanhadas de uma equipe técnica multidisciplinar, através de um contrato de Gerenciamento Ambiental, com o apoio da Superintendência Regional e a Coordenação Geral de Meio Ambiente do DNIT. Eles atuam efetivamente na obra, cobrando e acompanhando a execução dos serviços e garantindo o fiel cumprimento de todas as condicionantes da Licença Ambiental das Obras de Duplicação da BR-101 Nordeste (PE/AL/SE/BA)”, explanou o coordenador de engenharia do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Alexandre Cunha.
Leia a série de reportagens BR 101 em Sergipe: da potência ao problema completa:
BR 101 em Sergipe: do desenvolvimento aos entraves de um projeto de integração nacional
Licitação do transporte intermunicipal em Sergipe: avanços em meio a desafios estruturais







