Das linhas de Pirro para a linha do tempo: o perfil da primeira mulher eleita prefeita de Aracaju

Emília Corrêa em seu gabinete na Prefeitura de Aracaju

Em uma das linhas que Pirro* desenhou, o calor não deixava o sol escaldante das 10h30 passar despercebido, mas à sombra da casa do povo, alguns se sentiram à vontade para dizer palavras afetuosas à nova prefeita. 

Um homem de camisa xadrez atravessou a barreira humana de seguranças, esticando o braço para capturar o momento com o celular. “Quero fazer mais vídeos para distribuir na comunidade”, disse, sorrindo, ao lado de uma Emília Corrêa também sorridente. Uma mulher de roupa florida e alegria no rosto dispensou formalidades: “Como é que você está, menina?”, perguntou a Emília.

Esse gesto simples veio depois de uma cerimônia  formal. Antes, quando os ponteiros marcavam 8 horas e 57 minutos do dia 4 de fevereiro de 2025, Emília chegou à Câmara de Vereadores, no Centro de Aracaju, para marcar o início dos trabalhos legislativos.

No plenário, a primeira mulher eleita prefeita de uma capital chegando aos seus 170 anos saudou colegas vereadores reeleitos e parlamentares de primeira viagem. Mais uma vez, pisava no lugar onde tanto debateu e fez cobranças durante oito anos, mas agora com uma responsabilidade diferente.

“Vereador Levi, o senhor está sentado onde eu costumava me sentar”, disse saudosamente na tribuna. Esse aceno ao Legislativo, posteriormente afirmou em entrevista para a construção do perfil, mostra o tipo de relação que pretende ter com os parlamentares. 

Em um momento em que a imagem da “Emília prefeita” ainda não está consolidada completamente em sua mente, afirma que a experiência de ter sido vereadora não permite que compactue com a hierarquização dos poderes.  

“Não é bom isso, medir força com o poder, até porque são poderes diferentes [pelo] que a Constituição diz. Independentes, mas harmônicos para governar”

– Emília Corrêa sobre relação entre o Executivo e o Legislativo

Relembrando o passado e mirando as incertezas e os desafios que o futuro impõe, se coloca como um ponto de encontro, uma chave que pretende abrir a porta de Aracaju e revelar “uma nova cidade”. 

A mulher que o voto segue

No gabinete da prefeita, ainda há resquícios da campanha de saldo vitorioso. Na ponta da língua, o grito de afirmação: “É desse jeito”, e uma resposta ao passado que a trouxe até esse posto: “Eis-me aqui”. No pulso, pulseiras de miçanga que foram feitas à mão por crianças e entregues a ela durante os atos que realizou na capital.

Sentada em uma cadeira à frente de um quadro imenso que ilustra a praça Fausto Cardoso, quase parece pequena, e confirma essa percepção na própria fala.

“Todo dia eu me sinto desse tamanhinho, carregando esse monte de responsabilidades sobre os meus ombros, mas não tenho parado de trabalhar”

Por outro lado, quando é hora de fazer uma autodescrição, já parece grande. Emília Corrêa Santos Bezerra destaca que é mãe de Rodrigo e Lara, avó de June, esposa, advogada e defensora pública por essência. Nascida e criada em Lagarto, recebeu em 2006 o título de cidadã aracajuana. 18 anos depois, se tornou prefeita desta mesma cidade, em 27 de outubro de 2024, com 165.924 votos, o equivalente a 57,46% dos eleitores.

Confirmou o que a maioria das pesquisas de intenção de voto já apontava na época, após se comprometer em “furar a bolha do sistemão”. Mas nem sempre foi assim. No início da carreira política, não enxergava em si as virtudes que pudessem justificar a confiança que a população lhe deu. 

“Nunca imaginei estar na política partidária, nunca planejei, nunca projetei isso”

Falando sobre sua entrada no jogo político, cita a influência do pai, José Corrêa Sobrinho, e a visão diferenciada da mãe, Orlette Corrêa Santos. Emília lembra que José era comunicativo e carismático, o que combinava mais com o viés político. Já Orlette, acreditava que ela era uma ótima defensora. 

“Ele [pai] foi vereador por três vezes em Lagarto. Foi até presidente da Câmara, mas no tempo em que não existia salário para vereador. Meu pai defendia a cidade, ele amava Lagarto, era impressionante isso. Ele viu isso em mim, eu não me vi em política partidária, mas ele viu isso em mim, como a minha mãe me viu uma advogada ou uma defensora”

O “estalo” para uma mudança de trajetória, na época em que ainda exercia a advocacia, veio de uma fala do pai sobre sua caminhada na política institucional. Candidata a conselheira e presidente da OAB Sergipe, além de pleiteante à vaga do Quinto Constitucional no Tribunal de Justiça, afirma ter sido descrita por José Corrêa como uma líder nata.

“Ele dizia isso para mim: ‘minha filha, tem políticos que têm que correr atrás do voto, outros que compram votos, negociam votos, e outros que o voto corre atrás, eu vejo que você é uma política que o voto corre atrás’”

De quem “desligava o telefone em época de eleição” para desviar dos convites de partidos para que se candidatasse, acolheu um pedido do pai e do ex-governador João Alves para que buscasse um espaço no Legislativo. 

Assim, em 2012, Emília concorreu ao cargo de vereadora de Aracaju pelo Democratas. Não recebeu os votos necessários para ser eleita, mas ficou como primeira suplente, e chegou a assumir a titularidade do mandato entre 2013 e 2014. Em 2016, concorreu novamente à vereança pelo Partido Ecológico Nacional (depois conhecido como Patriota) e, desta vez, foi eleita. Dois anos depois, saiu candidata a deputada federal e recebeu quase 53 mil votos, sendo 35 mil somente em Aracaju, mas não foi eleita por conta do sistema proporcional.

Diante dos números que alcançou na corrida por uma vaga na bancada federal, Emília afirma que chegou a ter o nome ventilado à Prefeitura de Aracaju em 2020, mas não foi a escolhida pelo seu grupo político, que utilizou como o critério o resultado de pesquisas eleitorais e, assim, escolheu Danielle Garcia (MDB) como candidata a prefeita.

“Ela ainda não tinha sido testada nas urnas. Eu já tinha sido testada nas urnas, aprovada, e a pesquisa deu que o nome dela era o melhor naquele momento. E havia um combinado, um acordo de que quem não fosse o escolhido do grupo, não sairia candidato para outro grupo”

Esse acordo, segundo Emília, foi seguido apesar de ter recebido convites de outras lideranças e de temer ser prejudicada politicamente. Optou, então, pela recondução à vereança, e, novamente, foi eleita.

“Com o mesmo tipo de campanha, com um partido pequeno, ou seja, sem a estrutura que tantos e a maioria dos políticos pensa que só vence eleição quem tem. Não é assim, quando tem que acontecer, vai acontecer”

Mas talvez tenha sido em 2022 que a anunciação de sua força política tenha ficado mais fácil de escutar. Candidata a vice-governadora na chapa encabeçada pelo atual prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho (PL), obteve 457.922 votos. 

No entanto, a condição de indeferimento que a candidatura do “pato” enfrentava à época fez os votos serem considerados nulos. O TSE referendou uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe, que condenou Valmir à inelegibilidade por oito anos, pela prática de abuso de poder econômico nas eleições de 2018. 

“Nós ganhamos, mas não levamos por tudo que você já sabe”

Havia grande apelo de uma parcela do eleitorado da chapa ‘Pato+Leoa’ (à época conhecida somente como Emília) para que, diante da insegurança jurídica que rondava a candidatura de Valmir, ela encabeçasse o grupo como candidata a governadora. Isso não chegou a ser feito, conforme a própria Emília, em respeito à decisão do grupo que coordenava a chapa. 

“Quando eu cheguei ali, aquele grupo já estava todo pronto. Eu cheguei apenas para compor, então não poderia eu chegar impondo alguma coisa naquele momento. O grupo entendeu que, se não fosse Valmir, não deveria ser ninguém, porque as pesquisas apontavam Valmir. E aí eu respeitei simplesmente isso”

Por esse motivo, ela especula que talvez sua chegada à prefeitura esteja relacionada a um desejo do povo, tantas vezes protelado, de que ela ocupasse um cargo majoritário. 

“É como se o povo tivesse esperando isso, porque vinha acompanhando a trajetória da gente. Eu já entendia que eu não tinha que permanecer na Câmara, já tinha contribuído com [a Câmara] naquele período, e a gente não tem que ser político permanente nos lugares”

O estouro da bolha 

A imagem da Emília combatente que discursava com altivez na tribuna da Câmara de Vereadores e aparecia em vídeos nas redes sociais fazendo denúncias sobre supostos problemas em diversas áreas em Aracaju ganhou mais uma camada na campanha de 2024. 

Nos mais diversos pronunciamentos, fazia questão de dizer que concorria sem o apoio de grandes lideranças políticas, como o governador, Fábio Mitidieri (PSD), e o então prefeito Edvaldo Nogueira (PDT), que apoiavam o candidato Luiz Roberto (PDT), e de não fazer parte de famílias tradicionais, com grande influência no estado. 

Daí, o argumento de que sua eleição estouraria a “bolha do sistemão”, ou o movimento de perpetuação de um mesmo grupo político no poder. Com essa e outras falas, passou a vestir ideais não somente apoiados em uma visão intelectual de que a renovação era necessária, mas também buscando fazer com que o fato de ser eleita se tornasse um desejo intenso do povo.

Desta vez, concorrendo pelo Partido Liberal (PL), fez um vídeo com o nome mais conhecido da sigla e talvez da própria direita: o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em sua rede social, alegava e agradecia o apoio espontâneo da população, inclusive de crianças, que faziam as já mencionadas pulseiras de miçangas para lhe entregar durante as agendas de campanha. 

Enfim, chegou ao Executivo. A esse fato, ela também atribui um sentimento de cansaço que, em suas palavras, permeava o eleitorado aracajuano. 

“Esse acolhimento veio do povo que cansou. O povo cansou de mentiras, de personagens que são produzidos. O povo cansou disso, o povo cansou de trocas, de vendas, de compras, de negócios”

Em um pleito marcado pela presença dominante, e até mesmo inédita, de mulheres como candidatas a prefeita, se colocou como uma figura “diferente”.

“Nessa história toda de se cansar e de querer o diferente, resolveram apostar em uma mulher. Mas veja, nós tivemos muitas candidatas mulheres, não que elas não tivessem preparadas, mas parece que eles não queriam só uma mulher, eles queriam uma mulher diferente, e isso não significa, volto a dizer, que eu sou melhor que ninguém”

A harmonia entre os poderes

Fazendo uma avaliação do início de gestão, Emília descreveu um “misto de tristezas, dores, alegrias, problemas e soluções”, e referenciando Juscelino Kubitschek, a percepção de que dois anos haviam se passado em apenas dois meses. 

Às palavras que utilizou, relacionou diversos fatos que se desenrolaram, como a suspensão da coleta de lixo no dia 30 de dezembro de 2024 e, logo depois, no início de janeiro, o anúncio da possibilidade de interrupção dos serviços prestados à Maternidade Lourdes Nogueira.

“À medida que a gente ia resolvendo [os problemas], outros iam se apresentando, ou seja, questões que na transição não foram visualizadas, porque não são mesmo, só quando a gente chega” 

A consciência de que mais adversidades serão enfrentadas durante toda a gestão, em suas palavras, também é uma constante. 

“A gente chegou enfrentando os problemas, e vamos enfrentar muito mais durante os 4 anos, com certeza, mas vamos resolvendo a cada um que vai chegar”

É dentro de um cenário com essas características que recupera na linha do tempo a experiência como vereadora e, agora como gestora, define o tipo de relação que pretende ter com os parlamentares. Emília condiciona a necessidade de uma harmonia entre os poderes. 

“Eu quero ter um relacionamento com a Câmara, se a Câmara assim quiser. Eu quero ter um relacionamento de respeito, de contribuição para a população de Aracaju, de escuta, de ação. Mas para que eu tenha esse relacionamento, a Câmara também tem que querer, para que a harmonia aconteça. Se essa harmonia não acontecer, sabe quem vai penar? O povo”

A leoa da tribo de Judá

Na selva digital, onde a imagem consolidada e o engajamento passaram a ser colocados em um patamar de destaque nas últimas eleições, Emília se assentou. Ela conta que esse movimento começou em 2018, quando concorreu ao cargo de deputada federal e não tinha condições financeiras de se deslocar a todos os municípios do interior para fazer atos de campanha. 

Em 2020, durante a pandemia, foi acometida pela Covid e, diante da impossibilidade de ir às ruas, intensificou o trabalho nas redes sociais.

Na campanha para prefeita, não foi diferente. Da oposição à colocação de cimento no Parque da Sementeira a vídeo com pulseiras da amizade ao som de Taylor Swift, todo conteúdo passível de gerar reações acabava no Instagram. 

A tentativa de reunir uma verdadeira “tribo” online se personificou no dia em que foi eleita prefeita. Em um vídeo publicado logo após a confirmação da vitória nas urnas, estava maquiada artisticamente como um leão, vestida com uma blusa estampada com o nome “escolhida” e fez lipsync da música ‘Leão’, de Gabriela Rocha.

A produção e o trecho “meu Deus é o leão da tribo de Judá” fizeram com que logo ficasse conhecida como a “prefeita leoa”. O apelido, conta Emília, além de não causar incômodo, também ganhou uma funcionalidade dentro de seu imaginário. 

“A leoa tem aquela coisa de proteger a prole, de guardar a prole. Essa prole hoje para mim é o povo de Aracaju. Eu quero proteger, eu quero guardar, eu quero dar para eles o que eles precisam”

Citando outro trecho da música: “E em seu nome os gigantes cairão”, fez alusão aos adversários que enfrentou no pleito.

“Os gigantes caíram. E missão é coisa difícil, é coisa árdua. E você, quando é escolhida para uma missão, é muita responsabilidade”

Viver no presente e seguir a missão à qual foi designada é o desejo que Emília revela para os próximos anos. Antecipando os questionamentos que com certeza virão sobre o ano eleitoral de 2026, destaca que ainda não teve conversas políticas.

“Eu vou trabalhar na missão que me foi dada para Aracaju, não tenho planos, pelo menos agora, não tenho planos para 2026, nem para outros anos. Eu deixo as coisas acontecerem”

Diante do passado de sua trajetória na Câmara, com histórias e experiências, ao futuro que pretende construir, o presente de Emília é um momento que se expande. A política pode não ser uma linha reta como a de Pirro, mas um campo onde as promessas de mudança podem transformar o curso, desde que colocadas em prática. Resta esperar. O tempo é soberano e permite todo tipo de realidade. 

Sobre a coluna

De Perfil é uma nova coluna do Portal Fan F1, dedicada a perfis jornalísticos. Cada perfil narra a história de vida de uma pessoa, pública ou não, de maneira humanizada e subjetiva. Ao contrário de uma biografia, o perfil é mais conciso e foca em aspectos específicos da trajetória do personagem.

Na estreia da coluna, apresentamos o perfil de Emília Corrêa, a primeira mulher eleita prefeita de Aracaju. A narrativa foi construída a partir da cobertura da cerimônia de início das atividades legislativas de 2025, realizada na Câmara de Aracaju no dia 4 de fevereiro, e de uma entrevista exclusiva com Emília, realizada em seu gabinete em 27 de fevereiro de 2025.

*Sebastião José Basílio Pirro foi o engenheiro que elaborou o primeiro projeto da então nova capital de Sergipe, Aracaju, em 1855. A Praça do Palácio (atual Praça Fausto Cardoso), foi o ponto de partida para o crescimento da cidade, com ruas ordenadas como um tabuleiro de xadrez, para terminar no Rio Sergipe.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

Veja mais