Praça principal do município. Foto: Ícaro Santana

Há 48 anos o município de Porto da Folha (SE), no sertão do estado de Sergipe, sedia a tradicional Festa do Vaqueiro. Em cinco dias de festa, a população local aumenta pelo menos 10 vezes. São cerca de 70 mil pessoas diariamente circulando pelo município,grande parte deles visitantes de outros municípios de Sergipe e estados como Bahia, Alagoas e Pernambuco. A festa já se tornou conhecida, inclusive, fora do Brasil, recebendo turistas da Itália e da França.

Durante os dias da festa a movimentação econômica registrada pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto da Folha (SE) é de R$ 8 milhões de reais. Recursos que contribuem de forma significativa com o desenvolvimento da região.

Monumentos homenageiam a tradição da cidade/ Praça do Boi/ Foto: Ícaro Santana

A comemoração que desperta curiosidade em quem chega para conhecê-la, homenageia o vaqueiro, símbolo da cultura sertaneja e uma das principais figuras responsáveis pela movimentação econômica na região, que gira em torno da agricultura e pecuária. Ele é o trabalhador responsável pelo cuidado do gado, mas que em Porto da Folha, todos os anos no mês de setembro esse trabalho se torna uma verdadeira diversão.

É instalada uma maratona de festa. Paredões, muita gente nas ruas, casas em festa, competições, shows em trios elétricos e em palcos. Jovens, crianças, adultos e idosos, unem o que há de mais contemporâneo na música à tradição de quase meio século que orgulha  o povo nordestino.

“Pega de Boi no Mato”

Parque Nilo Santos lotado ao meio dia/ Foto: Leonardo Barreto

Praça principal de Porto da Folha durante a festa, às 5h30/ Foto: Leonardo Barreto

A agitação que acontece o dia todo e durante a noite na cidade, se repete na Zona Rural, na serra mais famosa da região, Serra dos Homens. É nela que fica o Parque Nilo Santos, onde acontecem as competições, chamadas de “Pega de Boi no mato”. Semelhante a vaquejada tradicional, esta competição é realizada no meio da Caatinga e não em uma pista de areia como normalmente acontece. No caso de Porto da Folha, o vaqueiro não precisa mais derrubar o boi pelo rabo. Foi desenvolvida uma técnica, para evitar o sofrimento animal, para isto, é colocada uma argola no pescoço do boi e quando o vaqueiro sai da Caatinga, traz a argola, demonstrando que conseguiu pegar o animal.

Esta iniciativa demonstra avanço nas discussões que tramitam no Congresso Nacional sobre a extinção da Vaquejada, apontada por parlamentares defensores de sua extinção como uma prática de mal trato animal.

Um dos defensores da continuidade do esporte, o deputado federal Fábio Mitidieri (PSD-SE) pontou que a manutenção da vaquejada é fundamental para o fomento cultural e econômico no nordeste. “É uma prática secular, que estimula jovens, crianças adultos ao contato com a cultura nordestina. Movimenta milhões de reais e gera emprego. É possível dialogar e encontrar caminhos que permitam sua continuidade sem prejuízos à qualidade de vida do animal”, afirmou o parlamentar.

Certamente não é fácil por fim em uma tradição, que impressiona visitantes e até que já está acostumado com a festa por seu tamanho e sua beleza. Debaixo de um calor de mais de 40 graus, a competição ainda atraí cerca de 20 mil pessoas, que se dividem entre uma olhada na “Pega de Boi” e uma dança, já que vários cantores se apresentam em um palco montado ao lado das área destinada à competição.

Negócios

A festa que movimenta o Sertão Sergipano muda completamente o cotidiano do município, que tem 28.615 habitantes, de acordo com último senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

São apenas cinco pousadas em Porto da Folha, todas elas ficam lotadas no período da festa. Empresários fazem inclusive novas contratações para atender a demanda.

Foto: arquivo pessoal

Dona  de uma  pousada no município, a empresária Daiane Lima informou, que desde quando inaugurou o estabelecimento, nunca ficou com um quarto vazio no período da festa. O prédio tem 17 dormitórios. “Pelo menos um mês antes da festa inicio toda a preparação e planejamento para atender aos hóspedes. O faturamento triplica, se comparado com outros meses do ano”, afirmou.

Apesar do esforço de empresários para acolher visitantes na cidade de Porto da Folha, o município é carente no setor hoteleiro, mas tem gente que tratou dar uma amenizada nesse problema, e é claro, futurar uma grana extra.

Ícaro Santana/ Foto: arquivo pessoal

Morador do município, o assessor jurídico, Ícaro Santana, aluga casas para quem chega e quer aproveitar a festa. Em cinco dias, ele consegue faturar o valor referente a cinco meses de aluguel. “Eu tenho algumas casas, que alugo por R$ 300,00 o mês. Vi na festa a oportunidade de melhorar minha renda e os alugueis sobem para R$ 1,500, 00 nesse período. Como normalmente são alugadas por grupos de pelo menos 15 jovens, não fica pesado para ninguém e todo mundo consegue aproveitar a festa bem acomodado”, destacou.

 

Resultados

Na terça-feira, é o dia do balanço. Normalmente a festa começa na quinta e vai até a segunda-feira, depois deste período, é hora dos moradores da pacata cidade voltarem ao seu cotidiano, e contabilizarem o resultado financeiro.

A gestão municipal, que tem um orçamento mensal de pouco mais de R$ 4 milhões, no período da  festa recebe o dobro na injeção financeira do município, somando pelo pelos R$ 8 milhões.

Segundo o Secretário Municipal de Cultura de Porto da Folha, Cristian, a festa é uma vitrine para o entretenimento e os negócios ligados ao vaqueiro. Ele aponta que desde o motorista dos cmainhões que trazem os animais para cidade, até os cantores locais que se apresentam na festa, todo mundo é beneficiado. “São cerca de 15 mil animais na festa, que precisam de veterinários, tratadores, os seus donos, precisam de locais para dormir, para comer, para se divertir. Portanto, temos vários seguimentos mobilizados integralmente. Acredito que isto garante o sucesso da festa, que em breve completará meio século”, pontuou.

Sejam os amantes da festa, ou até mesmo o que não curte muito, todo mundo acaba envolvido e também usufruindo dos resultados gerados por ela.

O trânsito, o comércio, a rotina, tudo passa por alteração e os moradores fazem questão, de ajudar, de orientar e acolher os visitantes que chegam dispostos a aproveitar cada minuto da festa.

Porto da Folha/Foto: Fan F1

Quem mora em Porto da Folha é chamado de “Buraqueiro”, por conta da posição geográfica da cidade, que se desenvolveu no meio de um vale às margens do Rio São Francisco, sob influência da primeira aldeia indígena do estado, de um quilombo e da colonização europeia de portugueses e holandeses.

É nesse “buraco”, que o nordestino revela sua riqueza cultural e a suas estratégias para movimentar a economia.