A renda irlandesa de Divina Pastora (SE) é patrimônio cultural do Brasil reconhecido pelo Iphan e conhecida mundialmente. Peças exclusivas produzidas por rendeiras de Sergipe já vestiram modelos na Europa e figuraram em vitrines fashions do país levadas por mãos de atravessadores. Agora, as rendeiras querem assumir o protagonismo do negócio e uma rede de apoio formada pelo Iphan, Sebrae, e outros órgãos está se formando, tendo as artesãs à frente, para a retomada do desenvolvimento dessa arte única e secular transmitida de geração a geração.

CCBA fica na cidade de Luanda, em Angola. Foto: CCBA

E a oportunidade mais recente para as artesãs se tornarem peças principais na cadeia produtiva deste artesanato sofisticado veio do continente africano. No final do ano passado, a Casa de Cultura Brasil-Angola (CCBA), em Luanda, na Angola, convidou as rendeiras para uma exposição exclusiva.

“Não temos dinheiro, vamos precisar de patrocínio, mas já estamos produzindo”, disse a presidente da Associação das Rendeiras de Divina Pastora, Maria José Souza. “Já temos o patrocínio”, assegurou a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional em Sergipe (Iphan-SE), Katarina Aragão, uma entusiasta da causa.

Trabalho delicado e significativo

Yérsia Souza faz doutorado em Luanda e sugeriu a mostra. Foto: pessoal

A ideia da exposição surgiu da antropóloga Yérsia Souza de Assis, que está em Luanda fazendo doutorado em antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Fiz algumas atividades na CCBA e sugeri uma exposição da renda irlandesa de Divina Pastora, que é patrimônio cultural. Disse que é uma tradição passada de geração a geração”, explicou a doutoranda. No dia que sugeriu, ela usava uma blusa de renda irlandesa, que chamou a atenção da diretora da Casa de Cultura.

A diretora da CCBA é brasileira, mora em Angola há quatro anos e disse que não conhecia a renda irlandesa. “Foi uma surpresa conhecer um trabalho tão delicado e significativo”, exclamou Nídia Klein.

Ela explicou que a ideia é realizar a mostra no final do ano, na capital da Angola. O objetivo, segundo Klein, é mostrar ao povo angolano e aos estrangeiros que vivem nesse país da costa ocidental do continente africano a diversidade da cultura brasileira por meio da renda irlandesa.

Mas, há dificuldades a serem superadas, diz Klein. Segundo ela, o país é cheio de particularidades e há detalhes a serem respeitados e bastante alinhavados até a ideia ser concretizada. “Luanda é a cidade mais cara do mundo e isso é um dos entraves que podem se tornar ponto de dificuldade para exibirmos o trabalho que elas realizam”, ressaltou.

Freiras missionárias ensinaram a arte

Maria José, presidente da Associação das Rendeiras de Divina Pastora. Foto: Fan F1

Mas, as rendeiras são mestras no saber da arte de fazer a renda e de superar desafios. “Vamos levar 80 peças, entre toalhas, blusas, vestidos, saias e acessórios”, afirmou Maria José com muita determinação enquanto tecia uma das peças que irão compor o acervo da mostra.

A renda irlandesa chegou em Sergipe pelas mãos de freiras missionárias europeias na época dos grandes engenhos de açúcar, no Período Colonial. As religiosas ensinaram a arte às damas da região e do antigo povoado Ladeira (hoje Divina Pastora).

Em meados do século XX, a técnica se fortaleceu entre as mulheres pobres, possibilitando outras formas de ganhos econômicos além do trabalho nos canaviais. Foi assim com a bisavó e avó de Maria José rendeiras de “mão cheia” de Divina Pastora. “Minha mãe aprendeu com elas e eu aprendi com minha mãe” conta a atual presidente da Associação para Desenvolvimento da Renda Irlandesa de Divina Pastora de Sergipe (ASDRIDP-SE).

Artesanato de luxo e sofisticação

Toalhas de mesa, colchas são peças de enxoval confeccionadas por mãos talentosas em Sergipe. Foto: Sebrae

As grandes peças em renda irlandesa são caras. As colchas de cama chegam a custar R$ 6 mil, as toalhas de mesa, R$ 3 mil e uma blusa ou saia é vendida em média por R$ 600.  “A renda irlandesa é uma renda de agulha que tem como base o lacê, o que deixa a peça encorpada, com brilho e com um caimento firme, com mais volume e com muita sofisticação. É uma renda original e cara e de grande potencial para a moda. O trabalho é minucioso, que gasta metros e metros de fio, com técnica exclusiva”, explica a designer de moda, Bruna Marques.

Nalva, de Laranjeiras, já fez um blazer para a ex-presidente Dilma. Foto: Fan F1

Maria de Fátima Menezes, de Divina Pastora, fez um vestido para uma noiva que se casou na Bélgica e Ednalva Batista dos Santos, mestra rendeira do polo da cidade de Laranjeiras, fez o blazer que a então prefeita do município, Ione Sobral, deu de presente à ex-presidente Dilma, em passagem por Sergipe.

Mas, nos últimos anos as artesãs repensaram as peças para se ajustarem ao mercado em crise. Produzem as tradicionais colchas, vestidos, blusas e coletes, mas principalmente pequenos acessórios. “Fazemos brincos, colares, porta-moedas e até marcadores de livros”, disseram Katiane e Adenir, rendeiras da cidade de Maruim num dia de exposição num evento do Iphan em Aracaju.

Rede de apoio à renda

Katarina Aragão: Estamos traçando uma grande rede para formação de renda. Foto Fan F1

Uma grande rede de apoio vem sendo formada para salvaguardar a renda irlandesa de Sergipe pensar intervenções para retomar as vendas das grandes peças que no final da década de 90 cresceram exponencialmente pelas mãos de atravessadores. “As rendeiras estão saindo de uma época de muita exploração por parte de atravessadores para assumir o lugar de donas de um saber único e do próprio negócio”, afirmou a superintendente do Iphan.

Katarina Aragão entende que as rendeiras hoje se reconhecem o quanto foram exploradas e passam agora a querer se apropriar de seus negócios. Mas ela ressalta que para isso é preciso o esforço grande de uma rede de apoio para instrumentalizá-las e devolver-lhes a autoestima. “Elas precisam se identificar como únicas detentoras desse saber, que é o saber-fazer da renda irlandesa. Neste momento estamos traçando uma grande rede de políticas de intervenções de trabalho, cursos de moda, enfim, tecendo uma grande rede para gerar renda”, disse.

O Comitê Gestor da Salvaguarda da Renda que está sendo criado é formado pelo Iphan, Museu da Gente Sergipana, Sebrae, Sesc/Senac, prefeituras dos polos das rendas e pelas rendeiras.

Núcleos reúnem mestras para transmitir o saber

“Já estamos produzindo”, dizem as rendeiras de Divina Pastora. Foto: Fan F1

Em outubro do ano passado, 10 máquinas trançadeiras adquiridas pelo Iphan, por meio das ações do Comitê de Salvaguarda, foram entregues às rendeiras de Divina Pastora e demais núcleos de Sergipe. As máquinas começaram a funcionar efetivamente no início deste ano, após as mulheres aprenderem a usá-las na fabricação do lacê, matéria-prima da renda. As trançadeiras além de baratear os custos das peças irão dar independência à produção.

Os polos de renda irlandesa estão nas cidades de Laranjeiras, a 20 km da capital, Maruim, 30km, e no povoado Estiva, em Nossa Senhora do Socorro, a 13km de Aracaju. O Iphan caracteriza como polo os locais onde há transmissão de saber entre as mestras. Não há indicação do número de rendeiras em cada um desses locais.

O comitê gestor e a exposição em Luanda são as ações mais recentes de salvaguarda e de divulgação da renda, mas passos anteriores já vinham sendo dados. A Associação de Renda Irlandesa de Divina Pastora foi criada em 2000 para dar autonomia às rendeiras da pequena cidade referência da renda irlandesa em Sergipe. Foi um grande passo em busca do protagonismo, lembra a analista do Sebrae, Vânia Alzira Rodrigues Santos que acompanha as conquistas e dificuldades das mestras rendeiras há pelo menos 20 anos.

Em 2013, por meio do Sebrae, a renda irlandesa de Divina Pastora recebeu o Selo de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A certificação garante a procedência e qualidade do produto e agrega valor e credibilidade ao artesanato.

Desafios a vencer

Bruna Marques, designer de moda, diz que é preciso aguçar a perspectiva estética. Foto: Fan F1

Exploração, falta de instrumentalização e autoestima são grandes desafios que na opinião da professora e designer de moda se somam à necessidade de capacitação. “É preciso aguçar a perspectiva estética dessas artesãs e evitar que extraiam delas a essência, o saber-fazer”, disse.

Bruna Marques acrescentou que as rendeiras precisam dominar o conhecimento de modelagem, “porque aí, sim, essas mulheres serão protagonistas do trabalho delas, por terem domínio da técnica de uma arte única”, destacou.

Por outro lado, Vânia Alzira garante que o Sebrae aplica cursos há bastante tempo, não na área de moda, mas de empreendedorismo, de qualificação de produtos, precificação entre outros e que o grande entrave é o escoamento do produto. “Eu vejo que o grande gargalo é a comercialização e uma boa divulgação”, assinalou.

Sem representatividade na capital

Precisamos de representatividade na capital. Nós queremos expor no lugar certo e vender nossa arte”, disse Maria José, ao apelar por um ponto de venda específico para a renda irlandesa em Aracaju.

“A renda irlandesa é um artesanato caro com grande potencial de desenvolvimento de renda e autonomia para aquelas mulheres e região, mas elas precisam da divulgação e pontos de vendas específicos”, reforçou a analista do Sebrae.

Na 7ª edição da Feira Agropecuária do Estado de Sergipe, realizada entre 19 a 24 de março, no parque de exposições João Cleófas, zona Oeste da capital, as rendeiras ganharam um estande para expor. Levaram 80 peças, entre colares, pulseiras, brincos com preços variando entre R$ 5 a 80. Retornaram com as 80 peças para casa. “Não vendemos nada”, lamentou Maria José.

A Secretaria de Turismo do Estado garante que a renda irlandesa tem espaço de venda na capital. Segundo a assessoria do secretário Manelito Franco, caso a ASDRIDP-SE queira espaço exclusivo, basta formalizar o pedido junto a Setur que será analisado.

Confira um pequeno trecho de um vídeo em que mostra Maria José e Maria de Fátima confeccionado bordados.