Chega um tempo que os filhos crescem e parecem que ganham asas e o mundo. Foi-se o tempo em que essa separação era mais dolorosa, numa época em que o mundo era bem menos globalizado e o contato feito entre pessoas que moravam em territórios distantes dependia única e exclusivamente de uma carta ou de um telefonema. A costureira Josefa Andrade, mãe da bailarina Maria Aparecida, que há 10 anos mora nos Emirados Árabes, vivenciou essa fase difícil, de comunicação escassa e o coração vivia apertado. Hoje, fala com a filha quase todos os dias e reverencia o avanço tecnológico que ameniza a tristeza da saudade. Outras mães – Glice Rosa e Nivalda Menezes – também sabem o valor que a tecnologia representa, especialmente para as mães que como elas, têm filhos longe dos olhos, mas sempre perto do coração. Conheça um pouco da história delas e de como se relacionam  com seus filhos que moram distante. 

“Eu sou só orgulho e saudade”

Yan, de camisa branca, Glice e Enzo. Foto: arquivo pessoal

A jornalista Glice Rosa Neta é mãe de Ian, 23, e Enzo Rebouças Batista, 20. Enzo, ainda mora com ela, mas Ian é presença virtual há um ano e três meses, período em que o graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe (FS) passou em primeiro lugar no mestrado em Direito Internacional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul “Eram só três vagas”, disse a mãe orgulhosa.

Desde então, mãe e filho se falam todos os dias da semana – menos às quartas e sextas à noite, quando ele dá aula – via skype, chamada de vídeo, de whtsapp e  pelo sistema de voz.

As visitas à família são raras. Passagens aéreas são caras e o valor da bolsa de estudo é insuficiente para mantê-lo em Porto Alegre, o que leva os pais a contribuir com sua permanência na capital gaúcha. “Sempre foi muito focado e consciente do nosso esforço em promover o único bem verdadeiro que podemos deixar para nossos filhos que é a educação”, disse.

“Quando viajou para começar a trilhar o caminho profissional, quase morri. Chorava todos os dias. Quando chegava em casa e olhava o quarto vazio, não me continha. O peito doía, coração acelerava, sensação de medo e temor pelo que pudesse acontecer; filho nunca cresce para as mães. Mas, um fato fez com que eu parasse de chorar e só agradecer a Deus pela bênção de meu filho estar comigo, mesmo na distância”, prosseguiu no relato.

Ela disse que ano passado, tinha ido com a irmã a um show do Padre Fábio de Melo. “Chegamos cedo, mas, já havia fila, e ali ficamos conversando. Atrás de nós estava uma mulher, nova, bonita, bem vestida e de repente começamos a conversar. Em meio à conversa ela nos revelou que estava ali, inteira, graças a essa evangelização e ao amor de Deus. Que há dois meses havia perdido o filho de 24 anos indo para o trabalho num acidente de moto. Chorei por ela e prometi a mim mesma nunca mais chorar porque meu filho estava vivo, distante dos olhos, mas, dentro do meu coração para a eternidade. Eu não tinha motivos para chorar. Se uma mãe, que perdeu o filho estava firme, eu também poderia estar”, relembrou.

Este será o segundo Dia das Mães que passará conectada pelas redes sociais com o filho distante e abraçada ao filho presente.

“Nunca corte o destino de um filho”

Na praia de Dubai mãe e filha matam a saudade. Foto: arquivo pessoal

Os palcos de Aracaju ficaram pequenos para a bailarina que se especializou em dança do ventre e foi parar no berço desta dança, símbolo da sensualidade feminina – no Oriente Médio. Maria Aparecida Andrade nasceu em Lagarto e há 10 anos mora em Dubai.

A comunicação entre ela e a mãe evoluiu muito em uma década e passou das ligações telefônicas e internet esporadicamente para as redes sociais. “Quando ela viajou era muito difícil a gente se comunicar, porque só tinha telefone. Hoje está muito bom porque a gente se fala quando a gente se quer. Tem WhatsApp, a gente se fala se olhando, está muito bom”, disse a costureira que há dois anos criou coragem e viajou até Dubai para conhecer a morada da filha. “Foi muito bom. Passeei muito. Fui com a outra filha”, relatou a lagartense Josefa de Jesus Andrade.

Dona Josefa tem outros seis filhos. Raquel é uma das que a auxilia quando precisa diversificar o tipo de comunicação com Nona, como chamam carinhosamente a filha/irmã distante. “Hoje a acessibilidade é bem maior com o Skype, Botim, WathsApp dando a comodidade e a facilidade para falar em qualquer lugar e a qualquer hora”, disse Raquel.

A saudade aperta sem o contato físico diário. Nona vem ao Brasil ver a mãe e a família uma vez por ano, mas, apesar da distância, dona Josefa dá um conselho: “qualquer mãe que tenha um filho, uma filha que tenha vontade de viajar para fora do Brasil, nunca corte o destino de um filho. A gente sente, eu senti, mas hoje eu estou feliz porque sei que ela está muito feliz onde está”, disse.

“Quero ganhar o mundo”

Nivalda vai, pelo menos, uma vez ao ano, a São Francisco ver Rafael, um jovem executivo da telecomunicação. Foto: arquivo pessoal

Desde muito pequeno, o jovem executivo do Twetter, Rafael Menezes, dizia que ia ganhar o mundo. E não é que ele ganhou? Em 2010 concluiu o curso de Ciências da Computação pela Universidade Federal de Pernambuco e o aracajuano filho de uma professora/jornalista e de um juiz partiu para Pasadena, na Califórnia (EUA) cursar mestrado no Instituto de Tecnologia da Califórnia, na Caltech.

Atualmente, o filho de Nivalda Menezes trabalha com inteligência artificial no Twetter. Mora em São Francisco e fala frequentemente com a mãe pelo WhatsApp. Pelo menos uma vez por ano, Nivalda vai aos Estados Unidos visitar o filho caçula.

Ela tem três filhos – Rafael, Danilo e Vinícius – e uma neta. Neste Dia das Mães, irá dividir a alegria da maternidade com a mãe Josefa, os irmãos, os filhos presentes e com a contato virtual que a tecnologia que o filho distante ajuda a construir.